Cultura de Vermes-de-Grindal

O Verme-de-Grindal (Enchytraeus buchholzi) é um pequeno verme branco, de aproximadamente 1 cm de comprimento quando adulto, que se utiliza na alimentação de peixes e alevinos. O nome de “Grindal” parece ser proveniente do nome da Senhora Grindal, uma sueca que foi a primeira a cultivá-lo como alimento em aquariofilia.

Vermes-de-Grindal.
Vermes-de-Grindal.

O grande interesse por estes vermes se deve a facilidade de cultivo, serem muito prolíferos e a voracidade com que são devorados pelos peixes. Outra coisa a se ter em conta é que são ótimos para alevinos de muitas espécies e despertam o apetite em peixes enfermos, debilitados ou que não estejam aceitando alimento comercial seco.

Os peixes se sentem atraídos pelo alimento vivo, por seu movimento, por seu sabor, mudando seu comportamento de forma surpreendente quando lhes oferecemos este tipo de alimento, suas cores se ressaltam, os movimentos são mais rápidos, se desperta o instinto de caça. Até os menores peixes são capazes de comê-los, desde que caibam em suas bocas.

Os benefícios do alimento vivo são sem dúvida conhecidos, o problema é como consegui-los e mantê-los. Por sorte, o verme-de-grindal é um dos mais fáceis de conseguir e de cuidar e nos permite oferecer uma dieta variada a nossos peixes.

Vejamos então passo a passo como iniciar um cultivo de vermes-de-grindal:

1) PREPARAÇÃO DO RECIPIENTE DE CULTIVO

O ideal antes de recebermos nossa primeira cêpa de vermes é preparar com antecedência o recipiente de cultivo.

Devemos levar em conta que os grindal são vermes que vivem sobre terra úmida e que também são fotófobos, evitam a luz. Por isso o recipiente ideal deve ser escuro para que não seja permitida a entrada de luz, apesar de que na realidade qualquer recipiente que possamos guardar em um local escuro, como um armário, serve.

O tamanho do recipiente também não tem importância, como mostraremos adiante; vamos mostrar aqui como adequar um recipiente plástico de 1 litro.

A primeira coisa a se fazer é cortar um pequeno quadrado de 3 X 3 cm na tampa. Ele servirá como respiradouro para evitar que o excesso de umidade se condense. Existem pessoas que não fazem furos na tampa, como aconselho, mas nesse caso temos que abrir diariamente a cultura para vigiá-la, pois existe o risco de se perder os vermes por excesso de umidade.

Corte na tampa do recipiente.
Corte na tampa do recipiente.

Depois disso, devemos proteger a janela de ventilação com algo suficiente fino para os vermes não saiam, mas que mantenha o local arejado. O melhor resultado que tive foi cortar um pedaço de meia-de-seda feminina e colá-lo dobrado sob a janela. Para colá-lo, qualquer cola de contato serve perfeitamente.

Colando pedaço de meia-de-seda na janela.
Colando pedaço de meia-de-seda na janela.

Alguns usam perlon para tapar as janelas de ventilação, mas eu não recomendo. O motivo disso é que esta vedação não serve apenas para evitar que os vermes saiam, mas também para evitar a entrada de ácaros. Os ácaros são muito menores que os próprios vermes e podem passar facilmente pelo perlon e qualquer outro tipo de malha. Sem dúvida, a trama das meias é tão fechada que evitam a entrada dos ácaros, e assim mesmo eu ponho duas camadas, por causa de algum rasgo acidental.

Uma vez que tenhamos colado os pedaços de meia, cobrimos a borda com mais cola para evitar que algum verme se meta por ali.

Deixando a cola secar.
Deixando a cola secar.

Deixamos então a cola secar em um lugar ventilado e pronto! Já temos o nosso recipiente. Como havia dito antes, serve qualquer pote, mas para nossa comodidade os de 1 litro são mais práticos.

Aconselho sempre ter pelo menos duas culturas de vermes em produção. Se algo ocorrer com uma, sempre temos a oportunidade de iniciar outra. Podemos ter duas culturas grandes e uma ou duas pequenas.

Aqui abaixo, podemos ver três exemplos: Um pote de sorvete, um de margarina e outro pote comum, com tampa.

Tipos de recipientes.
Tipos de recipientes.

Uma vez que nosso recipiente fique pronto, já pode receber seus novos ocupantes.

2) INÍCIO DA CULTURA

Como tínhamos dito antes, os vermes-de-grindal vivem em terra úmida e por esse motivo para reproduzí-los devemos proporcionar condições semelhantes.

Sei de criadores que tem conseguido mantê-los sobre perlon, espuma, esponja, etc. Eu particularmente já usei algum destes métodos e digo que nem sempre é fácil mantê-los e que nunca se chega a igualar a produção, velocidade de crescimento, coleta e manutenção que se consegue com substratos naturais como a turfa.

Vou explicar como preparar os dois tipos de substratos mais comuns que se utilizam para cultivar os vermes-de-grindal: a turfa e a fibra de coco.

Sustrato de turfa:

A turfa é um substrato a base de matéria vegetal, que se usa para o cultivo de plantas e que retém muito bem a umidade.

Geralmente o que encontramos mais facilmente é a terra adubada, que é o substrato universal para plantas. Pode-se utilizá-lo para criar vermes-de-grindal, mas a turfa tem muitas vantagens. A terra adubada contém turfa, restos de vegetais, areia e adubo, químico ou orgânico. Ao utilizarmos para os vermes-de-grindal veremos que os pequenos pedaços de madeira tornam a superfície pouco uniforme e dificultam a colheita dos vermes.

Por isso, o ideal seria encontrar turfa pura, sem aditivos. Podem-se encontrar turfas com várias denominações, como turfa vermelha, turfa de esfagno, etc. Qualquer uma delas nos servirá. A turfa tem o pH ácido que dificulta a proliferação de micro-organismos não desejados em nossa cultura.

O que podemos encontrar com mais facilidade são pequenos blocos de turfa adubada. O ideal seria que não tivéssemos adubos nem nenhuma substância química, mas essa turfa pode ser usada sem problemas.

O primeiro passo é deixar a quantidade adequada de molho em um recipiente com água, para que se perca parte do adubo. Depois, escorre-se com a ajuda de um coador e volta-se a deixá-la de molho por mais um tempo e escorre-se a água de novo. Agora está em condições de ser utilizada.

Drenando a turfa.
Drenando a turfa.

Existem pessoas que preferem ferver a turfa durante alguns minutos e outros a colocam em microondas para esterilizála. Eu já experimentei os dois métodos e também já a utilizei diretamente, apenas lavando-a e o resultado foi o mesmo. Os grindal crescerão da mesma forma e não aparecerão fungos nem ácaros em nenhuma das culturas. Assim sendo, prefiro não ter trabalho.

Sei que existem pessoas que usam bicarbonato na turfa para reduzir a acidez, mas eu nunca utilizei e produzo muitos vermes. Minha única recomendação é lavar a turfa duas vezes.

Uma vez que a turfa tenha sido deixada de molho, usaremos uma peneira metálica grande para drená-la.

Colocamos uma camada de 2 a 3 cm no recipiente e aplainamos com uma colher. Está pronta então para receber os vermes. Uma das peculiaridades dos vermes-de-grindal é que não se encontram com facilidade para comprar. Na verdade, é mais fácil conseguí-los com outros criadores. Assim o cultivo se difundiu pelo mundo a fora.

Colocando as porções de vermes nas depressões:

Uma cêpa de grindal é uma pequena porção de cultivo que contém, sobretudo, substrato e uma quantidade variável de vermes. Não nos preocuparemos com a quantidade de vermes que existe nessa cêpa, pois só necessitamos de dois para a reprodução e em poucas semanas a população inicial será multiplicada por cem.

A primeira cêpa de Vermes-de-Grindal.
A primeira cêpa de Vermes-de-Grindal.

Na hora de colocar a cêpa inicial na cultura, recomendo fazer duas pequenas depressões (se forem poucos vermes, uma só) para distribuir nelas a terra com os vermes. Devemos construir alguns morrinhos além das depressões. Parece curioso, mas você descobrirá que os grindal preferem colocar os ovos nos lugares mais altos da turfa. Cerca de 90% dos vermes escolherá por os ovos nestes montes.

Desenvolvimento dos Vermes-de-Grindal.
Desenvolvimento dos Vermes-de-Grindal.

Para finalizar, poremos em cima um pellet de ração de cachorro ou de gato, dependendo da quantidade de vermes que houver. Não adianta por muita comida se houverem poucos vermes, pois o alimento acabará se estragando antes de ser consumido.

Substrato de fibra de coco:

Já vimos como preparar o substrato de turfa, agora veremos como fazê-lo com fibra de coco.

Bloco de substrato de coco.
Bloco de substrato de coco.

A fibra de coco provém das cascas do fruto do mesmo nome, que é rica em celulose e lignina. É capaz de absorver 10 vezes seu peso em água, e mantém uma estrutura esponjosa.

A principal diferença da turfa, é que drena a água mais facilmente, com o que corremos menos risco de se perder a cultura, já que a água vai para o fundo do recipiente e a parte superior permanece apenas úmida, não encharcada.

Os vermes-de-grindal crescem tão bem em um substrato quanto no outro, se bem que se amontoam melhor na turfa. Assim mesmo, não é uma grande diferença e qualquer dos dois substratos é uma excelente opção.

A fibra de coco se vende em blocos prensados, e se encontram em lojas de jardinagem, pois podem ser usados em terrários.

Bloco de substrato de coco sendo hidratado.
Bloco de substrato de coco sendo hidratado.

A preparação é muito fácil: Retiramos o bloco do saco e colocamos o mesmo em um recipiente com água, na quantidade recomendada pelo fabricante. Neste caso de 3 litros a 5 litros, sendo 4 litros uma boa quantidade.

Bloco de substrato de coco se desfazendo.
Bloco de substrato de coco se desfazendo.

O bloco de fibra começará a absorver água e inchar, aumentando de volume. Conforme for se desmanchando, iremos revolvendo-a para que isso aconteça de maneira uniforme.

Neste momento teremos nossa fibra esponjosa e úmida, pronta para ser usada da mesma forma que foi explicado com a turfa.

Fibra de coco umedecida.
Fibra de coco umedecida.

A fibra umedecida que sobrar podemos guardar em um saco fechado, num local arejado. Já teremos a fibra pronta para ser utilizada quando precisarmos.

3) A ALIMENTAÇÃO DOS VERMES-DE-GRINDAL

Como foi dito, uma vez que coloquemos nossa cêpa inicial sobra a fibra de coco, é hora de oferecer um pouco de comida, que aceitarão com gosto.

Os vermes-de-grindal podem comer praticamente de tudo, farinha, cereais, etc, mas existe um alimento que é cômodo e perfeito para o seu desenvolvimento, fazendo com que cresçam rapidamente. Para que então usar outro tipo de comida?

O que recomendo para a alimentação dos grindal são os pellets de ração para cão ou gato, preferivelmente os normais, que são melhores que os com complementos vegetais ou coloridos.

Quanto ao tamanho dos pellets, apesar de parecer curioso, devemos tomar alguns cuidados, porque nos permitirão coletar os vermes com mais comodidade. A ração para gato é muito pequena e tendo-se uma grande quantidade de vermes, esta desaparecerá por completo em algumas horas e, quando formos alimentar os peixes, corremos o risco de colocarmos ração junto com os vermes, no aquário.

Por isso, depois de muita experimentação, cheguei a conclusão que quanto maior for o pellet, melhor. Assim os ideais são aqueles para raças de cão grandes. Eu utilizo umas que se vende para cães da raça boxer, que são grandes e planas, oferecendo uma grande superfície onde os vermes se acumulam ao redor.

Uma coisa devemos levar em conta, a quantidade de pellets que formos colocar deve estar relacionada a quantidade de vermes que tenhamos na cultura. Não devemos colocar um pellet grande em uma cultura inicial, porque antes que os vermes comam tudo, ele mofará.

Por isso, ao iniciarmos nossa cultura, bastará colocar um pequeno pedaço de pellet ou um pellet pequeno para alimentar os primeiros vermes. Uma vez que a cultura esteja em crescimento e comecemos a ver uma grande quantidade de vermes e ovos, podemos começar a colocar os pellets maiores, um ou dois, dependendo do tamanho do recipiente. Saberemos que colocamos a
quantidade correta quando em dois dias toda a ração tiver desaparecido. Será o momento de colocarmos novos pellets.

Apenas alguns dias depois do início de nossa cultura, a mesma apresentará o aspecto da primeira foto acima.

Cultura de Vermes-de-Grindal depois de alguns dias.
Cultura de Vermes-de-Grindal depois de alguns dias.

Duas semanas depois, a cultura está em seu apogeu e uma grande quantidade de vermes se empelotará em torno dos pellets.

Cultura de Vermes-de-Grindal depois de duas semanas.
Cultura de Vermes-de-Grindal depois de duas semanas.

Podemos ver também a evolução da mini-cultura no recipiente pequeno.

Mini-cultura de Vermes-de-Grindal.
Mini-cultura de Vermes-de-Grindal.

Apenas poucos dias depois de iniciar a cultura, podemos ver sobre as regiões mais altas da turfa umas pequenas bolinhas brancas, que são os ovos dos vermes-de-grindal, a futura geração.

