A nutrição dos peixes ornamentais

Desde que o homem começou a criar peixes em reservatórios, ele tem se esforçado para prover estes com as melhores condições de sobrevida e desenvolvimento. Ir ao encontro das necessidades nutricionais de todas as espécies de peixes mantidas em criatórios, considerando o fato de que estas podem ser herbívoras, omnívoras ou carnívoras, tem sido uma das maiores façanhas da piscicultura nas últimas décadas. Os peixes são um grupo de animais muito diverso, e conseguir satisfazer os requerimentos nutricionais de cada espécie com valor comercial, é realmente um grande desafio. Os aquaristas ao redor do mundo têm sido informados pelos tão renomados “especialistas” em nutrição animal aquática, de que não existe um único alimento capaz de satisfazer todos os requerimentos nutricionais dos peixes ornamentais, e como tal promovem a recomendação da dieta variada como a melhor maneira de assegurar que tais necessidades sejam totalmente atendidas. O que acontece na realidade é que, substituindo um produto alimentar deficiente por outro igualmente incompleto sob o ponto de vista nutricional, não se resolve a questão alimentar dos peixes em manutenção ou criação. É sem dúvida muito melhor contar com um único produto, que contenha toda a variedade de nutrientes necessários para cobrir todas as necessidades nutricionais dos peixes.

Temos assistido nos últimos 25 anos a grandes mudanças na indústria alimentícia de animais domésticos, cujo exemplo maior seriam os cães e os gatos, com inúmeras marcas de rações sendo usadas pelos donos e criadores destes animais. Algumas destas rações secas são comercializadas como dietas holísticas, com algumas marcas oferecendo fórmulas à base de vegetais, que contêm até ervas medicinais e tonificantes. Estas formulações de alta qualidade oferecem uma nutrição completa e balanceada, e a maioria dos donos as fornecem com exclusividade e durante todo o período de vida de seus animais de estimação. Os cães e os gatos alimentados desta maneira são muito mais saudáveis, vivem mais tempo e com muito menos doenças, e muito desta melhoria de condições se deve a uma dieta completa e balanceada que o fornecimento único de rações tem realizado. No entanto, se perguntarmos a este mesmo dono de cachorros como ele alimenta os peixes do seu aquário, provavelmente ele nos mostrará alguns potes de ração seca floculada e/ou granulada, outros pacotes de comida liofilizada, bandejas de alimentos congelados no freezer … como o Mr. Spock diria no seriado Jornada nas Estrelas, “isto é altamente ilógico”.

Alimentos comerciais para peixes

Os avanços científicos através do século XX permitiram também que se mantivessem peixes em aquários com mais facilidade e conveniência do que nunca tinha acontecido, apesar de alguns segmentos da indústria de alimentação de peixes terem estacionado há mais ou menos trinta anos atrás, quando parecia que não haveria mais perspectivas de evolução e melhoramentos. Estima-se que haja em torno de 60 milhões de aquaristas em todo o mundo, mas o assunto da nutrição de peixes continua sendo o aspecto mais mal compreendido de todas as facetas da manutenção e criação destes animais aquáticos, com todas as mentiras, mitos e falácias sendo regurgitados repetidamente de tal maneira que alguns destes passaram a ser aceitos como fatos e verdades. A nutrição dos peixes mantidos em aquários e tanques é um dos aspectos mais importantes da manutenção de muitas espécies vivas em cativeiro, e no entanto é uma das menos discutidas e compreendidas na atualidade. Os aquaristas de uma maneira geral gastam centenas ou milhares de dólares em equipamentos para seus aquários, mas quando se trata de determinar qual a melhor dieta que deverão usar para seus peixes, normalmente seguem a tendência geral de utilizar uma alimentação variada preconizada por seus amigos, ou escolhem o tipo de alimento conforme a figura da espécie de peixe fotografada no rótulo. É claro que um pote de ração com a figura de um Paracanthurus hepatus (Tang azul real, peixe ornamental marinho) no rótulo deve conter alimento adequado para esta espécie, correto? Bem, talvez sim, mas pode ser que não também.

Conhecendo os rótulos

Este assunto parece causar muita confusão na cabeça dos aquaristas, de maneira que se torna necessário abordá-lo neste artigo. Na sua maior parte a indústria de rações é auto-regulada, o que quer dizer que se torna fácil manipular uma lista de ingredientes para se favorecer o próprio produto. Por exemplo, se o teor de cinzas é muito alto na ração, a maneira mais fácil de o fabricante contornar o problema é simplesmente não mencionar este parâmetro no rótulo. O teor de cinzas de uma ração vem dos ossos, conchas e escamas dos animais marinhos utilizados na ração, que possuem altas concentrações de cálcio e fósforo; de uma certa maneira, esse teor é inevitável. Mas a cinza proveniente dos minerais de ingredientes crus como as algas Kelp e Spirulina, apesar de benéficos, devem ser limitados. Se uma quantidade excessiva for usada, pode ter um efeito negativo, pois os peixes conseguem assimilar tanto conteúdo mineral que depois o expelem para o ambiente, poluindo a água do aquário ou tanque. Um fabricante de ração menos escrupuloso pode usar pouquíssima quantidade de um ingrediente cru como a alga Spirulina , mas colorir artificialmente a sua ração com uma anilina verde, e promovê-la como uma ração à base desta alga microscópica recomendada especificamente para peixes herbívoros. Mas se o aquarista ler o rótulo cuidadosamente, em alguns casos poderá descobrir que a ração fabricada para peixes herbívoros na verdade é baseada em muita farinha de peixe, e que contem muito pouca alga ou matéria vegetal, e em vez disto possui muito “enchimento” como milho, farelo, batata, etc.

O fabricante pode listar lagosta e siri nos seus ingredientes para dar um significado de qualidade, mas na realidade trata-se apenas das partes não aproveitáveis destes animais. Ele pode também listar muitas espécies de peixes que fazem parte da farinha, mas a farinha de peixe continua sendo um ingrediente único; explicando, se usamos 500 Kg de farinha de peixe por tonelada de ração, não importa de quantas espécies de peixes essa farinha é constituída, pois elas continuam fazendo parte de uma única farinha de peixe, e no final são os mesmos 500 Kg de farinha de peixe por tonelada de ração. E o segundo ou o terceiro ingrediente costuma ser o agente ligante, como a farinha de trigo, por exemplo. Muitos aquaristas desavisados leem muitas espécies de peixes na listagem de ingredientes, seguidos por farinha de trigo, e são levados a acreditar que esta ração em particular deve possuir uma alta concentração de proteína de peixe e pouco ingrediente ligante. Na verdade trata-se de mais uma ração genérica à base de farinha de peixe. Todos as rações aquáticas necessitam de um agente ligante de qualidade, senão seus ingredientes se dissolverão rapidamente quando imersos na água. Rações de qualidade usam um máximo de 25% de liga (substância, agente ligante), enquanto que rações de qualidade inferior podem possuir até 50% de farinha ligante.