Detalhe Vermes-de-Grindal e seus ovos.
Detalhe Vermes-de-Grindal e seus ovos.

Os reprodutores podem ser distinguidos facilmente porque são de porte maior (1 cm) e apresentam um abaulamento retangular de cor branca na metade de seu corpo, como as minhocas de terra.

4) ALIMENTANDO NOSSOS PEIXES

Quando tivermos nossa cultura com os pellets rodeados de vermes, é o momento de colher uma porção deles e iniciar uma nova cultura. Aconselho sempre ter no mínimo duas culturas, que devem ter duas semanas de diferença entre si, assim sendo, teremos sempre uma em plena produção para oferecer aos nossos peixes. Quando uma começar a decair, a outra estará em seu apogeu.

Vermes-de-Grindal no pellet.
Vermes-de-Grindal no pellet.
Colhendo Vermes-de-Grindal.
Colhendo Vermes-de-Grindal.

Se já tivermos outra cultura pronta, podemos passar diretamente a colheita dos vermes para alimentar nossos peixes.

Como foi dito antes, o principal motivo para colocarmos os pellets de maior tamanho quando existem muitos vermes, é que os mesmos se acumulam em grande quantidade em redor deles e é muito fácil colhermos sem substrato.

Sei que existe gente que colhe uma porção de substrato com os grindal, coloca o torrão dentro água ou em um coador, para limpar e após isto joga a água com os vermes no aquário.

Este é um trabalho que não temos quando utilizamos o método dos pellets grandes.

Se olharmos a foto “Vermes-de-Grindal no pellet”, veremos que os grindal formam uma capa de cerca de 1 cm de altura ao redor e por baixo do pellet, sem substrato. Serão estes os vermes que colheremos para nossos peixes.

A forma de colhermos pode ser tão variada quanto nossa criatividade permitir: podemos utilizar um palito, para colher pequenas porções (ideal para poucos peixes), uma colher plástica, um pincel, ou qualquer outra maneira que nos ocorra.

Quando os grindal se amontoam desta forma ao redor dos pellets, é muito fácil colher grandes quantidades sem tocar no substrato, tanto ao redor quanto sob os pellets.

É possível que quando pusermos os vermes-de-grindal à primeira vez em nosso aquário os peixes fiquem desconfiados, mas isso apenas até provarem os mesmos. É surpreendente como os néons de dois cm são capazes de comer até 10 vermes de uma vez só, ficando redondos de tão cheios. Não existe peixe que não goste dos mesmos e o seu movimento pela corrente de água desperta ainda mais o apetite dos peixes.

Não se preocupe se os vermes chegarem ao fundo, se tiver coridoras as mesmas darão conta deles, elas adoram. Revolverão o solo durante horas para se assegurar que não resta nenhum.

Tem-se falado muito que os vermes-de-grindal são muito gordos e não se deve utliizá-los mais que uma vez por semana. É certo que possuem quatro vezes mais gordura que blood worms, mas também tem o dobro de proteínas. É um dos alimentos mais energéticos para crescimento dos alevinos da maioria das espécies de peixes ornamentais.

O valor nutricional dos vermes-de-grindal vivos é de 10-12% de proteínas, contra cerca de 2,7 % de gorduras.

Os grindal adultos são uma deliciosa comida para os peixes de tamanho pequeno e médio, como os ovovivíparos como guppies, molinésias; labirintídeos como Bettas splendens e colisas; todos os tipos de tetras de tamanho pequeno e médio; peixes de fundo como coridoras e para praticamente todos os tipos de peixes.

Para os peixes de maior tamanho os vermes não deixam de ser uma deliciosa guloseima ou mini aperitivo, porque será praticamente impossível chegar a saciá-los com eles. É curioso ver como uma carpa de 20 cm pode distingui-los e se mover como louca tentando capturar a maior quantidade possível destes pequenos vermes.

Ao alimentar os alevinos de peixes, veremos que os grindal adultos são muito grandes para alevinos que medem menos de meio centímetro. Neste caso, o que interessa não são os grindal adultos, mas os recém nascidos. Quando uma cultura está abarrotada de vermes e a ponto de se perder, os adultos não prosperam e os grindal de tamanho pequeno proliferam. São estas culturas que nos proporcionam vermes que pequenos o suficiente para darmos a nossos alevinos. Uma vez que estejam crescendo, os alevinos serão capazes de comer grindal de maior tamanho, e nos surpreendemos com a voracidade que demonstram alguns filhotes tentando comer os vermes com quase o seu tamanho.

Uma curiosidade do vermes-de-grindal é que diferentemente da artêmia, permanece vivo por cerca de 24 horas no aquário, e os alevinos podem continuar comendo vermes vivos no fundo do aquário.

5) REINICIANDO UMA CULTURA

Conforme se passem algumas semanas, nos damos conta que nossa cultura tem tal quantidade de ovos que quase não há lugar para se ocupar e os vermes começam a colocá-los nas paredes do recipiente.

Os vermes adultos morrem e a cultura fica com um aspecto ruim, inclusive pode começar a cheirar mal. Colocar novos pellets não faz com que voltem a aparecer tantos vermes-de-grindal como estávamos acostumados.

É o momento de darmos por finalizada nossa cultura e reiniciar uma nova. Se tivermos sido precavidos teremos outra cultura em plena produção, de onde poderemos seguir colhendo os vermes enquanto a nova se reinicia.

Na hora de reiniciar a cultura tem gente que colhe uma porção de substrato, e outros inclusive lavam a turfa e voltam a utilizá-la. Pelo preço, eu prefiro não ter este trabalho e inicio com turfa fresca.

Colhemos todos os vermes que pudermos com um pouco de terra ao redor dos pellets (sem pegar os mesmos) e os colocamos em um prato. Tiramos toda a turfa velha e lavamos o recipiente e a tampa com água da torneira. Colocamos de novo turfa ou fibra de coco úmida e pomos os vermes que reservamos antes, da mesma forma de quando iniciamos a cultura.

Recolhendo Vermes-de-Grindal.
Recolhendo Vermes-de-Grindal.

Podemos adicionar mais vermes colhidos de outra cultura, assim asseguramos uma boa população. Pomos dois pellets e já teremos outra cultura pronta.

PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE OS VERMES-DE-GRINDAL

P: Muito interessante o artigo, creio que vou me animar e iniciar uma cultura para meus peixes, mas onde consigo a cêpa inicial?

R: Vermes-de-grindal não se encontram em lojas de aquariofilia, se conseguem da forma que quase todos conseguimos: através da troca com outros criadores. É certo que quase todos se recordam de quem lhes deu sua primeira cêpa de grindal.

Não é nenhum prejuízo pegar um pouco de sua cultura e ofertar a um companheiro. Temos que ser solidários com os que não tem, para que nós mesmos consigamos se perdermos os nossos.

Pergunte em fóruns de aquariofilia se alguém pode lhe passar uma cultura inicial, crie uma lista inicial daqueles que possuem os vermes e você nunca mais ficará sem os mesmos. Se por acaso perder sua cultura, você pode escrever para aquele a quem você deu parte de sua cultura para que ele iniciasse a sua própria.

P: Iniciei minha cultura em turfa, mas no dia seguinte ao abri-la todos os vermes haviam desaparecido, outros não se movem e a cultura parece mal, o que aconteceu?

R: Provavelmente se deve ao excesso de água, os grindal são muito sensíveis a ele e é preferível faltar umidade que sobrar. Se não há ventilação ou ela é pouca e tivermos deixado a turfa muito encharcada, a umidade será excessiva e os grindal morrerão. Sua decomposição fará com que a cultura cheire mal.

P: Coloquei a turfa no recipiente, mas creio que não escorri o suficiente, pois a turfa verte água quando inclino a cultura. Tenho que tirar a turfa novamente ou existe algo que possa fazer para retirar o excesso de água?

R: Tanto se colocar uma turfa demasiado empapada como se nos excedermos ao molhar demais uma turfa demasiado seca, existe uma opção para absorver o excesso de água sem tirar a cultura.

Secando a turfa.
Secando a turfa.

Coloque uma toalha de papel absorvente dobrado sobre a turfa, em um dos cantos. Pode também inclinar a cultura para que a água se acumule ali. Quando o papel estiver encharcado, troque-o por outro e repita o processo até que a turfa deixe de ficar encharcada e o solo se mantenha úmido.

P: Como saber que a cultura está com excesso de água?

R: Os grindal necessitam de umidade, porém se a turfa estiver encharcada pode causar a morte deles. Incline o recipiente e veja se escorre água. Se ocorrer, existe água demais. Quando se passarem alguns dias, observe a superfície da cultura para ver se a mesma necessita de mais água.

A melhor maneira de umedecer é abrir a tampa da cultura e tomar com os dedos algumas gotas de água e ir deixando cair pelas paredes ao redor do recipiente. A umidade se distribuirá por igual em toda a cultura e a turfa absorverá bem a água.

Com a fibra de coco é menor a probabilidade que a parte superior da cultura tenha problemas de excesso de água já que ela drena melhor a água para baixo.

Por ouro lado, não é bom jogar água nas zonas onde os vermes se alimentam, já que dissolveremos os restos de comida e os mesmos se infiltrarão para o fundo do recipiente, assim como não é bom jogar água em cima dos pellets. Eles absorveriam a água e seriam mais propícios à proliferação de fungos.

P: Os pelllets estão com mofo, o que fazer?

R: O mofo necessita de solo úmido para crescer e encontra isso facilmente em nossas culturas de grindal. É praticamente impossível evitar que caia um esporo em nossa cultura, por isso o que podemos fazer é prevenir que eles se reproduzam. Coloque apenas a quantidade de comida necessária a quantidade de vermes que tiver: se tiver iniciando a cultura, só é necessário um pedaço de pellet. Quando existirem muitos ovos e muitos adultos, ponhas pellets grandes sem medo do mofo, porque os vermes os comerão antes que o mofo apareça.

Se assim mesmo o mofo aparecer no pellet, eu recomendo que o retire o quanto antes, antes que o solo seja contaminado. Recomenda-se uma revisão diária das culturas para detectar possíveis problemas (excesso de umidade, pragas, falta de comida) para intervenção o quanto antes.

Tire o pellet com o mofo e se puder, tente recuperar alguns do vermes que ficarem grudados nele, sem tocar demasiado no mofo, já que libertará os esporos. Se o mofo cresceu muito, com mais de 1 ou 2 cm, não devemos nem tentar salvar os vermes que tiver ao redor. Neste último caso o melhor será lavar bem o recipiente e iniciar nova cultura.

Quando o mofo tiver soltado os esporos em nossa cultura é mais fácil que ele volte.

P: Hoje ao abrir a cultura, vários mosquinhas negras pequenas saíram voando. O que são? São prejudiciais?

R: Se tratam seguramente de drosófilas ou moscas de fruta, seguramente entrou alguma na cultura e ali pôs os ovos. Não parecem afetar os vermes-de-grindal, salvo se competirem com eles pela comida. Vigie a cultura diariamente e faça com que saiam todas as moscas que aparecerem, se elas deixarem de aparecer, reinicie a cultura.

P: Os vermes deixaram de crescer, e olhando com mais detalhe, vi que existem minúsculos bichinhos amarelos como pontos se moverem. O que são?

R: São ácaros, a pior praga que pode afetar uma cultura de vermes-de-grindal. Medem apenas meio milímetro e são capazes de entrar por qualquer parte. Se não tiver a janela de ventilação coberta com uma capa de meia, dobrada, aconselho que o faça. É a única maneira de evitar que os ácaros entrem.

Os ácaros se alimentam dos pellets, e preferem que a turfa esteja seca. Reproduzem-se com grande velocidade e provavelmente infestarão todo o armário onde você guarda suas culturas.

Faça uma revista no local onde o recipiente estava. Provavelmente haverá centenas deles entrando e saindo para buscar comida. Limpe bem tudo ao redor.

Tome cuidado aonde colocar a tampa do recipiente quando estiver alimentando seus peixes e procure não deixar o recipiente aberto por muito tempo aberto em algum móvel ou outra superfície. Poderia subir um ácaro pelas paredes e entrar na cultura.

Tome cuidado também onde você guarda a ração, já que às vezes temos o recipiente dos vermes lacrado, mas o saco da ração semiaberto, e é por aí que entram os ácaros em nossa cultura, junto com a ração. Devemos guardar a ração em um recipiente com tampa hermética que feche bem, tal qual a cultura.

É muito difícil eliminar os ácaros por completo. Se você conseguir salvar uma parte de sua cultura sem ácaros, tire uma porção, coloque em um recipiente pequeno com turfa nova e observe. Na cultura anterior, tire toda a turfa, lave o recipiente bem e deixe pelo menos por duas horas no congelador, para que algum ácaro que tenha ficado dentro não venha a reiniciar a praga. Coloca de novo turfa limpa e tente conseguir uma nova cultura que não seja infestada por nenhum ácaro, assim terá certeza de não introduzi-los novamente em sua cultura.

Se resolver tentar recuperar sua cultura eliminando os ácaros, a solução é colher aproximadamente uma dúzia de vermes adultos e deixa-los de molho em um pouco de água. Os ácaros que possam estar presos nos vermes se afogarão enquanto os vermes sobreviverão sem problemas.

Tire toda a turfa e lave bem o recipiente congelando-o do modo anterior, coloca de novo a turfa limpa e os grindal resgatados. Um pequeno pedaço de pellet será suficiente. Com sorte poderá reiniciar de novo a cultura sem ácaros.

Os ácaros não prejudicarão os grindal e a cultura deverá prosperar como estava anteriormente. Para se manter uma cultura saudável e produtiva devemos evitar a presença destes bichos.

P: Depois de quanto tempo devo reiniciar a cultura?

R: É difícil dizer exatamente com quantos dias devemos reiniciar as culturas, porque depende de muitos fatores. A temperatura e a velocidade de crescimento e reprodução, a quantidade de comida e de vermes, etc. Somente a experiência nos dirá quando é o momento de reiniciar a cultura.

Os dejetos dos vermes, os que vão morrendo e os restos de comida pouco a pouco vão poluindo o substrato, tornando-o inadequado para os novos vermes que vão nascendo, inclusive gerando um mal odor. Notaremos que haverá menor quantidade de vermes e que eles se desenvolverão mais lentamente, além do que todo o substrato estará coberto de ovos.

Terá chegado o momento de lavar tudo muito bem e começar de novo.

P: Qual a temperatura ideal para manter minha cultura de grindal?

R: Bom, os vermes são capazes de se desenvolver em uma boa faixa de temperatura, porém, em temperaturas abaixo de 18 ºC, se desenvolverão menos, o mesmo para temperaturas superiores a 32 ºC. O ideal é mantê-los na temperatura do interior de uma casa, entre 22-26 °C.

O melhor lugar para guardar o recipiente da cultura é um armário escuro, como por exemplo, a mesa do aquário, e devemos procurar não cobrir as janelas de ventilação. Recomendo vigiar diariamente a cultura para que não tenhamos problemas.

P: Descuidei-me da cultura e ela está toda seca, não vejo nenhum verme. Todos morreram? Que posso fazer?

R: É mais provável que todos os adultos tenham morrido, mesmo assim restarão alguns ovos, e é possível que a cultura se reinicie. Umedeça a turfa e coloque um pequeno pedaço de pellet. Se tiver sorte, dos ovos nascerão alguns vermes e você poderá recuperar sua cultura.

P: Tenho um aquário comunitário de 120 litros com ovovivíparos, coridoras e um caracol grande, Qual a quantidade de vermes e de quanto em quanto tempo devo dar-lhes?

R: É difícil de dizer, como explicamos antes, o grindal não tem tanta gordura como pensávamos, por isso, pode ser perfeitamente incluído no cardápio em uma dieta variada. Além disso, é um alimento vivo, que possui enzimas que facilitam a digestão dos peixes que os comem, fazendo com que as proteínas sejam melhor aproveitadas.

Podemos oferecer aos nossos peixes pequenas porções várias vezes por semana, na quantidade mais ou menos suficiente para saciar a um peixe do tamanho de um guppy, já que assim os coridoras também receberão sua parte. Se preferir que os peixes os comam na superfície, devem ser dados aos poucos, com um palito. Assim eles prestarão mais atenção e os alcançarão antes que cheguem ao fundo.

P: Meu Betta splendens está doente com o apodrecimento das nadadeiras e está muito debilitado. O tenho medicado em uma betteira, ele está com as nadadeiras fechadas e não quer comer. Que posso dar-lhe?

R: A solução se chama grindal. Estes vermes são capazes de despertar o apetite dos peixes mais debilitados, e também daqueles que não estão aceitando ração. O alimento vivo (daphnias, larvas de mosquito) chama mais a atenção dos peixes que os alimentos secos, e são uma boa opção para que eles recuperem as forças e o apetite antes de voltar a introduzir de novo uma dieta mais equilibrada.

P: Tenho muitos grindal, já enchi os peixes com eles e os mesmos não os querem mais. Já iniciei uma nova cultura e me sobraram muitos vermes. Que posso fazer com eles?

R: Bom, podes dar umas cêpas àqueles criadores que não o possuem. E depois, existe uma opção que tenho feito ultimamente, congelá-los. Devemos ter em conta que nem sempre se a cultura tem muitos vermes está melhor, ao contrário, há de se ter um termo médio. Quando vemos muitos vermes adultos ao redor dos pellets, devemos retirá-los, já que morreriam sem termos podido aproveitá-los, e contaminar a cultura.

Colocando os Vermes-de-Grindal no blister (embalagem).
Colocando os Vermes-de-Grindal no blister (embalagem).

Deve-se manter um equilíbrio entre adultos e cuidar que não fiquem muitos ao redor dos pellets.

Normalmente uma cultura em seu melhor momento é capaz de produzir praticamente uma colher cheia de vermes a cada dois dias, no que podemos aproveitar para congelá-los.

Eu utilizo embalagens vazias de comprimidos (blisters), uma vez que os tenha utilizado totalmente. São realmente práticos, já que dão a quantidade ideal para um aquário de tamanho médio-grande. Sendo uma quantidade maior, provavelmente os peixes se satisfariam antes de consumi-los todos.

Colhendo com um palito vamos pegando os vermes sem substrato, e vamos enchendo os reservatórios da embalagem.

Não nos preocupemos que os vermes possam escapar, eles não o farão! Como foi dito no início, eles são fotófobos. Quando colocados na luz, tentarão se empelotar no recipiente da embalagem, em lugar de escapar. Coloco-os no congelador imediatamente. Não se preocupe com isto também, já que da mesma forma os vermes tentarão empelotar-se para buscar calor. Quando for usá-los estarão na mesma posição em que foram colocados.

Teremos vermes para vários meses, prontos para ser utilizados quando quisermos, alimentando nossos peixes numerosas vezes. Quando for preciso basta sacar uma pastilha de vermes da embalagem e deixa-la descongelar em uma tampinha.

Uma vez descongelada podemos colocá-la diretamente no aquário ou em porções.

Vermes-de-Grindal congelados em blister (embalagem).
Vermes-de-Grindal congelados em blister (embalagem).

Em relação ao grindal vivo, o congelado tem uma porcentagem de água menor, mas um valor nutritivo similar. A diferença é que os congelados não se movem, são arrastados pela corrente ou caem no fundo. Comparando o comportamento dos peixes ao oferecer o alimento vivo ou congelado, parecem se comportar com mais vivacidade quando os grindal se movem, mas aceitam perfeitamente o grindal descongelado.

P: Tenho muitos vermes e um amigo me pediu uma cêpa. Como posso enviá-los pelo correio?

R: Não há problema em enviar os vermes pelo correio [Nota do editor: No Brasil, não é permitido o transporte de micro-organismos vivos via serviço postal], só deves preparar um recipiente adequado. Por exemplo, uma embalagem de molhos que restaurantes nos dão para levar para casa, um pote de filme fotográfico, um tubo para exame de fezes ou urina, etc. Praticamente qualquer recipiente pequeno que se possa fechar hermeticamente.

Exemplo de cêpa de Vermes-de-Grindal prontos para envio (transporte).
Exemplo de cêpa de Vermes-de-Grindal prontos para envio (transporte).

Existe uma diferença na hora de embalá-los para envio, não devem ter janelas de ventilação, já que por ali poderiam escapar. Por isso, é importante que a turfa que pusermos seja menos molhada que em nossa cultura. O excesso de umidade poderia ser uma das causas da morte dos vermes no trajeto. Coloquemos turfa limpa e uma boa quantidade de vermes.

Podemos enviá-los por encomenda normal, pois podem passar vários dias sem problemas. Se resolvermos colocar um pouco de comida, deve ser mínimo, apenas um pedacinho de pellet e apenas se o substrato não tiver muito úmido, pois a comida o absorveria e estragaria.

Bom, esperamos que tenhamos servido de utilidade para um conhecimento melhor deste alimento vivo, que na verdade é muito fácil de manter e é muito bom para os peixes!


Elena C. “Gaua”

Tradução livre: Paulinho Freitas

Sugestões para estrutura de exposição de Betta splendens em estabelecimentos comerciais de aquarismo e afins

É muito comum encontrarmos em estabelecimentos comerciais de aquarismo e afins, Betta splendens expostos de forma, no mínimo inadequada, em pequeno volume d’água, que geralmente está imunda, com restos de alimentos e excretas no fundo.

Este espetáculo deprimente sempre foi alvo de severas críticas, posicionamentos duros e apaixonados por parte de frequentadores das lojas, frequentadores de fóruns, grupos de discussões, redes sociais, protetores dos animais e da natureza. Estas condições estão longe de ser as ideais para a vida e saúde dos animais e depõem negativamente contra a imagem de uma empresa.

Parece não existir regulamentação sobre o tema até o presente momento, estabelecendo regras claras sobre o tema. Se existem, desconheço. Na falta de tal instrumento, apresento sugestões razoáveis, factíveis, economicamente viáveis e tecnicamente aceitáveis:

1) Aquário de vidro, termo-plástico ou acrílico; capaz de acomodar de 2,5/3,0 litros de água. Este aquário expositor deve ter tampa, para evitar acidentes com os peixes, que podem saltar para fora do aquário. Esta tampa também ajuda a manter o ar que está imediatamente acima da superfície da água, relativamente quente. Lembre-se que Bettas respiram essencialmente o ar atmosférico, através de seus labirintos e que são peixes de região geográfica de clima quente.

Padronize o tamanho dos aquários. Esteticamente fica mais agradável para quem explora o expositor e facilita sobremaneira o manejo diário.

2) Evite colocar substrato nestes aquários. Eles dificultam a limpeza de fundo, permitindo que colônias de fungos e bactérias cresçam de forma descontrolada. Além disto, os peixes podem se ferir durante o processo de captura com puçá (redinha).

3) Introduza plantas aquáticas naturais nos aquários. Além do fantástico efeito visual, elas valorizam a cor do peixe e ajudam a manter a saúde da água do aquário. Plantas que se alimentem de nutrientes existentes na água e que sejam pouco exigentes com relação a iluminação, tais como: Vesicularia dubyana, Pseudotaxiphylium distichaceum, Najas indica, Hydrila verticillata, Nymphoides aquatica, Ceratophyllum demersum, Elodea densa, etc.

4) Estes aquários devem ficar lado a lado. Mantenha uma folha de papel obstruindo 2/3 da área de visão dos peixes. Assim sempre que avistarem os peixes dos aquários vizinhos (e isto não acontecerá o tempo todo, ao ponto de gerar estresse para os animais), ficarão se exibindo uns aos outros, exibindo suas cores e formas exuberantes, defendendo seus respectivos territórios, viris, interessados em procriação e muito provavelmente nidificando.

5) Promova limpeza de fundo nos aquários todos os dias, com a ajuda de uma pipeta ou sifão. Remova excretas e restos de alimentos.

6) Promova TPAs (Trocas Parciais de Água) de aproximadamente 30% da água a cada 2 ou 3 dias. Use água isenta de cloro e metais pesados. Uso de condicionadores de água são recomendáveis. A adição de sal-grosso (de churrasco), na proporção de 1g/litro de água é recomendável. O sal é um bactericida natural, que em pequena dosagem, de forma preventiva, fará muito bem ao animal.

7) Monitore constantemente os parâmetros da água. Principalmente sua temperatura e pH. Promova correções, se necessário for, ajustando estes parâmetros, para os níveis tolerados pela espécie. Sempre de forma bem lenta.

Em regiões geográficas onde acontecem mudanças bruscas de temperatura ao longo do mesmo dia, em pequenos intervalos de tempo é recomendável a instalação de aquecedores nas betteiras, compatíveis com o volume de água, controlados por termostato.

É sempre bom reforçar que é menos estressante para o animal, adaptá-lo ao pH da água que você pode oferecer a ele, de forma bem lenta, do que ficar tentando colocar a água em algum parâmetro específico que você entenda ser o ideal. Lembre-se que você, provavelmente, irá comercializar estes peixes na sua região geográfica, para aquaristas que fazem uso da mesma fonte hídrica (água doce), que sua loja tem acesso e é para esta água (parâmetros) que você deve adaptar os peixes, para que eles se adaptem com menos estresse ao manejo que seus clientes possivelmente darão aos peixes comercializados por sua loja.

8) Ao embalar o peixe para seu cliente, procure usar a água da betteira de exposição, meça o pH e temperatura da água no momento da embalagem, escreva esta informação no saquinho plástico (use caneta de tinta permanente). De preferência faça isto com o acompanhamento do cliente, oriente-o a adaptar o peixe para parâmetros similares, de forma bem lenta, em seu destino. Ofereça ao cliente a mesma ração que você costuma alimentar os animais, para facilitar a adaptação do animal ao novo manejo. Mesmo que seja um bocadinho da ração, suficiente para uma adaptação para outra ração que o cliente prefira oferecer aos seus peixes.

9) Cuidado com seu manejo sanitário. Mantenha os puçás em solução de água sanitária ou água com grande concentração de sal e enxágüe-os muito bem antes de introduzí-los nas betteiras. Lave suas mãos muito bem antes de introduzí-la na água de um aquário.

10) Sempre que você receber um novo lote de Bettas em sua loja, procure mantê-los em quarentena, numa área reservada. Observe a vitalidade dos animais, coloração, apetite, etc. Suspeitando de problemas, peça ao veterinário responsável por sua loja, para examinar os animais, antes de oferecê-los ao público.