Pode haver também uma grande amplitude de opções de utilização dos nutrientes nas diversas categorias de ingredientes usados. Assim, farinha de camarão é tipicamente constituída das cabeças e cascas destes crustáceos, e muitas farinhas de peixe são constituídas dos restos do processamento das indústrias de sardinhas, por exemplo. No entanto, lamentamos informar que uma ração de alta qualidade usa nada mais nada menos que os peixes por inteiro, como Krill, mexilhões, arenques, etc., e não os desperdícios das indústrias de processamento.

“A prova do pudim é feita ao comê-lo”

É possível que uma das principais razões pelas quais a dieta variada tem sido promovida por todos esses anos, seja devido ao fato de que até à década passada a maior parte das rações comerciais não conseguiam fornecer uma nutrição completa? Ou os lucros e a política têm um papel preponderante nesta filosofia há longo tempo sustentada? A maioria das revistas e periódicos do ramo da aquariofilia são voltadas para a difusão sobre a manutenção ideal de peixes, e fornecem assim um bom serviço de assistência aos aquaristas, mas por causa dos anúncios dos fabricantes e dos fundos que sustentam este tipo de publicações, elas não podem publicar estudos comparativos sobre o desempenho das diversas rações existentes no mercado.

Cremos que a maioria dos aquaristas, no entanto, gostaria de ver o resultado de um experimento controlado onde se estudasse o desempenho das principais rações “top of the line” existentes no mercado. Bem, este tipo de estudos têm sido feitos. Em 2002, um estudo aprofundado foi realizado em cerca de 33 tipos de rações mais conceituadas no mercado, por um grupo de veterinários de Cingapura. Novamente em Fevereiro de 2007 o colégio Sparsholt da Grã-Bretanha completou um experimento nutricional com ciclídeos do lago Malawi, mas infelizmente todos estes estudos e principalmente o resultado deles obtido não foi divulgado, devido à política dos interesses envolvidos. Acreditamos por isso que cada aquarista deve levar a efeito seus próprios testes, por mais que não sigam os parâmetros extremamente controlados e rígidos dos experimentos científicos. Parece-nos a única maneira de o aquarista achar seus próprios resultados e compartilhá-los com outros entusiastas do hobby, para se promover enfim o assunto há tão longo tempo negligenciado da nutrição dos peixes. Chegue à sua própria conclusão, em vez de ficar regurgitando o que os fabricantes defendem. Não devemos isto aos nossos hóspedes aquáticos, quer dizer, não devemos proporcionar aos nossos peixes uma vida longa e saudável?

Em 1996, quando publicamos o livro “Marine Aquarium Companion” , considerávamos certas espécies de peixes marinhos, como o peixe-escorpião por exemplo (Pterois sp.), condenadas à morte quando mantidas no confinamento do aquário, devido à sua dieta especializada no meio ambiente marinho natural. Àquela época achávamos que nenhum alimento artificial poderia manter as espécies marinhas mais delicadas a longo prazo, e que o peixe-escorpião era uma espécie pacífica de peixe! Logo descobrimos que qualquer peixe à beira da morte tem um comportamento forçosamente pacífico. Na verdade, um peixe-escorpião saudável e que está prosperando é um animal bastante agressivo, e logo descobriríamos isto quando conseguimos formular a ração adequada para esta e outras espécies marinhas similares.

São omnívoras a maior parte das espécies de peixes?

Para o aquarista marinho, os Tangs azuis do Atlântico (Acanthurus coeruleus) são considerados peixes primariamente herbívoros. Apesar de serem na verdade peixes que “pastam” nas rochas cobertas de algas, com lábios e dentes apropriados para cortarem estas plantas aquáticas, na verdade sabemos por estudos de nutrição com esta espécie que ela necessita muito mais do que apenas algas para serem mantidas no confinamento do aquário. Um estudo feito na Universidade da Flórida pela Dra Ruth Francis Floyd e seu colega Dr. Chris Tilghman, sobre a alimentação do Blue Tang, mostrou que, numa população desta espécie de peixe dividida em três grupos, os exemplares alimentados com ração de proteína marinha sofreram uma mortalidade de apenas 30% enquanto que o restante dos indivíduos sobreviventes deste grupo tiveram um ganho de peso de 400%; os dois outros grupos, alimentados um com ração exclusiva para herbívoros e o outro apenas com a alga marinha do gênero Ulva, tiveram altas taxas de mortalidade (80%) e todos os exemplares apresentavam sinais clínicos de desnutrição, como emagrecimento acentuado. Apesar das informações sobre este importante experimento terem sido explanadas na Conferência Internacional sobre Peixes Marinhos, que aconteceu em Buena Vista Lake, Flórida, em Novembro de 2001, fora deste evento os resultados nunca se fizeram conhecidos.

Enquanto os ictiologistas estão muito ocupados descrevendo e classificando novas espécies de peixes a cada ano, existe muito ainda por saber sobre a biologia e o comportamento destas mesmas espécies e daquelas já descritas. Apesar de todos os peixes possuírem métodos especializados de alimentação no meio natural, e ingerirem preferencialmente certos materiais em detrimento de outros, na maior parte das vezes eles são oportunistas e comem de tudo um pouco que conseguem abocanhar, complementando a sua alimentação com nutrientes de outras fontes que não apenas as preferenciais. Assim, mesmo os Blue Tangs, apesar de serem herbívoros especializados, ingerem uma certa quantidade de nutrientes de outras fontes que não apenas as algas. Os ciclídeos de água doce dos lagos africanos Malawi e Tanganika são das espécies de peixes mais especializadas nos hábitos alimentares encontradas no nosso planeta, e ainda aqui todas são oportunistas quando a ocasião se depara. Muitas pessoas se preocupam demais com a quantidade de matéria vegetal que algumas espécies de peixes comem, quando deveriam saber qual a verdadeira origem das fontes de proteína no ambiente natural. A realidade é que apesar das algas dominarem o conteúdo estomacal da maioria das espécies de ciclídeos africanos, e estes terem sido portanto classificados como peixes herbívoros, os alimentos que na verdade os fazem crescer são ninfas e larvas de insetos, crustáceos, caramujos e zooplancton, e não o material vegetal. Isto é algo que a maioria dos aquaristas não leva em consideração. Alguns aficcionados do hobby podem achar que alimentar um peixe-cirurgião com uma dieta de algas pode ser mais natural do que com uma ração granulada ou floculada, mas isto não poderia estar mais distante da verdade, e os resultados da pesquisa feita na Universidade da Flórida demonstram isto. No meio ambiente natural, os peixes herbívoros têm que se alimentar constantemente por pelo menos 12 horas ao dia, para conseguirem ingerir nutrientes suficientes. Durante este período eles também descarregam fezes e urina contínuamente. No meio ambiente confinado do aquário ou tanque, estes mesmos peixes não possuem uma quantidade ilimitada de algas para pastarem o tempo todo, e mesmo que o aquarista conseguisse alimentá-los a cada hora, isto adicionaria quantidades massivas de poluição ao ambiente confinado do recipiente. Um aquário não representa nem uma ínfima fração do volume de água disponível no oceano ou num lago. De maneira que peixes classificados como herbívoros possam prosperar num aquário ou tanque, eles devem ingerir uma quantidade suficiente de nutrientes da sua dieta, e a situação que acontece no meio silvestre não tem a mínima chance de ser duplicada em confinamento.

Os peixes carnívoros se alimentam de outros peixes no seu meio ambiente natural, mas estes outros peixes na verdade encontram-se “recheados” de outras formas de vida, como espécimes do fito e do zooplancton, pois fazem parte de toda uma cadeia alimentar. Assim, todas estas presas e seus predadores fornecem uma nutrição balanceada que não pode ser comparada a apenas fornecer peixes vivos ou congelados como alimento. Assim como os espécimes mantidos em confinamento, mesmo os carnívoros no meio ambiente natural consomem uma certa quantidade de matéria vegetal, para obterem nutrientes variados que podem estar faltando na sua dieta. A realidade é que os carnívoros não se alimentam apenas de carne, da mesma maneira que os herbívoros não ingerem apenas vegetais.

Ao longo dos anos a maioria dos aquaristas têm sido levados a acreditar que os peixes classificados como herbívoros devem comer uma dieta à base de vegetais, de maneira a prosperarem em cativeiro, mas isto simplesmente não é o caso. Nós mesmos da New Life falhamos redondamente no passado quando tentamos criar uma fórmula específica para peixes herbívoros, usando apenas ingredientes vegetais, e aprendemos depois com nossos erros. Poderíamos ter feito lucros financeiros comercializando uma ração que tivesse este tipo de apelo, mas teria sido pouco ético fazer isto. Nós simplesmente não poderíamos fabricar e vender uma ração que realmente não beneficiasse o alvo de nossa atenção, os peixes.

Proteína: os blocos de construção

Muitos hobbystas se ligam nas porcentagens de proteínas mostradas nos rótulos das embalagens de rações, sem entenderem de verdade o que esses números significam. Por exemplo, o nível de porcentagem de proteína não informa nada sobre a qualidade dessa proteína. O valor da proteína está diretamente relacionado ao conteúdo de aminoácidos, como a Arginina, a Histidina, a Isoleucina, a Leucina, a Lisina, a Metionina, a Fenilalanina, a Treonina, o Triptofano, e a Valina, que essencialmente são os blocos de construção das proteínas, para os músculos e o crescimento. A porcentagem da proteína mostrada no rótulo não nos diz como a proteína foi processada, ou mesmo se ela se encontra sob uma forma que o peixe possa prontamente digerir e utilizar. A não ser que a proteína contida na ração possa ser totalmente digerida pelos peixes, o nível de porcentagem da proteína crua no rótulo não terá nenhum significado.

Proteína de alta qualidade que é fácilmente digerida pelos peixes nunca causa problemas gastrointestinais, não importa se aqueles são herbívoros, omnívoros ou carnívoros. A proteína em excesso é na sua maior parte excretada como desperdício. A idéia difundida de que o excesso de proteína causa inchaço abdominal ou qualquer outro tipo de problemas gastrointestinais, é totalmente imprecisa. Proteína de baixa qualidade, ou outros ingredientes difíceis de digerir é que normalmente são os causadores de problemas gástricos nos peixes. Os aquaristas que mantêm peixes carnívoros querem o maior teor de proteína na ração que puderem encontrar, e aqueles que mantêm herbívoros parecem querer o menor, e nenhum deles parece entender os princípios básicos envolvidos. O nosso conselho é que se deve esquecer os números encontrados nos rótulos, e concentrar-se na qualidade da proteína.

Os ingredientes listados no rótulo da embalagem da ração deverão ser a primeira consideração sobre a qualidade do conteúdo de proteína. Deve-se evitar aqueles que contêm muito grão como farelo de trigo, milho, farinhas vegetais, batata, ou soja, como primeiros ingredientes listados, uma vez que estes costumam ser os mais prevalentes. Procurar, em vez disto, por ingredientes de alta qualidade, como proteínas derivadas de arenque inteiro, Krill, mexilhão e lula, como sendo os primeiros itens da lista.

Muita gente pensa que a farinha de peixe seja uma fonte fraca de proteínas, mas isto não é verdade. A farinha de peixe é utilizada na indústria alimentar animal numa infinidade de aplicações que incluem rações para animais de estimação, aves e concentrados protéicos, sendo uma excelente fonte de proteínas rica em aminoácidos essenciais, ácidos graxos e vitaminas e minerais. Farinha de peixe de alta qualidade é obtida a partir do processamento de peixes inteiros, como o arenque, e não de sub-produtos da moagem dos restos da indústria pesqueira. Este último tipo de farinha de peixe costuma perder a qualidade ao longo do tempo, e como geralmente é constituída de restos de cabeças, escamas e espinhas, costuma fornecer um excessivo conteúdo de cinzas à ração. Alguns rótulos de rações simplesmente nem listam o conteúdo de cinzas. Óbviamente que é muito mais barato para um fabricante de rações usar este tipo de ingrediente cru do que uma fonte de proteína de alta qualidade como o Krill sul-antártico, arenque inteiro, mexilhões ou lulas. Se a farinha de peixe não está listada como ingrediente principal e o conteúdo de cinza é menor do que 9%, normalmente indica que muita soja, glúten de milho ou farinha de sangue estão sendo utilizados. Apesar de algumas espécies de peixes como a carpa japonesa decorativa (nishikigoi) conseguirem assimilar grandes quantidades de soja e glúten de milho, a maior parte das espécies de peixes tropicais ornamentais não consegue isto, e a farinha de sangue, apesar de ter um nível alto de proteína, é pobre em muitos aminoácidos essenciais.

Carbohidratos

Os peixes não usam carbohidratos de maneira muito eficiente, e em rações de qualidade eles são usados mais como agente ligante durante o processo de manufatura. Sem farinha de algum grão a ração simplesmente se desfaz na água. Devido ao fato de que os carbohidratos são uma fonte barata de energia nas rações, algumas fórmulas utilizam grandes quantidades deste tipo de nutriente para baratear os custos. A lógica usada é: se é mais barato, porque não usar? As farinhas de grãos têm o seu lugar nas rações para peixes, servindo como substâncias ligantes e ajudando na síntese dos lipídios e proteínas. Todavia, se quantidades excessivas forem usadas, os peixes podem estocar como gordura em seus organismos, ou podem aumentar a quantidade de desperdício sólido expelido. Isto leva a uma poluição excessiva sendo adicionada ao aquário ou tanque. Os produtos derivados dos grãos também são muito difíceis de digerir em muitas espécies de peixes, e quando usados em excesso podem causar problemas gastrointestinais devido à digestibilidade e absorção deficientes. Consequentemente, as bactérias patogênicas começam a se multiplicar no trato intestinal, dobrando de número populacional a cada vinte minutos, resultando no entumescimento (inchaço) abdominal. Na maioria dos casos esta condição é extremamente contagiosa e o resultado final é quase sempre fatal.