Perceba que todas as sugestões apresentadas são perfeitamente factíveis. Melhoram substancialmente as condições ambientais para os animais e sua saúde, podem reduzir as perdas de exemplares dentro do seu estabelecimento e consequentemente reduzem prejuízos. Por outro lado, aumentam suas chances de venda, aumento no nível de satisfação dos clientes, cria-se uma imagem positiva do seu estabelecimento para os frequentadores da loja, fidelizando-os. Mesmo na eventual falta de regulamentação, use o bom senso, pense na sua responsabilidade para com os animais que decidiu expor e vender em sua loja e trabalhe na construção de um “case” de sucesso (da SUA empresa).

—–
Especiais agradecimentos aos colegas (criadores da espécie, representantes de associações de criadores, lojistas, biólogos, veterinários, pesquisadores e operadores do direito), que muito contribuíram para a construção desta proposta (em ordem alfabética): John Klaus Kanenberg, Lorena Felisberto Goulart Pereira, Luiz Guilherme (Wyatt), Marcelo Assano, Max Wagner Saches Lucas, Ricardo Assunção, Ricardo Liang, Robert dos Santos, Roberto de Souza Godinho, Rodrigo Dutra, Thiago A. V. Cruz, Wesley Mendes, Wilson de Oliveira Vianna.

Manejo sanitário de peixes ornamentais

Provavelmente provocarei alguma polêmica ao afirmar que o método até hoje utilizado pela grande maioria dos aquaristas/criadores brasileiros, ou seja, a de adaptar o peixe para a água do aquário, não é um método correto. Talvez você esteja no grupo que faça desta forma, no meu entender errada. Vou tentar abaixo provar isso para você. Se escrevi alguma besteira, por favor me corrija.

O saco onde o peixe foi transportado pode ser considerado um ambiente quase que fechado. Mesmo se o peixe não foi alimentado um dia antes do embarque, o processo metabólico do peixe produz amônia como um subproduto, secretado através das guelras e da urina.

Na prática, se nós medirmos o pH da água do saco onde os peixes foram transportados não funciona bem porque os ácidos secretados pelo peixe vão causar a diminuição do pH, e a amônia é menos tóxica com pH menor. Como o peixe respira no saco, o dióxido de carbono é liberado na água e um pouco dele é difundido no ar preso na parte superior do saco.

O dióxido de carbono na água ajuda a formar ácido carbônico. Quanto mais tempo o peixe ficar no saco, mais dióxido de carbono é produzido, deslocando o oxigênio e causando um leve esvaziamento do saco. O peixe então se torna levemente asfixiado.

O peixe se torna sonolento, diminuindo sua consciência. O peixe fica sob estresse e o seu manuseio o debilita causando danos ao seu muco. Qualquer agente patogênico que estivesse presente no aquário original teria facilidade em infectar o peixe, pois o seu sistema imunológico estaria nesse momento comprometido. Também a quantidade de matéria orgânica presente no saco seria propicia ao crescimento de bactérias e parasitas.

Nesse ponto em que o peixe chega na sua casa ele está muito vulnerável à doenças. A água do saco é uma água doente, tóxica.

A doença está na água, nos lados do saco, e na superfície externa do saco também. Se você colocar para flutuar o saco no seu aquário, alguns dos agentes patogênicos que existissem no aquário original poderiam estar sendo introduzidos no seu novo aquário. Agora você abre o saco e deixa ele flutuar. Realmente uma má ideia, pois logo que você abre o saco o dióxido de carbono escapa, e um ar relativamente rico em oxigênio logo entra. O dióxido de carbono rapidamente evapora da água. O pH sobe. A amônia no saco repentinamente se torna altamente tóxica com o nível alto de pH. O peixe fica estressado e o seu sistema imunológico declina. Você então começa a adicionar a água do seu aquário para o saco. Agora você faz com que os níveis de pH e dureza da água do saco comecem a oscilar. Isso causa mais estresse para o peixe. Com isso você força o peixe por uma ou mais horas a ir se adaptando aos parâmetros da água do seu aquário, causando mais estresse ao peixe.

Normalmente leva semanas para um peixe se ajustar aos novos parâmetros de uma água nova, e você o força para que isso ocorra em 1 ou 2 horas e isso não é bom no estado de fraqueza atual do peixe.

Ajustar um peixe para um pH mais alto, maior dureza da água (GH) ou maior valor de temperatura é melhor do que para valores mais baixos. Entretanto como o pH é uma escala logarítmica, um grau de diferença é dez vezes maior. O limite para mudanças de pH é de um grau, mudanças de temperatura é de 1 grau Celsius. Dureza é um pouco mais flexível para mudanças, mas você deve chegar o mais próximo possível. Se a variação da troca for muito grande você corre o risco de colocar o peixe em choque. O parâmetro mais importante a se conseguir é o pH correto.

Por isso é importante saber (perguntar ao vendedor) em que água seu peixe foi criado, se o seu criador utilizava sal nos seus aquários, quais os valores de pH e GH. É importante retornar o peixe a esses valores o mais rápido possível.

Essa teoria acima foi-me passada por um criador alemão que foi meu sócio numa criação de guppies nos anos 70, que dificilmente perdia peixes por manuseio errado. Se eu contasse todas suas técnicas muitos ririam, como, por exemplo, jogar água fervendo num aquário com peixes em choque e imediatamente tirá-los daquela situação, voltando os peixes a nadarem normalmente. Eu presenciei tudo isso, e diversas das técnicas eu posteriormente repeti sozinho com sucesso.

Sei que é difícil pessoas que fazem determinados procedimentos há vários anos aceitarem um novo manejo, por isso falei em criar polêmica, opiniões contraditórias. Do modo como a maioria das pessoas fazem também dá certo, mas os peixes com certeza sofrem mais para se adaptar. O método que eu acho mais correto é: Pedir informações ao fornecedor do peixe sobre os parâmetros da água em que os peixes foram criados/enviados, tais como pH, temperatura, GH (dureza) e salinidade.

Preparar um aquário uma semana antes da chegada do peixe e preparar a água nos mesmos parâmetros das informações que você recebeu do fornecedor dos peixes.

Após a chegada dos peixes, deixe o saco no mesmo ambiente do aquário até a estabilização da temperatura (saco fora do aquário), e não coloque o saco em contato com a água do seu aquário pois o saco pode estar transportando agentes patogênicos.

Adicione um condicionador à água do aquário que proteja o muco do peixe. Isso vai ajudar a defesa contra possíveis doenças.

Coloque formalina, ou outro produto com a mesma função, no seu aquário. A formalina vai evaporar e causar ínfimo dano ao ciclo do nitrogênio do seu aquário.

Nunca coloque peixe novo misturado com seus antigos peixes, pois eles podem passar doenças uns para os outros.

Não coloque água do seu aquário dentro do saco. Assim que o saco é aberto o dióxido de carbono vai escapar, o pH vai subir, e os seus peixes entrarão em choque. Imediatamente após abrir o saco coloque um pouco de neutralizador de amônia no saco e meça os parâmetros da água do saco.

Verifique os parâmetros da água que veio junto com o peixe e compare com os valores informados pelo fornecedor. É esperado que o valor de pH tenha diminuído. Se tiver qualquer dúvida, como por exemplo, se passaram informações incorretas para você quanto a água original dos peixes, ajuste o aquário para os parâmetros da água do saco. Se os parâmetros estão realmente baixos, como pH abaixo de 7, coloque os parâmetros do seu aquário ligeiramente acima.

Se o aquário tem os mesmos parâmetros, jogue fora a água do saco e colocando o peixe numa rede e imediatamente o coloque no aquário. Não contamine a água do seu aquário com a água que veio dentro do saco.

Não alimente o peixe no primeiro dia, e dê pouca comida para ele na primeira semana.

Troque por dia 10% da água do aquário até que o ciclo de nitrogênio seja estabelecido e continue esse procedimento até que a água atinja os mesmos parâmetros dos seus outros aquários.

Procedendo dessa maneira as chances de nada de desagradável acontecer com seu novo peixe estarão aumentadas.

Carlos Beserra (in memoriam)

Bateria de Betteiras

A Betteira:

Minhas betteiras têm 15 cm X 15,3 cm X 9 cm. A água fica com 12 cm de altura e a capacidade fica perto de 1,6 litros por betteira. Os vidros são de 3 mm e aconselha-se a lixar as bordas cortantes dos vidros antes de armar os aquários. São todos colados com borracha de silicone sem antifungo.

As medidas dos vidros por betteira são:

  • 1 vidro para o fundo com 15 cm X 9 cm;
  • 2 vidros para as laterais de 15 cm X 15 cm;
  • 1 vidro para a frente de 15 cm X 8,4 cm;
  • 1 vidro para a parte inferior da traseira de 12 cm X 8,4 cm;
  • 1 vidro para a parte superior traseira de 2,7 cm X 9 cm.

O posicionamento dos vidros é o seguinte:

  • Os vidros laterais, frontal e traseiro inferior são colados por sobre o vidro do fundo;
  • O vidro frontal e o traseiro inferior são montados por dentro dos vidros laterais;
  • O vidro traseiro superior é montado por fora dos vidros laterais e atrás do vidro inferior, deixando uma fresta de 3 mm entre os vidros.

Montando a betteira:

Passo 1

Cola-se 1 vidro lateral e o vidro da frente entre si e sobre o vidro de fundo.
Cola-se 1 vidro lateral e o vidro da frente entre si e sobre o vidro de fundo.

Passo 2

Cola-se o vidro traseiro inferior.
Cola-se o vidro traseiro inferior.

Passo 3

Cola-se a outra lateral.
Cola-se a outra lateral.

Passo 4

Por último o vidro traseiro superior. Note que ele é colocado por trás e como ele mede 2,7 cm fica uma folga de 3 mm por onde a água sai, mas o betta não.

Passo 5

Veja como fica por trás.
Veja como fica por trás.

Existem pessoas que preferem montar os vidros em volta do vidro do fundo, ao invés de por sobre ele. Não há problema, bastando alterar as medidas de modo que o aquário fique com 9 cm de largura.

A estante:

Eu utilizo cantoneiras próprias para estante que são vendidas sob vários tamanhos. Uso barras de 1 metro e 4 cantoneiras de 20 cm por barra.

As cantoneiras têm o seguinte aspecto:

Aspecto das cantoneiras de alumínio.

As barras são assim:

Aspecto das barras de sustentação de alumínio.
Aspecto das barras de sustentação de alumínio.

Dê preferência às de alumínio ou niqueladas, para resistir à umidade.

Fixam-se as barras na parede, na vertical, fazendo um pequeno desnível de uma para outra, para que a água tenha caimento para dentro dos filtros e encaixam-se as cantoneiras para servirem de suporte às prateleiras.

As prateleiras são na verdade pequenos aquários de vidro grosso, de 6 mm, onde as betteiras são colocadas e que servem de calha para a saída da água.

O tamanho de cada prateleira vai depender da quantidade de betteiras que você desejar colocar por andar. Como utilizo barras de 1 m, só posso colocar 4 andares de prateleiras. Já vi barras de até 2 m. Isso fica a vontade do freguês. Cada prateleira deverá ser calculada para 10 cm por betteira, por exemplo, se desejo uma prateleira para 10 betteiras, ela deverá ter 1 metro. Isto acontece porque as betteiras devem ter um espaço entre si para que se coloquem os separadores para que os machos não se vejam a todo o momento. O número de barras presas na parede dependerá do tamanho da prateleira. Até um metro podem-se colocar duas ou três. Acima disso três, no mínimo.

As medidas dos vidros para uma prateleira (todos são vidros de 6 mm):

  • 1 vidro de fundo de 19 cm X 1 metro (de acordo com o tamanho);
  • 2 vidros frontal e traseiro de 3 cm X 1 metro;
  • 1 vidro lateral de 17,8 cm X 3 cm;
  • 1 vidro lateral de 15 cm X 3cm;
  • 1 vidro para base da saída da água de 3 cm X 7cm;
  • 1 vidro para as laterais da saída da água de 3 cm X 3 cm, cortado ao meio em diagonal;
  • 1 vidro de 1 cm X 3 cm, para fazer a pingadeira.

A quantidade total de vidros dependerá da quantidade de prateleiras.

Como montar a prateleira:

Cole a lateral maior e a traseira sobre o fundo. Logo após o vidro da frente e a lateral menor. Ficando a prateleira assim.

Visão da prateleira.
Visão da prateleira.

A fenda que se encontra na lateral com o vidro menor servirá para saída da água. Deixa-se a cola endurecer.

Fazendo a saída da água:

Passo 1

Cola-se o vidro de 3 cm X 7 cm por baixo da prateleira/aquário (virando de cabeça para baixo), de modo a sobrar 3 cm, como na figura.
Cola-se o vidro de 3 cm X 7 cm por baixo da prateleira/aquário (virando de cabeça para baixo), de modo a sobrar 3 cm, como na figura.

Passo 2

Cola-se as duas metades do vidro de 3 cm X 3 cm cortado ao meio em diagonal.
Cola-se as duas metades do vidro de 3 cm X 3 cm cortado ao meio em diagonal.

Passo 3

Por último cola-se a pingadeira.
Por último cola-se a pingadeira.