Lipídios: quanto é demais?

Os lipídios (gorduras – ácidos graxos ômega 3 e 6) são nutrientes altamente energéticos que suprem aproximadamente duas vezes a energia que os carboidratos e as proteínas são capazes de fornecer, e tipicamente compreendem cerca de 5 a 10% das dietas de peixes tropicais. Os lipídios também fornecem ácidos graxos essenciais e servem como veículos de transporte para as vitaminas lipo-solúveis.

Acúmulo de gordura no fígado tem sido designado como um dos problemas metabólicos mais comuns em peixes, e frequentemente causa a morte destes. A conexão entre lipídios em excesso e a doença de acúmulo de gordura no fígado dos peixes tem sido algo bem comum e conhecido na indústria da aquacultura por muitos anos. O Departamento de Pesca e Ciências Aquáticas da Universidade da Flórida confirmou recentemente esta tendência, num estudo que envolveu ciclídeos africanos como sujeitos do experimento. Ainda assim a tendência recente em algumas rações para peixes é usar níveis altos de gorduras na dieta, de maneira a substituir parcialmente o nível de proteína. Apesar desta prática ajudar a reduzir custos na formulação das rações, ela tem efeitos deletérios na saúde dos peixes, como excessiva deposição de gordura no fígado destes animais. Na nossa opinião 5% de lipídios na ração não é um nível de composição da dieta que vá de encontro a todo o requerimento energético dos peixes, mas com esta taxa eles podem compensar com a ingestão de proteína para compensar algum do dispêndio de energia. Usando este nível de inserção de lipídios, não haverá em nenhum momento gordura em excesso para ser metabolizada e depositada no fígado. É preciso saber que existe uma grande diferença entre um peixe gordo, e um peixe com tônus muscular.

Digestibilidade

Se o custo da ração é um ponto importante a considerar, e normalmente o é, precisamos no entanto de prestar atenção ao fator conversão alimentar, o que a maioria dos aquaristas não faz. Não se pode comparar rações apenas pelo seu preço, pois isto é impossível de se fazer! Na maioria dos casos, a ração mais cara é na verdade a melhor, por possuir ingredientes mais digeríveis e consequentemente uma taxa de conversão alimentar bem menor (quantidade de ração fornecida versus ganho de peso). Mesmo para o aquarista que possui apenas um ou dois aquários, a economia pode ser substancial, entre uma ração de alta qualidade e de fácil digestão e absorção, e outra que possui ingredientes de baixa qualidade e pouca absorção. Muitos aquaristas podem até nem notar a diferença, mas quando se começa a gerenciar dezenas ou centenas de tanques ou aquários, os restos dos arraçoamentos freqüentes começam a ficar bem aparentes. Da mesma maneira, a diferença de custo no total da ração utilizada ao longo de todo um ano pode ser significativa.

Quando se utiliza uma ração Premium de alta qualidade para se arraçoar os peixes, pode-se ficar surpreso de quão pouca quantidade se utiliza dela para manter os peixes em ótimas condições de saúde e crescimento.

Anti-oxidantes e porquê eles são necessários

A simples menção do assunto anti-oxidantes alimentares causa um acalorado debate entre os mantenedores de peixes, especialmente quando o produto é a etoxiquina. Todo o problema levantado à volta deste produto nasceu de um simples rumor, que atingiu proporções de um mito urbano graças aos debates muitas vezes sem conhecimento de causa nos chats de fóruns da Internet. A única razão pela qual este produto preservativo foi questionado deu-se por causa de um experimento realizado com ratos em 1987, no qual se forneceu a etoxiquina a estes animais a um nível de dose de 5000 ppm, muito acima do permitido e recomendado nas rações em geral. O resultado deste estudo sugeriu um potencial carcinogênico da etoxiquina, e desde então este produto tem sido culpado de uma miríade de problemas de origem nutricional, nenhum dos quais teve, no entanto, sua origem comprovada no anti-oxidante. Considerando a larga utilização deste produto na maioria das rações para animais de estimação, seria de se esperar que a esta altura dos acontecimentos uma epidemia de câncer teria atingido toda a população de cães, gatos, peixes e outros animais mantidos pelo homem. Não existe um único caso documentado de que a etoxiquina, usada dentro dos limites aprovados de inserção nas rações, tenha causado qualquer tipo de condição de doença a longo prazo nos animais mencionados. O fato verdadeiro é que este único anti-oxidante tem salvo as vidas de inúmeros tipos de pets evitando que estes sofram sérios problemas de envenenamento causados pelas gorduras potencialmente rancificantes contidas nas rações.

Sem o anti-oxidante, o óleo contido na ração piscícola ficaria rancificado em pouco tempo. Os aquaristas devem saber que todos os produtos à base de peixe ou farinha de peixe contêm etoxiquina. Não tem como fugir disto. Cada tipo de alimento marinho como Krill, peixe, camarão, lula, etc., já vem com uma pequena quantidade de etoxiquina, pois isto faz parte das leis e regulamentos da Guarda Costeira dos Estados Unidos que requer que todos os barcos pesqueiros que entram nos portos americanos apliquem este preservativo no seu produto de pesca. Isto é obrigatório por lei, por questões sanitárias e de saúde pública, para preservar o produto da pesca de rancificações. Assim, qualquer fabricante de ração que utilize qualquer produto de origem marinha como ingrediente na sua formulação, terá sempre alguma etoxiquina na análise final, mesmo que não coloque deliberadamente este preservativo no seu produto manufaturado. Mas se ainda assim o fabricante usar etoxiquina na confecção do seu alimento, não existe nada de absolutamente errado neste procedimento: este anti-oxidante é um produto aprovado pela FDA (Food and Drugs Administration) dos E.U.A. para utilização em rações animais e para consumo humano, desde que na formulação sua concentração não ultrapasse os 150 ppm.

Em Julho de 1997, depois de saírem os resultados sobre o último estudo sobre a etoxiquina, o Centro de Medicina Veterinária da FDA solicitou aos fabricantes de rações para cães que reduzissem o nível do preservativo para 75 ppm, para permitir uma margem de segurança maior às cadelas lactantes e seus filhotes. Isto porque, uma vez que a cadela em lactação se alimenta 2 a 3 vezes mais ao dia do que em condições de não-reprodução, qualquer aumento na ingestão causa uma exposição proporcional a qualquer substância existente na ração. O estudo mostrou que os níveis habituais de 150 ppm utilizados não tinham efeitos adversos em condições de manutenção normais, mas que a redução para 75 ppm criava uma margem adicional de segurança para as cadelas em lactação e seus filhotes.

Até à data, a FDA não encontrou qualquer evidência científica ou médica de que a etoxiquiina, utilizada nos níveis adequados e permitidos, tem qualquer efeito nocivo para a saúde do homem ou dos animais. Nenhuma reclamação documentada também sobre este assunto veio parar aos seus arquivos, nem uma sequer. É preciso ter em mente que qualquer substância pode advir tóxica em dosagens altas, incluídas aqui as vitaminas lipo-solúveis. Nenhum nutricionista recomendaria a eliminação completa das vitaminas A, B, D, E e K da dieta só porque níveis altos destas podem ser tóxicos, apesar de ser exatamente este o raciocínio das pessoas quando discutem sobre substâncias anti-oxidantes como a etoxiquina. Quando usados em pequenas quantidades para prevenir a rancidez, os preservativos anti-oxidantes são valiosos e importantes componentes da dieta.

Hormônios

O uso de hormônios masculinos (testosterona) é altamente ilegal nos U.S.A., e por boas razões. O uso a longo prazo de esteróides nas rações tem estado associado a deformações no esqueleto, susceptibilidade crescente a infecções, e a mudanças patológicas no fígado, rins e trato digestivo dos peixes. Fêmeas que são alimentadas com esteróides sexuais desenvolvem colorações tão ativas quanto as dos machos de sua mesma espécie, e machos juvenis se colorem mais rápidamente num estágio precoce ainda do seu desenvolvimento. Os efeitos deletérios destas práticas surgem logo depois, quando se remove a dieta à base de hormônio: as fêmeas perdem a cor exacerbada, advêm estéreis, e os machos perdem também a coloração precoce e nunca mais a ganham de novo. Rações de alta qualidade para peixes contêm realçadores naturais das cores encontrados na natureza, que permitem aos peixes ganharem coloração máxima à medida que amadurecem. O objetivo ideal para um fabricante de rações para peixes é imitar o que é encontrado na natureza, e não inventar num tubo de ensaio.

A variedade é o sabor da vida?

Os peixes ficam monótonos quando são alimentados com um só tipo de comida? Quando se faz esta pergunta aos aquaristas a maioria tende a responder em uníssono: “A variedade é o sabor da vida” ou “Você gostaria de comer a mesma coisa o tempo todo?” Estas são todas interjeições humanas. Se uma boa ração consegue manter os peixes em condições de saúde e crescimento, isto não deve ser nenhum problema. Os peixes são criaturas de hábito; eles não são capazes de reações como ficarem “aborrecidos” ou entrarem em “monotonia” só porque não recebem uma alimentação variada!

Os peixes podem então prosperar com um só tipo de alimento? A resposta é sim! Os peixes requerem uma dieta variada, mas se uma única ração é confeccionada a partir de uma grande variedade de ingredientes de alta qualidade, a variedade que os aquaristas procuram pode ser encontrada num único produto, numa única formulação, numa única ração. Se um fabricante conseguir reunir todos os ingredientes encontrados numa variedade de formulações diferentes, e criar uma ração que contenha todos estes nutrientes num balanceamento apropriado, não é a mesma coisa que fornecer aos peixes todos estes alimentos separadamente? Se forem usados apenas ingredientes de primeira qualidade, na verdade esta ração única pode ser muito melhor para a nutrição dos peixes. Este conceito tem sido provado na aquacultura comercial de peixes de corte há cerca de um século: não há nada de novo em se alimentar uma determinada espécie de peixe em cultivo com uma dieta balanceada utilizando-se de uma única ração. O que a maioria dos aquaristas deveria saber é que a indústria da aquacultura está por detrás de todo o conhecimento desenvolvido pelos fabricantes de rações granuladas, e que a ciência desenvolvida para aquela atividade foi a base para a confecção de todas as rações floculadas e granuladas usadas para os peixes ornamentais. No entanto, a maior parte desta pesquisa da aquacultura envolveu espécies de peixes para o consumo humano; com a exceção da cor da carne de certas espécies como o salmão, a truta e o camarão, a coloração geral dos peixes e a longevidade destes nunca foi o principal objetivo destes estudos. Assim, as rações desenvolvidas para os peixes ornamentais tropicais tiveram que assegurar um baixo conteúdo em lipídios, uma alta concentração de proteína animal de origem marinha, e uma variedade de ingredientes realçadores das cores, como o Krill (Euphausia superba), a alga microscópica Spirulina (Spirulina platensis), ou o pigmento natural Astaxantina (Haematococcus pluvialis).

Flocos versus grânulos

Qualquer discussão que envolva ração para peixes necessita uma breve explicação sobre os dois tipos básicos de alimento existentes: flocos e grânulos. Enquanto os flocos foram o tipo de ração mais popular para os aquaristas nos últimos cinqüenta anos, as operações comerciais de peixes ornamentais e de corte aprenderam há muito tempo que os grânulos são a escolha superior para todas as aplicações de arraçoamento. Os grânulos são preferidos em detrimento dos flocos uma vez que eles são mais densos na sua composição, muito mais estáveis na água, e gasta-se menos quantidade por volume no arraçoamento. Os flocos, por serem finos e com mais superfície, absorvem água muito rápidamente, e lixiviam nesta as vitaminas hidrossolúveis em um curto período de tempo. Alguns estudos sugerem que uma vez que os flocos são jogados na água do aquário, a maior parte das vitaminas hidrossolúveis (como a vitamina C) são lixiviadas dentro de 60 a 90 segundos. Para as espécies de peixes ornamentais de 2 a 7 cm de tamanho, os grânulos são sem dúvida o melhor método de alimentação.

Matéria vegetal e Spirulina

Nos anos recentes a alga Spirulina foi promovida a plano de destaque, de tal modo que não há aquarista ou fabricante de rações que não a recomende. Apesar desta micro-alga ser mesmo um ingrediente cru de alta qualidade, e ter o seu lugar garantido na maioria das aplicações alimentícias, ela possui um alto teor de vitamina A e de minerais. Uma vez que a vitamina A é lipossolúvel, quantidades excessivas podem causar intoxicação nos peixes. Enquanto que uma inclusão de 5 a 10% na ração aumenta a taxa de crescimento, com o bônus adicional de avivar a cor azul nos peixes, quantidades de inclusão maiores colorem os peixes artificialmente, e causam problemas de saúde relacionados à toxidez da vitamina A. A maior parte das boas rações para peixes já contêm Spirulina suficiente, e fornecer mais desta alga do que é requerida é no mínimo contra-producente.

A fibra vem da matéria vegetal, e deve ser mantida a um nível razoável na ração. A não ser que ações enzimáticas e bacterianas tomem lugar no trato intestinal, a maior parte dos peixes não consegue digerir a celulose. A fibra tem um efeito laxante no trato digestivo dos peixes, e muita quantidade dela causa diarréia. Esta por sua vez encurta o tempo de retenção e dificulta a absorção dos nutrientes no intestino. A maior parte das vezes, muita quantidade de uma coisa boa, pode ser uma coisa ruim.