A estante montada com as prateleiras e as betteiras ficaria assim:

Estante montada com as prateleiras e as betteiras.
Estante montada com as prateleiras e as betteiras.

Como as betteiras tem 15 cm de comprimento e a prateleira 19 cm, fica um vão atrás das betteiras por onde a água escorre.

A saída de água:

Saída de água com tubos e ipsilons de pvc de 40mm.
Saída de água com tubos e ipsilons de pvc de 40mm.

A entrada de água:

A entrada de água é feita com tubos de 20 mm de pvc, sendo que eu coloco 1 registro de gaveta (aquele com uma alavanca) em cada prateleira para poder regular a vazão d’água. Pode-se fazer o sistema de água de duas maneiras. Com filtragem, com é o meu, onde faço trocas diárias diretamente do filtro, ou com troca direta, ou seja, a água entra por um lado e é descartada pela saída da água, indo para o esgoto. Depende apenas da sua disponibilidade de água.

Os tubos de pvc de 20 mm são furados, depois de marcados, com uma arame fino quente. O furo não pode ser pequeno demais, senão entope com facilidade. Depois de montado fica assim:

Sistema de entrada e de saída.
Sistema de entrada e de saída.

Este é o sistema de entrada e de saída. Agora farei um esquema para filtragem e outro para troca direta.

Troca direta de água:

Basta ligar o sistema a uma caixa d’água que tenha água tratada, ou seja sem cloro e com as especificações necessárias a saúde dos peixes. Veja o esquema:

Troca direta de água: Sistema ligado a uma caixa d'água que tenha água isenta de cloro e metais pesados.
Troca direta de água: Sistema ligado a uma caixa d’água que tenha água isenta de cloro e metais pesados.

A entrada de água se faz por meio de uma mangueira de água de ½ polegada, unida ao sistema por um adaptador.

A saída vai direto para um recipiente que é ligado ao esgoto. Não se deve ligá-la diretamente ao esgoto, pois caso algum betta pule, será levado pela corrente de água para o recipiente.

A água não precisa ficar ligada todo o tempo, pode ser ligada e desligada de tempos em tempos, apenas para renovar a água das betteiras.

A sujeira no fundo das betteiras pode ser retirada em grande parte aumentando-se a vazão de entrada da água, que revolve o fundo e retira os detritos.

Mesmo ficando um pouco de sujeira no fundo, devido a troca constante de água, o nível de amônia na água não aumentará muito e não interferirá no desenvolvimento dos peixes. Eu aspiro as betteiras com uma mangueira de ar 1 vez por semana apenas.

Vejamos agora o esquema com filtragem:

Sistema de filtragem baseado naquele usado por Francisco Maraschin, da FM Bettas, de Rezende.
Sistema de filtragem baseado naquele usado por Francisco Maraschin, da FM Bettas, de Rezende.

A filtragem é feita primeiramente por lã sintética, seguida por pedriscos e por areia grossa. Troco parcialmente a água diariamente, tirando água da parte de entrada do filtro, por sobre a lã de vidro e recoloco a água diretamente da parte onde fica a bomba, que deve ser Sarlo 2000 ou equivalente, como a Aqua 2300, também muito boa.

O preço final pode ser barateado usando-se garrafas pets de 2 litros em vez de betteiras de vidro, cortadas e com um talho de aproximadamente 3 mm atrás para a água sair, cerca de 3 cm abaixo da borda da garrafa. O filtro pode ser substituído por filtros mecânicos ou por caixas plásticas divididas. Bem, tudo depende da criatividade de cada um. Este sistema pode ser acrescido de Filtros UV na saída da bomba.

Paulo de Freitas
pr.freitas@ig.com.br
Aquarista amador, desde 1973. Criador de Bettas, Guppies, Killis e Bandeiras.

Microvermes

Este material tem como objetivo incentivar e apresentar aos criadores hobbystas de Betta splendens a prática de cultivo de alimentos vivos para introdução na dieta do seu plantel, com apresentação de detalhes práticos, pinceladas de informações científicas (o básico) e muito de nossa experimentação. Não temos a pretensão de apresentar aqui um trabalho científico, e nem temos competência técnica para tal. Não somos os donos da receita infalível, tão pouco podemos oferecer garantias ou assumir responsabilidades se sua cultura não vingar.

Estamos compartilhando o pouco que sabemos com você, como leigos e criadores hobbystas da espécie, na expectativa de poder ajudá-lo em sua criação.

APRESENTAÇÃO

Os microvermes (Anguilula silusiae) se apresentam geralmente com tamanho variando entre 1 e 3 mm de comprimento, se movimentam continuamente, possuem forma cilíndrica, são translúcidos e não apresentam segmentação.

São muito prolíferos. São excelentes como opção alimentar para os primeiros dias de vida das pequenas larvas de Betta splendens, ricos em gordura e proteína. É possível basear a dieta nos microvermes até que os peixes possam ingerir outra forma de alimento como: náuplios de artemias franciscanas, moinas, daphnias, enquitréias, etc.

PARA INICIAR A SUA CULTURA DE MICROVERMES VOCÊ VAI PRECISAR

  1. Embalagem plástica com tampa (que vede bem) e transparente, de aproximadamente 1 litro;
  2. Saco plástico preto, capaz de envolver o pote escolhido;
  3. Pincel de cerdas macias;
  4. Água isenta de cloro;
  5. Farinha de aveia; e
  6. StartUp de cultura (inóculo)
Kit para iniciar sua cultura de microvermes
Kit para iniciar sua cultura de microvermes

OBTENDO O “STARTUP” (INÓCULO) DA CULTURA

Sem dúvida a melhor forma de se conseguir o “StartUp” (inóculo) da cultura é com outros criadores que fazem cultivo de microvermes para alimentação do plantel, mas na falta ou impossibilidade de se ter acesso a um, o jeito é cair no mercado, em sua maioria informal (uma grande loteria).

Sugerimos que negocie com o vendedor a remessa sempre pelo meio mais rápido possível, o que pode significar aumento no custo do frete. Entrega rápida, cultura preservada. Pondere e não faça a chamada “economia porca”.

PASSO A PASSO

Coloque no pote um pouco de farinha de aveia, aproximadamente 1 cm de altura (não mais do que 1/3 da altura do pote). Adicione água isenta de cloro de forma lenta e vá mexendo, para produzir um “mingau com consistência parecida com mel” (encontrar este ponto é o 1º grande segredo para manter suas culturas de microvermes vivas). Mais para líquida (densa) do que para sólida. Mexa bem e deixe descansando por 24 hs aproximadamente. Decorrido o prazo, se for preciso, adicione mais água, até se obter a “consistência de mel” novamente.

Meio de cultura apresenta mingau em "ponto de mel" - a cahave do sucesso para a cultura de microvermes.
Meio de cultura apresenta mingau em “ponto de mel” – a cahave do sucesso para a cultura de microvermes.

Adicione o “StartUp” da cultura (inóculo) e mexa suavemente com o pincel. Evite agitar o “mingau” demais, para que ele não suje a parede do pote.

Feche o pote e envolva-o num plástico preto, de forma a isolá-lo da luz e a ajudar a manter a cultura numa temperatura mais estável. Guarde-o em local quente (algo em torno de 26 °C é o ideal) e seco.

Mantenha sua cultura em local escuro e quente.
Mantenha sua cultura em local escuro e quente.

Diariamente abra o pote e mexa suavemente a cultura com o pincel, para permitir que os gases da fermentação venham à superfície do “mingau” e se dissipem. Se possível, faça isto 2 ou 3 vezes ao dia (mexer a cultura diariamente, no mínimo 1 vez, é o 2º grande segredo para manter suas culturas de microvermes vivas).

COLETA E OFERECIMENTO ÁS LARVAS DE Betta splendens

Dois dias após o início da cultura, já é possível fazer coletas. Quando você abrir o pote diariamente, antes de mexer a cultura, vai observar os microvermes subindo nas paredes do pote, milhões deles, e depois de alguns instantes, eles se aglomeram formando uma placa visguenta.

Coleta de microvermes na parede do pote de cultura.
Coleta de microvermes na parede do pote de cultura.

Passe o pincel suavemente nesta placa, chacoalhe o pincel num pote com água isenta de cloro e jogue esta água no aquário. Ofereça sempre em pequenas quantidades e em pontos diferentes do aquário de engorda. Os microvermes serão vistos descendo para o fundo do aquário e mesmo antes de chegar ao fundo começarão a ser devorados pelas larvas de Betta splendens. Após alguns minutos será possível observar (quem tem bom olho ou com um auxilio de uma lupa) milhares de microvermes que escaparam de ser consumidos de imediato, tremulando no fundo do aquário e levam muito tempo para morrer (12 hs) quando lá estão.

As larvas de Betta splendens, nesse momento, estarão próximos ao fundo catando esses microvermes que estão no chão do aquário. Nunca coloque o pincel direto dentro da cultura de microvermes para servi-los, pois isto poluiria a água do aquário com a aveia da cultura, o que pode matar as larvas frágeis.

Você vai sentir cheiro de fermentação sempre que abrir o pote da cultura. É normal. com o tempo você se acostuma com ele. Não é nada exagerado. Lembre-se, a cultura deve ser mexida com o pincel diariamente, no mínimo uma vez, para permitir que os gases da fermentação se dissipem.

MULTIPLICANDO RENOVANDO A CULTURA

Sempre mantenha 2 ou 3 potes de culturas ativas para servir aos seus peixes e a cada 15 dias renove as culturas. Feita a renovação, espere que comecem a produzir e jogue fora as antigas.

O procedimento da multiplicação e renovação da cultura é o mesmo usado para iniciar uma. Só que agora você não precisa buscar fora o “StartUp” (inóculo), você já tem, só precisa transplantar uma colher de sopa da outra cultura (“mingau”) para o novo pote. De resto, tudo igual.

MÉTODO ALTERNATIVO DE CULTIVO

Uma variação que nos foi passada pelo Sr. Pedro Emídio Leite Moraes Ferreira – Fortaleza/CE (nossos sinceros agradecimentos a ele), que testamos e deu muito certo, precisa ser compartilhada:

CULTURA NO PÃO DE FORMA INTEGRAL DE AVEIA

  1. Pegue uma fatia de pão integral e borrife água sobre ela, sem ensopá-la;
  2. Coloque o inóculo de microvermes sobre a fatia de pão molhada; e
  3. Acomode esta fatia num pote com tampa e depois recubra-o com um plástico preto.

Em poucos dias sua cultura estará em condições de permitir coletas. Faça uso de um pincel com cerdas macias para promovê-las, seguindo as mesmas orientações apresentadas para o cultivo tradicional. Este método oferece a vantagem de não precisar fazer aerações constantes na cultura, para eliminação dos gases.

Esperamos que para você também dê certo e que seus peixes cresçam lindos e acima de tudo, saudáveis!

Observação: Todas as marcas registradas mencionadas aqui, são propriedades de seus respectivos fabricantes e/ou criadores.

Procriando Betta splendens

Uma das primeiras dificuldades que criadores de Betta splendens se deparam, é com a reprodução de seus peixes em cativeiro. Não por que esta espécie seja difícil de procriar nestas condições, exista algum segredo, mas sim pela desinformação e despreparo.

O criador não precisa se preocupar em ensinar o peixe a se reproduzir, isto é instintivo e natural. Ele precisa se preocupar em criar as condições ideais para que isto aconteça. Se acercar de cuidados e infra-estrutura.

A primeira providência e talvez a mais crítica de todas é começar a cultivar micro-organismos vivos, que servirão de alimentos para as larvas de Bettas, logo após o nascimento. Sem eles, não devem se atrever a começar o acasalamento, sob pena de ver a ninhada morrer, um peixe após o outro, diante de seus olhos, completamente impotentes.

Hoje você encontra na web tutoriais passo-a-passo e inóculos para cultivar micro-organismos como: vermes-do-vinagre, microvermes, vermes-de-grindall, entre vários outros. Também encontra tutoriais para eclodir cistos de artemias franciscanas (salinas), essenciais para as larvas de Bettas. Todos micro-organismos de fácil manejo, que não ocupam muito espaço e acabam se tornando uma fonte de prazer, da mesma forma que o aquarismo gera.

Alevinos de Betta splendens (Turquesa Melânico), com aproximadamente 60 dias de vida, recebem vermes-do-vinagre.
Alevinos de Betta splendens (Turquesa Melânico), com aproximadamente 60 dias de vida, recebem vermes-do-vinagre.

A segunda providência é conseguir uma caixa plástica pequena, com tampa, com aproximadamente: 30 cm (C) x 20 cm (L) x 10 cm (A) ou um aquário de aproximadamente 20 litros (com tampa). Este será o ambiente para procriação e desenvolvimento das larvas de Bettas até 90 dias de vida, aproximadamente.

Esta caixa (ou aquário) deve ficar instalada num ambiente tranqüilo, onde não haja grande movimentação de pessoas e/ou animais domésticos que possam assustar os peixes e por a perder o acasalamento ou até mesmo a ninhada. Ao menor sinal de perigo, os pais comerão os ovos ou os filhotes e abandonarão o processo (acasalamento ou cuidados com o ninho).