Alimentos vivos, congelados e coração de boi

Com a maioria das espécies de peixes existe sempre o risco de mortalidade na larvicultura, devido ao requerimento especial de presas vivas para as larvas começarem a se alimentar. É por causa disto que os piscicultores usam náuplios de artêmia salina, micro-vermes, etc., para fazerem com que as larvas adquiram o reflexo de abocanharem alimento. As larvas alimentadas com náuplios de artêmia salina possuem uma taxa de crescimento mais uniforme do que aquelas às quais se fornece um alimento em pó seco, mas uma vez que estas passam das duas semanas de idade, uma ração seca de alta qualidade ultrapassa em muitos casos o desempenho das presas vivas. A maioria dos alimentos vivos podem aumentar também o risco de se adicionar ao meio de cultura patógenos indesejáveis, doenças e poluentes, como é o caso dos vermes Tubifex, que além disto possuem um alto teor de gordura que pode causar problemas de saúde nos peixes a médio prazo.

A maioria dos alimentos preparados e congelados (ração úmida) possui um alto teor de água (80%), e o processo de congelamento faz com que as membranas das células dos tecidos animais se rompam devido à contração e posterior expansão no descongelamento. E quando este alimento é descongelado e “enxaguado” com água corrente, muitos dos nutrientes se lixiviam e o que resta acaba sendo básicamente cascas com muito pouco valor nutricional. Os alimentos vivos e congelados têm um lugar no mundo da manutenção de peixes, tão sómente porque na realidade algumas espécies em determinados estágios de desenvolvimento necessitam destes para despertar em si o instinto de abocanhar os primeiros alimentos que se mexem à sua frente ou que possuem um atrativo inicial bem suculento. Mas uma vez que este comportamento esteja desenvolvido e estabelecido, a conversão do peixe para uma ração seca e nutricionalmente completa deve ser a transição natural, para assegurar a sua saúde geral e longevidade.

A carne do coração de boi tem sido outro alimento popular entre os criadores de acarás-disco, pois condiciona os reprodutores para a desova e faz os alevinos crescerem também. Apesar deste alimento funcionar, pode também ser responsável por um tempo de vida mais curto para os exemplares desta espécie de peixe, pois os restos de carne de coração de boi têm o maior potencial para a poluição da água do aquário ou tanque. Muitos criadores de discos na Ásia trocam a água de suas baterias de reservatórios cerca de 2 a 3 vezes ao dia, para manter uma qualidade satisfatória do meio aquático para os seus peixes. A razão porque os discos são peixes muito difíceis de aceitar ração granulada, é porque desde cedo os seus criadores utilizam coração de boi para alimentar os alevinos, e os peixes são criaturas de hábito. Com algum esforço por parte do mantenedor, os acarás-disco podem ser treinados a aceitar um alimento seco mais limpo e nutricionalmente balanceado.

Estes alimentos vivos e congelados funcionam então? Sim, e desde que o homem começou a criar peixes, estes foram os primeiros a serem usados, mas muitas das rações hoje existentes começaram a ficar disponíveis a apenas trinta anos atrás. As rações comerciais evoluíram bastante nos anos recentes, e apesar do suplemento da dieta de um peixe com alimentos vivos ou congelados poder ser considerado uma variação quando se necessita realmente disso, o uso de uma ração seca comercial de alta qualidade vai de encontro ao que o peixe necessita para um ótimo crescimento, uma boa saúde, e a longevidade a cada dia. Enquanto que os alimentos vivos e congelados podem funcionar a curto prazo, a longo prazo só a ração seca consegue isto. A grande objeção que temos também a alimentar os peixes com alimentos vivos e congelados em conjunto com a ração seca é que, devido à diferença de palatabilidade entre os três tipos de comida, os peixes sempre vão preferir os alimentos vivos e congelados em detrimento da ração seca, mesmo que a longo prazo seja muito mais saudável que eles se alimentem apenas desta última. Isto pode ser comparado às preferências das crianças humanas, que preferem doces e bolos a uma refeição balanceada: é preciso desencorajar este tipo de tendência que depende mais da satisfação dos sentidos do que própriamente da necessidade de uma nutrição adequada.

Arraçoamento

O ato de alimentar os peixes parece ser fácil, mas na verdade é uma das coisas mais difíceis de ensinar. Em nossos 35 anos de atividades no negócio da piscicultura, raramente tivemos um empregado que soubesse alimentar adequadamente na quantidade os peixes em criação e/ou manutenção. É necessário ter a sensibilidade do quantitativo a ser fornecido, para não se alimentar demais ou de menos. Na maioria das vezes é uma arte, tanto quanto é uma ciência. A primeira regra de ouro é: na dúvida, sub-alimente. Se necessário, você poderá sempre retificar a situação mais tarde, aumentando a quantidade. Todavia, se você sobre-alimentar, poderá incorrer em problemas de qualidade do meio aquático dificilmente corrigíveis.

Enquanto que a grande maioria dos aquaristas costumam sobre-alimentar seus peixes, também existem aqueles que sub-alimentam, a tal ponto que seus peixes parecem continuamente anoréxicos. Muitos aquaristas de recifes marinhos se enquadram nesta última classificação, por causa da preocupação excessiva com os níveis de nitrato e fosfato na água. Se os peixes estiverem gordos, deve-se simplesmente segurar mais a ração e alimentar menos; se os peixes estiverem magros, alimente-os mais. O aquarista deve saber que é ele que está no controle, e não o peixe. Um peixe saudável sempre pedirá por comida, mas se este não mostra interesse no alimento, o aquarista tem um problema. Ou o peixe está doente, ou em condições de qualidade de água muito ruins.

Quando se arraçoa com grânulos, o tamanho adequado destes é muito importante. Peixes grandes conseguem ingerir grânulos pequenos, mas se os grânulos são muito grandes para a boca dos peixes, eles normalmente os “cospem” de volta, ou expelem uma grande porção do grânulo na coluna d’água enquanto mastigam aquilo que conseguiram abocanhar. A chave é usar um grânulo que o peixe consiga engolir inteiro. Se no aquário existe uma mistura de peixes de tamanhos diferentes, pode-se misturar grânulos de tamanhos diferentes também para assegurar que todos os peixes recebam sua cota de alimento.

Outro erro freqüente cometido por alguns hobbystas é o pré-amolecimento dos grânulos em água, na crença errônea de que isto ajuda na digestão e previne que os grânulos inchem dentro do tubo digestivo dos peixes. Este é outro dos mitos criados no mundo do aquarismo: as pessoas simplesmente não conhecem a quantidade de enzimas e ácidos gástricos secretados pelos peixes em seus tubos digestivos quando consomem alimento! Os duros grânulos rápidamente viram papa em pouco tempo. Se uma ração causa problemas gastro-intestinais num peixe, isso se deve aos ingredientes de baixas qualidade e digestão, como excesso de grãos e sub-produtos destes. Quando se pré-amolece grânulos de ração em água, perde-se os nutrientes e as vitaminas e minerais hidrossolúveis.

Outros nutrientes importantes

Nos anos recentes a vitamina C tem sido discutida extensivamente, enquanto outras de papel vital foram esquecidas. Vitaminas como a A, a D2, a D3, a E, a K, a B6, a B12, a Tiamina, a Riboflavina, o ácido Pantotênico, a Niacina, a Biotina, a Colina, o Mioinositol, e minerais como o Cálcio, o Fósforo, o Magnésio, o Sódio, o Potássio, o Cloro, o Ferro, o Cobre, Zinco, Manganês, Selênio e Iodo, todos estes são elementos essenciais numa ração bem balanceada. Infelizmente muitos aquaristas e mantenedores de peixes continuam desinformados sobre o papel de todos estes elementos na dieta de seus peixes. Usando o mineral Cobre como exemplo, muitas pessoas ainda não compreendem o papel deste elemento-traço necessário a todos os seres vivos, incluindo os peixes. É um componente de muitas enzimas e essencial para a atividade destas. Mesmo a água do mar contem Cobre (apesar de algum sob a forma de sulfato de cobre), e apesar disto muitos aquaristas ficam preocupados com a presença deste elemento na ração. Na água, um nível de 0,8 ppm de Cu (cobre) é tóxico para a maioria dos peixes, mas sulfato de cobre presente na ração pode ter a sua concentração tão alta quanto 700 a 1000 ppm, que o único efeito neste caso seria um retardamento no crescimento. Toxidez causada pelo elemento Cobre, via rações comerciais, quando apenas quantidades em traços são usadas, não representa nenhum problema para os peixes, mesmo em espécies sensíveis de peixes de recifes de coral.

Alho é um outro ingrediente-chave em rações de qualidade, e quando o nível adequado de inclusão é usado, pode ter um papel importante na manutenção da saúde dos peixes a longo prazo. Enquanto que este ingrediente pode ser utilizado para aumentar a palatabilidade geral da ração, o seu objetivo principal são as suas propriedades anti-parasíticas. Temos usado alho nas nossas rações há 15 anos, e apesar de não termos efetuado nenhum experimento controlado para quantificarmos os benefícios do seu uso, temos notado uma diminuição drástica dos surtos de doenças em nossos viveiros de piscicultura. Desde que começamos a adicionar alho em nossas rações granuladas, não tivemos mais um caso sequer da “Florida Deep Well Disease” (doença nos peixes causada pelas bactérias patogênicas dos gêneros Aeromonas e Pseudomonas sp.). Ao longo dos últimos anos tem havido inúmeros estudos envolvendo o uso de alho e da alicina, o princípio ativo do alho. Num desses estudos mais importantes, descobriu-se que a inclusão de alho na ração, na taxa de 3%, aumenta a digestibilidade geral da proteína, dos carboidratos e das gorduras, ao mesmo tempo que diminui a contagem de bactérias no intestino e nos músculos dos peixes, e no meio aquático onde estes são mantidos. Os peixes em cuja dieta se inclui o alho, aumentam também sua tolerância ao stress de manejo.

Quais são os constituintes de uma ração de qualidade superior?

Apesar de existirem ainda muitos assuntos a serem desenvolvidos no que se refere à nutrição animal aquática, especialmente em se tratando das centenas de espécies de peixes ornamentais, na nossa opinião a melhor aproximação é usar uma ração com ingredientes de alta qualidade que satisfaça os requerimentos nutricionais de todas as espécies. Os peixes de água doce podem parecer medíocres com uma dieta deficiente, mas a maioria consegue sobreviver. Os peixes marinhos, por outro lado, necessitam de uma dieta nutricional completa e bem balanceada: é uma questão de vida ou morte, principalmente em se tratando de algumas espécies sensíveis como é o caso dos peixes-cirurgiões, os peixes-anjo e os peixes-borboleta.

As seguintes diretrizes básicas podem ser utilizadas para a escolha de uma ração de qualidade superior:

  • Palatabilidade: os peixes são orientados por seus sentidos olfativos e de paladar. A verdade é que, se o peixe não for atraído para o alimento, não importa o quão superior e de qualidade este seja, não terá nenhuma utilidade.
  • Energia: o alimento como entrada de energia tem que superar o gasto de energia (para a locomoção, funções metabólicas, etc.), especialmente em se tratando de peixes marinhos. Mesmo que os peixes estejam comendo, se os seus requerimentos de energia não forem satisfeitos e se não houver alguma sobra, eles irão perdendo energia até cessarem de existir.
  • Proteína: tem que ter ingredientes facilmente digeríveis e que possam ser absorvidos tanto por peixes herbívoros, como omnívoros e carnívoros. Como constatado antes, os peixes não têm como obter uma fonte abundante de nutrientes nos microcosmos que são os aquários. Qualquer que seja a ração a ser fornecida, esta deverá possuir todos os quesitos nutricionais diários para que os peixes possam prosperar. Rações de qualidade superior geralmente produzem menos desperdícios e sobras, logo menos poluição no aquário.
  • Coloração: uma ração superior de alta qualidade deve ser capaz de fomentar todo o espectro natural de cores do peixe em manutenção, e não exagerar ou distorcer estas tonalidades, como o que acontece quando se usa quantidades excessivas de pigmentos naturais.
  • Lipídios: o conteúdo de gorduras na ração deve ser mantido abaixo de 10%, para evitar a doença degenerativa do fígado, exceto no caso dos estágios juvenis dos peixes, que requerem lipídios como fonte imediata de energia de maneira a “espalhar” o nível de proteína para construção da musculatura.
  • Longevidade: deve-se escolher uma ração que possa manter a saúde dos peixes a longo prazo, quer dizer, por anos, e não apenas meses. Temos conseguido manter peixes marinhos por cerca de dez anos, e estes não mostram sinais de envelhecimento! Quanto tempo podem viver os peixes se suas necessidades nutricionais são atendidas? Suspeitamos que em muitos casos este tempo possa atingir a cota dos vinte anos. E aqui não estamos nos referindo àquelas espécies fáceis de se manter em cativeiro, como os peixes-palhaço (Amphiprion sp.) ou as donzelas e os peixes-gatilho, mas sim às consideradas ultra-delicadas pela maioria dos aquaristas marinhos, como os peixes-cirurgiões, os peixes-anjos e os peixes-borboletas.
  • Poluição: uma ração de qualidade superior normalmente produz menos desperdício, menos sobras, e assim menos poluentes para o aquário. Em outras palavras, proteína não-digerida em excesso, fibra, minerais (cinza) serão expelidos através das brânquias e fezes fomentando os níveis de fosfato e compostos nitrogenados (amônia, nitrito e nitrato). Esta é a razão porque ingredientes como Kelp, Spirulina e grãos deverão ser mantidos em níveis de porcentagem razoáveis. Os peixes simplesmente não conseguem utilizar toda a fibra e minerais incluídos em demasia na ração. É preciso saber-se que aquilo que entra, tem que eventualmente sair.

Muitos poderão perguntar se uma tal ração, que preencha todos os critérios listados neste artigo, poderá existir?!