Coloque nesta caixa (ou aquário), uma coluna de água variando entre 5 e 10 cm de altura, nunca mais do que isto. Se os ovos cairem ao fundo, numa profundidade de água maior, podem inviabilizar o desenvolvimento das larvas. Esta água deve ser isenta de cloro e metais pesados, pH estável (na faixa entre 6,8 e 7,4 – ideal: 7,0) e temperatura também estável (na faixa entre 24 e 30 °C – ideal: 27 °C). Providencie um apoio para o ninho-bolha (não obrigatório), que pode ser um pedaço de folha de amendoeira, um pedaço de plástico ou até mesmo um copinho de café descartável, cortado ao meio. Ele pode ser aderido à borda da caixa (ou aquário), com uma fita adesiva (fita crepe, por exemplo). Minha preferência pessoal pela folha de amendoeira é em função de sua propriedade fungicida/bactericida natural (isto vai deixar a água com cor de chá em poucas horas, não se preocupe com isto). Se você escolher um caminho diferente, adicione fungicida industrializado na água, na dosagem recomendada pelo fabricante. Isto fará com que mais ovos vinguem, que não sejam atacados por fungos. Também adicione 1 g de sal-grosso, para cada litro de água.

Providencie abrigos para a fêmea se esconder do macho, caso ele resolva ficar violento demais e sem paciência de esperar a fêmea estar totalmente pronta para o acasalamento. Pode ser: plantas naturais (musgo de java, samambaia d’água, etc – compatíveis com o pH da sua água), seixos (pedras de fundo de rio, arredondadas – sem arestas cortantes) ou tubos de PVC (espalhe 2 ou 3 “cotovelos” pelo fundo). É raro, mas estes abrigos podem servir até ao macho em alguns casos, onde a fêmea possui temperamento indócil. Isto vai reduzir os riscos de perder matrizes por conta acasalamentos tempestuosos.

Você vai precisar de um cilindro transparente e incolor para conter a fêmea durante 4 dias aproximadamente, dentro desta caixa (ou aquário), longe do alcance do macho, mas em seu campo visual a todo momento, para que possa acontecer a corte e para que ele fique estimulado a construir o ninho-bolha. Você pode usar um pet de água mineral transparente e incolor, cortando seu fundo e parte afunilada da boca, produzindo uma peça cilíndrica. Quando chegar o momento adequado, você vai poder levantar levemente este pet, liberando a fêmea para o acasalamento, sem mexer demais com a água, para não desmanchar o ninho-bolha.

Caixa de reprodução preparada para uso, contendo: cilindro para contenção da fêmea, abrigos de PVC, suporte para ninho e fungicida/bactericida natural (folhas de amendoeira).
Caixa de reprodução preparada para uso, contendo: cilindro para contenção da fêmea, abrigos de PVC, suporte para ninho e fungicida/bactericida natural (folhas de amendoeira).

Pronto! Agora você criou a infra-estrutura e o ambiente adequado para que o acasalamento ocorra e a ninhada vinge.

Vamos para a fase do acasalamento dos Bettas… Selecione exemplar macho e fêmea saudáveis, de preferência com linhagens definidas e estabilizadas, para obter filhotes compatíveis com a sua linha de trabalho genético. Mas se você é um principiante e quer apenas aprender este manejo, concentre-se apenas em escolher os peixes que mais lhe agradam esteticamente, que estejam em pleno vigor físico e bem alimentados. Aqui vai uma dica importante: escolha uma fêmea ligeiramente menor que o macho, para facilitar a cópula do casal.

Se você é uma pessoa ocupada, dispõe de pouco tempo, programe a soltura do casal na caixa de cria e desenvolvimento das larvas de Bettas (ou aquário), para dias onde você possa acompanhar, fotografar, se deleitar com este espetáculo da natureza. A procriação deste peixe é magnífica, um show.

Coloque o macho na caixa de cria e desenvolvimento de larvas de Bettas (ou aquário), para que se sinta o dono do território. Ele deve ficar sozinho neste espaço por 2 dias aproximandamente. Decorrido este tempo, introduza a fêmea, contida num cilindro transparente e incolor, afastado das bordas da caixa (ou aquário), de forma a permitir que o macho circule o cilindro, se exibindo para a fêmea, fazer a corte.

Este período de exposição deve durar aproximadamente 4 dias. Ao mesmo tempo que o macho corteja a fêmea, ele deve contruir o ninho-bolha, para receber os ovos da postura da fêmea. Por outro lado, a fêmea recebendo estímulos, começa a produzir ovos. Ao final do quarto dia de “namoro”, levante o cilindro suavemente para não desmanchar o ninho-bolha.

No outro dia, pela manhã, existe uma enorme possibilidade do casal já haver se entendido e dão início ao acasalamento propriamente dito.

Casal de Betta splendens nas preliminares, no processo de acasalamento em cativeiro (Yellow Gold Dragon).
Casal de Betta splendens nas preliminares, no processo de acasalamento em cativeiro (Yellow Gold Dragon).

O macho leva a fêmea para baixo do ninho-bolha e o acasalamento se inicia. Geralmente a fêmea neste momento está totalmente submissa ao macho e procura nadar com a cabeça mais baixa. Ambos procuram se colocar lado a lado, em sentidos opostos e vão se “empurrando”, como se medissem forças. Num determinado momento a fêmea se afasta um pouco e nada em direção ao macho, dando um giro no corpo, nadando de barriga para cima. Ao passar ao lado do macho ele dobra seu corpo, envolvendo a fêmea e lhe dá um apertão (suave), ao mesmo tempo que fecunda os ovos. Ambos dão uma pequena relaxada e caem desmaiados ao fundo aquário. Enquanto a fêmea vai ao fundo, liberando os ovos. O macho, tão logo recupera o controle de seu corpo, passa a recolher os ovos com a boca e vai depositando no ninho-bolha. Este processo pode durar horas, inúmeros abraços ocorrerão, até que os ovos da fêmea se esgotem. Naturalmente ela se afasta, foge do macho e neste momento você deve retirá-la da caixa plástica (ou aquário), sem agitar a água, sem correrias. Geralmente ela fica tão esgotada que fica prostrada e permite ser capturada, sem muito esforço para fugir.

Casal de Betta splendens copulando (White Platinum).
Casal de Betta splendens copulando (White Platinum).

O macho assume o controle da ninhada sozinho. Ele vai melhorando e reparando o ninho-bolha, de acordo com a necessidade.

Macho Betta splendens zelando ninho-bolha/ninhada (White Platinum).
Macho Betta splendens zelando ninho-bolha/ninhada (White Platinum).

No máximo 48 horas após, as larvas nascem e ficam “espetadas” no ninho. Quando caem ao fundo (na vertical), por que são pesadas, estão com o sacos vitelinos ainda cheios, o macho as recolhe na boca e as repõe no ninho-bolha. Tarefa inglória, nascem aproximadamente 300 filhotes. Ele fica a todo momento recolhendo as larvas e as recolocando no ninho-bolha.

Larvas de Betta splendens dentro de ovos fecundados, em processo de eclosão e recém nascidos. Feliz flagrante deste espetáculo da natureza.
Larvas de Betta splendens dentro de ovos fecundados, em processo de eclosão e recém nascidos. Feliz flagrante deste espetáculo da natureza.

Os filhotes, nesta fase da vida, se alimentam do saco vitelino, que aos poucos vão se exaurindo e quando isto acontece eles conseguem nadar na horizontal. Passadas outras 48 horas, desde a eclosão dos ovos, a maioria das larvas já nada na horizontal e o macho está nitidamente exausto. Ao final do dia é chegada a hora de retirar o macho da caixa plástica (ou aquário). Pegue-o com uma rede de tramas largas, para não capturar larvas acidentalmente ou com sua própria mão, com muito cuidado.

No outro dia, pela manhã, as larvas passarão a ser sua responsabilidade e precisam começar a comer. Comer aqueles micro-organismos que você previamente começou a cultivar, se preparando para o nascimento deles.

Coloque uma pedra porosa bem fraquinha nesta caixa de desenvolvimento das larvas (ou aquário), tome o cuidado para mantê-la sempre tampada para manter o ar bem úmido acima da lâmina d’água. Pode retirar o suporte para o ninho, as proteções oferecidas para a fêmea. Se você usou plantas naturais como abrigo, pode deixá-las na caixa (ou aquário).

Comece a alimentar suas larvas de Betta splendens, sempre em pequenas doses, o maior número de vezes possível, durante o período de insolação. Se possível de hora em hora. Se houver sobras, remova-as com o auxílio de uma pipeta ou sifão, com muito cuidado para não sugar larvas.

Varie a dieta das larvas, ofereça basicamente alimentos vivos e pós bem finos. Depois dos 30 dias, já é possível começar a introduzir na dieta as rações industrializadas.

Os próximos 40 a 50 dias de vida das de Bettas são bem críticos. A maioria da ninhada vai demorar este tempo para ter o labirinto formado. Labirinto é por onde os Betta splendens respiram, fora da água. Então evite ficar abrindo a caixa para não dissipar o calor do ar que está acima da lâmina d’água, cuidado com os parâmetros da água (pH e temperatura) e mantenha esta água saudável evitando sobras de comida, por exemplo.

Reprodução de Betta splendens em cativeiro

Em geral os Betta splendens já estão prontos para o acasalamento por volta dos 3 meses de vida, porém é recomendável que isto não aconteça antes dos 5 meses, esperando que todas as características fenotípicas do peixe aflorem. Para decidir com mais assertividade, quais exemplares você deve utilizar nos acasalamentos, exemplares que exibam as melhores características que você deseja trabalhar.

Se reproduzem facilmente e geram proles numerosas (mais de 300 larvas em cada ninhada – nem todas sobrevivem, mas um número expressivo vinga).

O cortejo e o acasalamento oferecem um espetáculo belíssimo e arrebatador de se assistir.

Comumente o macho é colocado num aquário pequeno (+/- 20 litros) com coluna d’água de aproximadamente 10 cm (vide condições ideais da água em “Manejo Básico”), para começar a se sentir dono do território.

Depois de 2 dias, aproximadamente, a fêmea é introduzida no aquário, mas dentro de um vidro transparente, sem fundo, onde é vista, mas não tocada pelo macho.

Fêmea protegida, mas ao alcance visual do macho.
Fêmea protegida, mas ao alcance visual do macho.

O macho imediatamente começa o seu ritual de exibição para a fêmea e passa a construir um ninho com bolhas de ar, na superfície d’água.

Este processo pode durar até 8 dias, em casos extremos. A fêmea se mostra preparada para o acasalamento, quando seu oviduto estiver dilatado, com uma ponta branca, apresentando no corpo listas verticais (nas fêmeas de cor escura isto é visível). Ela dá sinais de submissão ao macho.

Neste momento o macho já está com o ninho totalmente pronto (enorme colchão de bolhas) e é hora de libertar a fêmea (com cuidado para não agitar a água e desmanchar o ninho de bolhas), que deverá ter, a esta altura, um comportamento submisso, se deixando levar para baixo do ninho.

É conveniente providenciar abrigo para a fêmea se proteger, caso o macho se mostre muito violento ou ela ainda não esteja totalmente pronta para o acasalamento. Podem ser: pedras sem arestas, seixos de rio, plantas aquáticas naturais (musgo de java, samanbaia d’água, etc) ou até cotovelos de PVC, como na foto acima.

Os dois ficam algum tempo nas preliminares mas logo acontecerá o primeiro de vários abraços delicados e suaves que o macho dará na fêmea, espremendo-a para liberação dos ovos, fertilizando-os neste instante.

Acasalamento de WP (White Platinum) Macho e WO (White Opaque) Fêmea.
Acasalamento de WP (White Platinum) Macho e WO (White Opaque) Fêmea.

Os ovos, dezenas de cada vez, são expelidos e vão caindo lentamente no fundo do aquário. Geralmente a fêmea fica meio atordoada por alguns instantes e enquanto se recupera, o macho vai coletando em sua boca, ovo por ovo e depois os deposita no colchão de bolhas. Estas rotinas de abraços, posturas, fecundações, coletas, acomodação dos ovos se repetem por várias vêzes.

Concluída a postura, a fêmea é retirada do aquário por que o macho assume a guarda do ninho, se preciso com bastante violência, não permitindo a aproximação da fêmea. No habitat natural ela naturalmente guardaria distância segura do macho, mas confinada no aquário, poderá ser morta.

Pelos próximos 2 (dois) dias, o macho protege e arruma o ninho o tempo todo. Após o nascimento las larvas, por mais 2 (dois) dias ele pega os filhotes que caem do ninho e os recoloca no colchão, até que já possam se virar sozinhos. Neste momento quem é retirado do aquário de procriação é o macho, senão as larvas é que correm perigo de serem devoradas pelo pai. A partir daí você é totalmente responsável pela ninhada, monitorando a qualidade da água, oferecendo alimentos vivos, à princípio, e depois, no momento adequado, por introduzir rações balanceadas na dieta dos filhotes.

Riscos à saúde envolvendo aquarismo

Cuidados básicos de segurança ao se manusear um aquário Geralmente aquários são feitos de vidro, que é um material bem cortante, e acidentes graves podem acontecer. Muito cuidado com bordas trincadas, em especial as tampas, que é uma fonte comum de cortes. No caso da tampa quebrar, bastante atenção também a cacos que possam cair dentro do aquário, pedaços pequenos podem ser bem difíceis de serem vistos dentro da água, com sérios riscos de cortes durante a limpeza do aquário. Lembre-se também que aquários são pesados, geralmente seu peso (em quilogramas) é um pouco maior do que seu volume em litros (ou seja, um aquário de 50 L pesa um pouco mais do que 50 kg). Nunca tente mover um aquário cheio. Sempre coloque uma placa de algum material macio (como isopor) entre o aquário e o móvel onde ele ficará. E obviamente, aquários precisam ser bem projetados, com vidros de espessura adequada, colas adequadas e travas adequadas. Outro detalhe óbvio mas importante é o cuidado que se deve tomar com equipamentos elétricos, fios submersos dobrados, corroídos e etc. Lâmpadas também não podem estar em contato com a água, sob risco de estourarem. Este cuidado deve ser redobrado em marinhos, pela corrosão maior que a maresia provoca nos equipamentos emersos perto do aquário. Quando das TPA’s (trocas parciais de água) e outras manutenções dentro do aquário, é mais seguro desligar tudo o que é elétrico. Uma dica interessante é fazer um “loop” com o cabo energético a fim de evitar que a água escorra pelo cabo e atinja algum componente eletrônico ou mesmo a tomada de energia. Intoxicações Cuidados básicos devem ser tomados com medicamentos, reagentes químicos e outros produtos do aquário. Cuidado com crianças e animais, que podem inadvertidamente ingerir estes materiais. Outro material bastante tóxico é o metal contido em lâmpadas fluorescentes. No caso de lâmpadas quebradas, bastante atenção com a limpeza no local, e no descarte dos fragmentos. Claro, cuidado também para não se cortar! Acidentes com animais traumatizantes e venenosos Vários peixes marinhos possuem ferrões ou mordidas venenosas; os mais conhecidos são o peixe-leão, escorpião e a moréia. Em geral, criadores destas espécies estão cientes deste fato, estando mais bem preparados para lidar com acidentes. Porém, alguns peixes de água doce também são venenosos, fato pouco conhecido pela maioria dos aquaristas. Destaque para arraias de água doce, com um poderoso ferrão na base da cauda; acidentes mais graves envolvendo aquários de água doce são atribuídas a este animal. Outro peixe que poucos sabem ser venenoso é o mandi (peixe-gato da família Pimelodidae), com ferrões venenosos na nadadeira dorsal. O veneno é bem menos poderoso do que o da arraia, mas leva a quadros bastante dolorosos. Todos estes acidentes com animais venenosos devem ser imediatamente tratados com água quente, mergulhando o local acometido em água quente, numa temperatura alta mas suportável. O veneno destes peixes é termolábil, e esta conduta imediata é fundamental. A procura por um serviço hospitalar logo após também é mandatória. Além do mandi, todos os demais peixes-gato possuem espinhos nas nadadeiras, e podem causar ferimentos se manuseados sem o devido cuidado. Outros peixes que também tem mecanismos de defesa na forma de espinhos são as Bótias de água doce (abaixo dos olhos) e tangs marinhos (lâminas na base do pedúnculo caudal). Acidentes com ouriços-do-mar podem também acontecer, seus espinhos são quebradiços, e muitas vezes só podem ser retirados em ambiente hospitalar. Outra causa de acidentes são cnidários, como corais e anêmonas, além de alguns vermes marinhos, que podem causar dermatites bem graves. Podem ser controladas por compressas ou imersão do local acometido em água marinha gelada (água doce dispara mais as células urticantes, agravando o quadro). Banhos de vinagre também auxiliam, inativando o veneno. Obviamente, a manipulação de peixes agressivos, como piranhas, tubarões e traíras deve ser feito com bastante atenção. Acidentes com Esterilizadores UV Esterilizadores ultravioleta são utilizados em aquarismo para eliminar agentes em suspensão na água, desde algas verdes a fungos, virus, protozoários e bacilos de algumas doenças que por eles passam. São sistemas baseados em lâmpadas que emitem radiação ultravioleta (UV), que tem uma potente ação germicida. Por isso o termo “filtro” não é correto. A água do aquário circula em um compartimento fechado onde é exposta à radiação esterilizante, mas este local é isolado, impedindo o vazamento desta radiação além de seus limites. A radiação UV é uma radiação eletromagnética semelhante à luz. Porém, não é visível, seu espectro de onda tem frequência maior do que a da cor violeta (a de maior frequência dentro do espectro visível), daí seu nome. A lâmpada UV destes equipamentos (em geral, de vapor de mercúrio) emite um espectro amplo, que se estende desde a luz visível (numa cor violeta), passando pela luz “negra” e o UV propriamente dito. Isto quer dizer que se você olhasse para a lâmpada acesa (por favor, não faça isso!), ela teria uma cor violeta, mas o UV emitido não seria perceptível. Estes aparelhos são hermeticamente fechados, não permitindo vazamento da radiação. Esterilizadores de boa qualidade possuem uma trava de segurança; quando aberto um circuito é desarmado, interrompendo a corrente e apagando a lâmpada. Geralmente, quando ocorrem acidentes, são com sistemas feitos em casa (também chamados de DIY, sigla de Do It Yourself ou Faça Você Mesmo), quando algum desavisado liga a lâmpada sem proteção, ou um esterilizador mal feito, sem um isolamento adequado. Vale lembrar também que a energia irradiada é imediatamente absorvida, não havendo radiação residual na água esterilizada. Da mesma forma, a lâmpada desligada não oferece perigo algum. Os efeitos agudos da radiação UV são nos olhos e na pele. Nos olhos, a manifestação mais comum é uma inflamação dolorosa na córnea e conjuntiva (fotoqueratite), cujo efeito não é imediato, surgindo de 6 a 12 horas após a exposição. Há cura espontânea em 48 horas, sem deixar seqüelas. Existem várias outras lesões graves já bem documentadas em casos de exposição crônica ao UV, como catarata e lesão de retina. Há pouca literatura envolvendo exposições agudas, mas certamente um risco teórico existe. Os efeitos na pele são mais extensos, mas o risco de lesões graves é menor. Inclui um quadro de eritema idêntico à queimadura solar, que surge cerca de 24 horas após a exposição. Há vermelhidão, calor, dor e sensibilidade no local. É um quadro auto-limitado, regride espontaneamente sem agravos. Existe também um risco teórico significativo de aumento na incidência de câncer de pele. Apesar da maioria dos efeitos da exposição aguda ao UV serem auto-limitados, é prudente procurar auxílio médico imediato se houver algum acidente. Em resumo, esterilizadores UV são aparelhos que utilizam radiação de alta energia, com potenciais riscos à saúde humana, dependendo da dose e forma de exposição. Precisam ser manuseados com bastante cuidado, especialmente os DIY, e os riscos precisam ser bem conhecidos por nós aquaristas. Amianto e caixas d´água O amianto (também conhecido como asbesto) é um mineral fibroso, que tinha vasta utilização na indústria pelas suas propriedades físicas, uma excepcional resistência ao fogo e corrosão, isolamento acústico, além de ser leve e com baixo custo de produção. Foi muito utilizada na confecção de caixas d´água, telhas, pastilhas de freios de automóveis, roupas de segurança contra fogo, etc. Infelizmente, a inalação de fibras de amianto é extremamente perigosa, devido ao maior risco de desenvolvimento futuro de câncer (pulmão e pleura), além de outras doenças graves, como fibrose pulmonar. Uma vez aspiradas, as fibras microscópicas de amianto são retidas no pulmão, e nunca mais eliminadas. A ingestão é outra via de contaminação. Causam um processo de agressão contínua aos tecidos locais, que em longo prazo leva ao desenvolvimento de tumores. O risco muitas vezes é negligenciado pelo fato de o câncer se desenvolver após um período longo após a exposição, podendo ter uma latência de até 40 anos. A Agência Internacional de Pesquisa sobre Câncer da OMS classifica o amianto no grupo 1 (mais grave) dos 75 agentes reconhecidamente cancerígenos para os seres humanos. Acredita-se que a incidência de câncer de pulmão em trabalhadores com exposição ocupacional seja 10 vezes maior do que na população geral. Sua ação potencializa a carcinogênese do cigarro, com risco 90 vezes maior do que o da população. O amianto já foi banido em 52 países, entre eles nossos vizinhos, Chile, Argentina e Uruguai. No Brasil, sua utilização ainda é permitida, com restrições. O Congresso Nacional tem um projeto para que ela diminua progressivamente e seja totalmente abolida. Para caixas d´água por exemplo, em boa parte o material já foi substituído por outros, como polietileno e fibra de vidro. Ainda se fabricam caixas de fibrocimento, que contém amianto na sua composição, mas em baixa concentração. Porém, caixas d´água antigas descartadas podem ser facilmente adquiridas em demolições e lojas de materiais usados, por preços baixos. E nestes materiais, há alta concentração de fibras de amianto. Não há risco em consumir a água destas caixas d´água. Se usado como aquário, também não causa problemas para os peixes, somente alcaliniza a água, o que é facilmente solucionado com um verniz, de epoxi ou poliuretano por exemplo. O problema é quando por algum motivo for necessário serrar ou furar uma destas caixas (por exemplo, para criar uma janela com vidro numa das laterais da caixa), com risco de aspiração do pó. Deve-se sempre usar uma máscara com filtro (pode ser só um filtro mecânico, nem precisa ter carvão). Claro, deve ser feito em local aberto e arejado. Muito cuidado para descartar o pó também; o ideal é misturar o pó a alguma resina ou cola, para não expor o lixeiro, o vizinho, etc. Lavar bem a roupa que foi usada no procedimento também é essencial, o que deve ser feito imediatamente após o uso e quem a lava deve ser conscientizado do perigo e dos cuidados a tomar. É bom usar luvas pois as farpas de amianto espetam a pele e podem causar irritação, mas pelo menos não causam doenças graves neste local, podendo porém ocasionarem verrugas de asbesto – as fibras se alojam na pele e são envolvidas por esta, produzindo crescimentos benignos parecidos a calos. Infecções Aquela água cristalina do seu aquário na realidade é uma sopa fervilhante de vida invisível. Isto é ótimo para a saúde do seu aquário, mas pode carregar uma série de patógenos que podem causar doenças em seres humanos. O germe mais comum é o Staphylococcus, mas agentes mais agressivos já foram identificados em aquários domésticos, como Pseudomonas e Clostridium, estes últimos agentes da Gangrena gasosa e do Tétano. Sempre que houver contato com a água do aquário, cuidados básicos devem ser tomados, lavando-se as mãos com água e sabão. Muito cuidado também com as TPA’s… quem já não engoliu um pouco de água ao aspirar a água com uma mangueira? A atenção deve ser redobrada em aquários com répteis e anfíbios. Estes animais são reservatórios e veículos de Salmonella, um organismo que pode causar infecções digestivas sérias em seres humanos. Outros patógenos preocupantes já foram isolados nestes tanques, como o vibrião da cólera e a Edwardsiella. Alimentos vivos também devem ser manuseados com cuidado, em especial o Tubifex, que muitas vezes é coletado em esgotos. Não é propriamente uma infecção, mas um relato cada vez mais comum é de alergia a “Bloodworms” (larvas de mosquito quironomídeo), em especial na sua forma congelada. Como toda infecção, aquelas adquiridas de aquários e peixes também têm sua instalação e gravidade bastante dependentes do grau de imunidade do indivíduo. Portadores de doenças crônicas, de doenças imunodepressoras ou em uso de medicamentos que deprimem o sistema imune devem ter bastante cuidado ao manusear o aquário. Tuberculose píscea Esta doença afeta peixes, anfíbios e outros animais aquáticos, mas pode também acometer seres humanos. O Mycobacterium marinum é um organismo comum, de ampla distribuição, encontrado tanto em água doce quanto salgada, apesar do que o nome possa sugerir. Pertence ao mesmo gênero dos agentes causadores de micobacterioses em humanos, como a tuberculose e a hanseníase. A doença em humanos é bastante rara, com uma incidência estimada entre 0,04 a 0,27 casos/ano por 100.000 habitantes (estatística francesa e norte-americana). Somente como comparação, a incidência de casos novos detectados de tuberculose no Brasil é de 37,12 casos/ano por 100.000 habitantes (2008). Entretanto, é uma doença importante, por ser de difícil diagnóstico, fundamental para um tratamento correto. Esta doença já é conhecida desde 1939. No início foi relatada em usuários de piscinas públicas. Atualmente esta forma é bem rara devido ao uso de Cloro. Hoje, é uma doença tipicamente associada a pessoas que manipulam aquários ornamentais, daí os nomes populares “granuloma do aquário”, “doença do manipulador de peixes”, e “síndrome do dedo do criador de peixes”. A infecção se dá durante a manutenção do tanque, com entrada do germe através de um corte na pele (um machucado nas mãos dentro da água, ou um ferimento pré-existente, muitas vezes imperceptível). Geralmente o germe é rapidamente eliminado pelo sistema imune, mas pode evoluir para doença, semanas a meses após a exposição. Por ser um micro-organismo adaptado a animais de sangue frio, não se desenvolve bem a 37°C (temperatura corpórea humana). Assim, quando ocorre doença, em geral ela é restrita à pele. Inicialmente se forma uma pequena nodulação avermelhada próxima ao local de inoculação. Esta lesão tem crescimento lento; pode também haver saída de um material purulento, mas em pequena quantidade. O aspecto lembra bastante uma pequena “espinha”, mas com pouca reação inflamatória (dor, calor e vermelhidão) no local. Em alguns casos, pode haver uma extensão pelo sistema linfático, dando um aspecto bem típico, com a formação de lesões superficiais enfileiradas ao longo do antebraço e braço. Esta forma superficial é a mais comum. Raramente, esta infecção pode acometer planos mais profundos, envolvendo tendões, estruturas articulares e até ossos. Muitas vezes isto é precipitado por um tratamento errado no local com corticóides. Finalmente, existe uma forma bastante rara, com infecção disseminada e quase todos os casos descritos foram em pessoas com o sistema imune debilitado, como indivíduos que receberam transplantes. O diagnóstico é feito pela identificação do germe no material colhido nos locais acometidos. Pode haver cura espontânea, mas geralmente é necessário um tratamento longo com antibióticos, com duração de alguns meses. Em alguns casos pode ser necessária também uma limpeza cirúrgica dos tecidos envolvidos. Apesar de ser uma doença bem incomum, é uma condição que precisa ser conhecida por todos os aquaristas. Pela sua raridade, a maioria dos médicos não conhece esta doença. Seus sinais e sintomas são inespecíficos, o quadro é arrastado. Não são raros relatos de pacientes consultando vários profissionais sem um diagnóstico correto, retardando ainda mais o tratamento. Ou tratamentos inadequados, agravando o quadro. Desta forma, é fundamental a conscientização de todos nós, aquaristas, que em última análise representamos o “grupo de risco”, potenciais vítimas desta doença. Fornecer a informação da presença de aquários domésticos é fundamental no momento da consulta médica. Cuidados básicos de higiene também fazem toda a diferença: lavar bem as mãos após a manipulação rotineira do aquário, cuidados com ferimentos nas mãos, especialmente em tanques com peixes com suspeita de doença são recomendações básicas. A idéia deste texto não é instaurar caos e pânico entre aquaristas. É uma doença bem rara, tratável, mas cujo diagnóstico é bem difícil pelas razões acima expostas. Aqui, a informação é a arma mais poderosa. Walther Ishikawa wishikawa@nethall.com.br Obs.: Material publicado originalmente no fórum AquaHobby Bibliografia:
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Condicionadores de água

Lembro-me que quando pequeno, via meu pai lavar os aquários de tempos em tempos. Era o que se fazia há uns 25 anos no Brasil (nossa, como tô velho!). E há 25 anos, eu lembro de ver meu pai usando um tal de anti-cloro na água nova desses aquários. Obviamente que muitos peixes morriam, mas dizia ele que quando não se usava o anti-cloro, todos os peixes morriam porque o cloro matava os peixes.

Ele tinha razão. Ocorre que com o passar do tempo, muitas empresas de aquarismo passaram a se desenvolver e criaram novos filtros, novas técnicas de aquarismo vieram de fora, como a de nunca lavar o aquário, quantidade ideal de peixes, rações com melhor digestibilidade, o que garante um aquário mais limpo e também vieram os condicionadores de água, que fazem muito mais pelo peixe que simplesmente remover o cloro da água.

Um aquário onde um bom condicionador de água é usado toda vez que se realiza uma troca parcial e toda vez que se repõe a água evaporada, garante uma segurança muito maior e uma vida muito mais longa e saudável para todos os habitantes do aquário. A água da torneira é imprópria para ser usada diretamente em um aquário, mas é a única que podemos confiar se a tratarmos tratada adequadamente.

Água mineral, de chuva, de poços artesianos são muito arriscadas porque podem conter toxinas, metais pesados, ou mesmo ser quimicamente inviáveis para os peixes que você tem em seu aquário, mesmo que potáveis e por isso não devem ser usadas a não ser que você saiba exatamente o que ela contém e que esses elementos são compatíveis para seus peixes.

Se seu conhecimento sobre química é o mesmo que o meu sobre música sertaneja, ou seja, próximo do zero, sugiro usar água de torneira mesmo com um bom condicionador. Os condicionadores mais usados no mundo todo são justamente os destinados a tratar a água de torneira, transformando-as em seguras para os peixes. Podemos dizer que um condicionador de água é a evolução do jurássico anti-cloro.

A água de torneira, como disse, é nociva para os peixes pois em geral possui cloro em quantidade capaz de matar um peixe em questão de poucos minutos. Em alguns locais do mundo, não se usa mais cloro, mas outro elemento químico chamado cloramina, igualmente nocivo aos peixes pois converte-se em amônia no aquário. Além desses elementos, muitos elementos químicos são usados no tratamento até que cheguem à nossas casas, como os metais pesados.

Um condicionador de água moderno neutraliza todos esses elementos em segundos, o que permite que a água seja usada imediatamente no aquário sem a necessidade do que faziam os antigos aquaristas, deixá-la “descansar”. Um bom condicionador de água traz ainda outros benefícios. Possuem elementos químicos que protejem e, os melhores, reconstituem a mucosa natural dos peixes, que é responsável pela defesa do animal contra doenças causadas por parasitas e eventuais bactérias oportunistas. Esse muco é aquele treco gosmento que fica nas nossas mãos quando os pegamos e que tem “cheiro de peixe”.

Os mais avançados também possuem elementos para acelerar a reprodução das bactérias benéficas do aquário, tornando-o mais limpo e biologicamente eficiente.

Usar anti-cloro ou mais comumente denominado desclorificante no aquário é como iluminar sua casa com lamparinas. Procure sempre um condicionador completo e moderno, que normalmente são concentrados e valem cada centavo de seu custo. Lembre-se de usar sempre o condicionador na água nova, antes que esta entre no aquário! De nada adianta encher o aquário diretamente com uma mangueira e usar o condicionador de água depois, pois o cloro e outros elementos já estarão contaminando seus peixes.

Aquários grandes até podem ser completados com água direto da torneira usando-se uma mangueira, mas antes de começar a encher, dose na água a quantidade de produto recomendada e somente depois comece a encher. Certifique-se de que a velocidade da água seja lenta.

Além dos condicionadores de água de torneira, existem outros que podem trazer muitos benefícios e conveniências aos aquaristas.

Clarificantes

Existem ocasiões em que o aquário fica turvo. Seja por uma manutenção inadequada, ou explosão de bactérias em aquários novos, ou mesmo algum erro que podemos cometer na manutenção de um filtro e também explosão de algas verdes.

Alguns condicionadores servem para aglutinar as partículas que ficam em suspensão e tornam o aspecto do aquário desagradável. Essas partículas maiores vão para o filtro mecânico (perlon do filtro externo) e são facilmente removidas do aquário com a troca do mesmo. Há que se tomar cuidado, no entanto, com alguns produtos que contenham elementos químicos nocivos a algumas espécies de peixe, especialmente os Neons, Rodóstomus, Discos e também algumas espécies de Barbus entre outros. Clarificantes de água mais modernos são em geral bastante seguros e apresentam resultados muito bons em questão de horas.

Aclimatadores

Alguns condicionadores são desenvolvidos especificamente para simular um ambiente natural para determinadas espécies. Os peixes amazônicos, como Discos, Neóns, Rodóstomos, provém da região do Rio Negro, onde a água é bastante escura, de dureza e pH baixos. Há no mercado alguns condicionadores que fazem basicamente isso com a água do aquário. Algumas pessoas não gostam do aspecto “barrento” da água, mas podem-se usar esses condicionadores em situações excepcionais apenas, como na colocação de novos peixes ao aquário e também para incentivar a reprodução. Os peixes sentem-se mais confortáveis e sua adaptação é muito facilitada. Há condicionadores, também para Ciclídeos Africanos cujo habitat natural é uma água dura e pH bastante elevado.

Prorrogadores de trocas parciais

Efetuar as essenciais trocas parciais de água não é algo cansativo e trabalhoso. Basta que o aquarista adapte as condições da troca parcial ao local onde está o aquário e seu tamanho. Mas sabemos que há aquaristas que não pensam assim e deixam de fazer as tão importantes trocas parciais e a qualidade da água começa a decair, estressando os peixes ou até levando-os à doenças e morte. Para aquaristas assim, há um produto chamado Easy Balance que prorroga as trocas parciais por até 6 meses, desde que o aquário não esteja superlotado, haja uma filtragem química, biológica e mecânica bem dimensionadas ao tanque e que o alimento seja de boa qualidade e dosado na quantidade adequada. Trata-se de um produto que mantém as condições de água bem próximas do ideal por esse longo período, até que uma troca grande seja feita e o uso do produto reiniciado para mais 6 meses sem trocas. Na minha opinião, o ideal é sempre fazer as trocas parciais que são naturais e muito mais completas. Mas entre não fazer essas trocas e usar tal produto, sem dúvida que a segunda opção é a mais válida.

Controladores de Amônia

O melhor remédio é sempre a prevenção e eu já venho falando isso nas minhas matérias anteriores. Mas sempre há aquaristas desavisados que colocam peixes demais de uma só vez ou muito cedo em um aquário novo, há aquaristas que superalimentam seus peixes, há acidentes com um filtro que parou de funcionar… Enfim, há diversas situações onde a amônia, elemento derivado do excesso de matéria orgânica e terrivelmente tóxico para os peixes, pode aparecer. Nesses casos, há condicionadores líquidos que podem ser usados para transformar a amônia (NH3) em outro elemento não tóxico (em geral, o amônio – NH4). O engraçado aqui é que algumas marcas simplesmente não funcionam. Parece absurdo mas não é. Mas as boas e tradicionais marcas do mercado possuem condicionadores que funcionam muito bem. Mas lembre-se de que se a causa da amônia não for controlada, o problema irá ressurgir. Use esse tipo de condicionador apenas para ganhar tempo e resolver o problema de uma vez por todas.

Sérgio Gomes
Artigo publicado originalmente na Revista AquaMagazine nº 04 (2008) – Reprodução autorizada.

Climatização de estufas de peixes ornamentais com uso de condicionadores de ar

A vantagem do uso do condicionador de ar domestico é seu custo operacional, bem mais baixo que o custo dos aquecedores elétricos ou a gás. O custo com energia dos aquecedores a gás ou elétricos e principalmente desses, é muito mais elevado do que o custo com energia do condicionador de ar. Por ser um transferidor de calor, de um ambiente para outro, ele utiliza a energia elétrica apenas para impulsionar o embolo de seu compressor e movimentar as pás de seu pequeno ventilador. Ele, ao contrario dos aquecedores por resistências elétricas, não transforma energia elétrica em energia térmica. O condicionador de ar, através de expansão e compressão do gás refrigerante, transfere calor de um ambiente externo para um ambiente interno, podendo inverter o ciclo e funcionar de forma inversa. Então, se necessitarmos aquecer a estufa no inverno, ele irá transferir calor de fora para dentro da estufa. No verão, quando necessitarmos refrigerar a estufa, ele procederá de forma inversa, transferindo calor do ambiente interno para o ambiente externo.

A vantagem é evidente em conforto, pois o aquecimento é feito em grandes quantidades de calor, porém a baixa temperatura, o que evita o desconfortável efeito das resistências, que deixam o ar pesado, queimam oxigênio e geram desconforto.

Outra vantagem já foi falada acima e refere-se ao consumo de energia elétrica, muito menor que o consumo das resistências.

Mas nem tudo são flores. A aquisição do condicionador de ar custará muito mais caro. O retorno do investimento, por economia de energia elétrica, no entanto, dependendo do clima e do tamanho e isolação térmica da estufa, poderá acontecer ainda dentro do primeiro ano.

No mercado, existem basicamente, dois tipos de aparelhos. Os chamados “Condicionadores de ar de janela”, e os do tipo ´Split´. Esses últimos, um pouco mais caros, porém mais modernos e eficientes, com instalação bastante simples.

A grande condicionante para utilização dos condicionadores de ar é, no entanto, a temperatura externa esperada para a região. Eles desligam quando a temperatura externa chegar a 4º C. Então, em regiões de clima muito frio, recomendo a instalação de um aquecedor elétrico com termostato, em paralelo com o condicionador de ar. Em caso de desligamento por temperatura extrema, o termostato do aquecedor irá acioná-lo, evitando o esfriamento da estufa.

Uma estufa como a minha, com 12 metros quadrados, fica bem atendida com um aparelho de 9.000 BTU’s e que custa aproximadamente R$ 900,00. Haverá o custo de instalação se for do tipo Split, o que costuma custar mais R$ 400,00. Se puder dispor de um valor mais elevado, poderá optar por um aparelho de 12.000 BTU’s. Lembre no entanto que o tamanho da estufa e sua isolação térmica do ambiente, irá determinar a potência do aparelho.

Deverá ser considerado ao isolar a estufa, que o ar quente sobe e que para aquecer no inverno, com eficiência, a parte superior da mesma (pé direito) deverá ser baixa e bem isolada. Já no verão ocorrerá o contrario, pois o ar frio permanece junto ao piso, exigindo que as paredes, portas e janelas sejam melhor isoladas.

Concluindo, tenho como uma boa alternativa para climatização de estufas, o emprego de aparelhos de condicionamento de ar do tipo doméstico, com ciclo reverso, (quente e frio) independentemente de serem Split ou de janela.

Roberto de Souza Godinho
Criador amador de Betta Splendens em Santa Catarina