É com grande satisfação que nós, da New Life Spectrum, podemos dizer que sim. O conceito filosófico descrito e mais de 30 anos de experiência cumulativa em piscicultura comercial foram os alicerces para a formulação de uma tal ração. Para algumas pessoas isto poderá soar como auto-propaganda, mas se nós não afirmássemos e revelássemos tal fato, seríamos culpados de esconder o jogo com medo das críticas. Na nossa opinião, seria anti-ético não mencionarmos a nossa ração, da mesma maneira que seria anti-ético para alguém que descobrisse uma droga que curasse a malária e escondesse a descoberta para si, com receio de que as pessoas criticassem e desaprovassem a auto-promoção e o potencial ganho financeiro que essa descoberta pudesse proporcionar. Não consideramos dizer a verdade como auto-promoção, e a nossa filosofia de negócios sempre foi “marketing através da informação e da educação”. No final a verdade sempre prevalecerá, e as falsas premissas ficarão expostas. Até hoje, nenhum dos tão renomados “experts” em nutrição animal aquática foi capaz de provar que estávamos errados.

Os aquaristas e mantenedores de peixes que usam a ração da New Life Spectrum em conjunto com outros alimentos podem atribuir o bom estado geral de seus peixes à sua “dieta variada”. Mas isto está longe da verdade. Se retirarem o fornecimento da nossa ração, chances existem de que os peixes comecem a demonstrar deterioração das cores e da saúde dentro de 30 dias. Se eles quiserem que seus peixes mostrem o melhor de suas cores e saúde, experimentem alimentar apenas com a nossa ração da New Life Spectrum, exclusivamente. Nossa empresa é a única que dá este tipo de garantia: alimentem os seus peixes exclusivamente com a nossa ração por dez dias, e se não notarem melhoras nas suas cores e vitalidade, nós devolvemos o dinheiro. Escrevemos “notarem” porque na verdade são necessários pelo menos 30 dias para se confirmarem os resultados benéficos de se alimentar os peixes com a ração da New Life Spectrum. É por isto que nossa garantia só é válida com o uso exclusivo da nossa ração.

A eficácia da ração da New Life Spectrum está na simplicidade de um único alimento que fornece aos peixes uma dieta completa e balanceada. Alguns aquaristas são até capazes de manter peixes saudáveis com trocas freqüentes da água do aquário (adicionando com isto elementos-traço ao meio), adição de vitaminas e minerais, e fornecimento de várias fontes diferentes de alimentos que compõe uma dieta balanceada. Mas com a ração da New Life Spectrum qualquer pessoa pode conseguir o mesmo sem o trabalho de ter que arrumar todos aqueles ingredientes naturais, e manter peixes prosperando de uma maneira confiável e consistente. Resumindo, o aquarista pode utilizar metodologia complexa de alimentação e conseguir que os peixes prosperem, ou pode usar um método mais simples de fornecimento de uma única ração e ver os seus peixes prosperarem do mesmo jeito. A escolha é inteiramente sua.

Mas se o aquarista utiliza vitaminas em excesso, pode causar hipervitaminose nos seus peixes; se pouca quantidade é em vez disso utilizada, os peixes ficarão doentes. Quando aquele utiliza um “mix” de alimentos, de alguma maneira ele tenta ir de encontro à dieta balanceada que os peixes necessitam; mas sabe o aquarista exatamente a quantidade de cada elemento presente no sua mistura?! Na verdade, trata-se de trabalho de adivinhação, no melhor dos casos. No caso da nossa ração, experimentamos por cerca de dez anos até chegar à proporção ideal de cada ingrediente, de cada elemento. A natureza humana tende a resistir às mudanças, e é por isto que este novo conceito encontra resistência na grande maioria dos hobbystas, acostumados à velha idéia de fornecer uma alimentação variada aos seus peixes.

Nós sabemos exatamente o quê e quanto os peixes estão ingerindo com a nossa ração da New Life Spectrum. Nossos principais ingredientes são as fontes mais digeríveis de proteína, mas ingredientes de qualidade, como Krill ou arenque inteiro, custam dinheiro, e isto resulta num alimento um pouco mais caro para o aquarista ou menos lucro para nós, os fabricantes. Mas, no final das contas, os resultados alcançados com o fornecimento da nossa ração para os peixes compensam, e acabam se tornando uma economia de recursos, tempo, e dinheiro. Encorajamos assim os aquaristas a experimentar este novo-velho conceito, e a reverem os fatos e a pensarem por si mesmos.

Pablo Tepoot
New Life Spectrum Fish Food

Tradução:

José Carlos C. Motta
jmotta@shvgas.com.br
Biólogo por formação acadêmica, durante 15 anos da sua vida trabalhou no setor de aqüicultura, mais particularmente na criação de camarões de água doce, o gigante da Malásia. Estagiou na criação de peixes de corte, e depois de algum tempo se voltou para os peixes ornamentais, paixão que nutre até hoje, depois de já ter estado à frente de duas pisciculturas ornamentais.

Como escolher um peixe saudável?

Nota do editor: As dicas do autor se aplicam também aos Betta splendens, com as devidas adaptações, pois os exemplares machos desta espécie são expostos em aquários individuais (betteiras) nas lojas de aquarismo.

A hora de irmos às lojas de aquarismo comprar os peixes é, sem sombra de dúvidas, a mais excitante. Depois de meses planejando o aquário, comprando os equipamentos, montando-o perfeitamente e esperando ciclar é a vez de adquirirmos os protagonistas que tanto almejamos. Porém algumas vezes, seja por descuido ou distração, seja por negligência ou falta de conhecimento, acabamos por comprar peixes que estão contaminados com alguma enfermidade, logo o caos acontece: aquele peixinho que estava doente contamina todos os outros que estavam saudáveis e as mortes começam, algumas vezes dizimando toda a população do aquário. Isso acaba desmotivando e até afastando os mais entusiastas desse incrível hobby.

Mas é mais fácil do que se costuma imaginar evitar esses tipos terríveis de problemas, tomando medidas preventivas simples e fáceis. Qualquer um é capaz de tomá-las e caso se tornassem regras obrigatórias, o número de desastres no aquarismo seria reduzido no mínimo em 50%. Essas medidas aplicam-se tanto para aquários que já possuem peixes quanto para os ainda não populados.

A primeira trata-se de um conjunto de pequenas observações a serem feitas visualmente e a segunda da obtenção de um aquário quarentena. Essas duas medidas juntas formam uma barreira 98% segura, confiável e fácil.

Exposição de peixes ornamentais da Confederação de Criadores de Peixes Ornamentais do Brasil, no Memorial do Cerrado, em Goiás (2017). Imagem meramente ilustrativa.
Exposição de peixes ornamentais da Confederação de Criadores de Peixes Ornamentais do Brasil, no Memorial do Cerrado, em Goiás (2017). Imagem meramente ilustrativa.

Para facilitar ainda mais o entendimento, as medidas foram organizadas em vários pontos separados e bem claros:

  • Observe sempre muito bem os peixes nas baterias de aquários de exposição, fique atento e não deixe os detalhes para trás, ele fazem diferença no final;
  • Se você já sabe a espécie de peixe que deseja comprar, vá até o aquário e observe todos os peixes nele contidos, mesmo que não sejam a espécie pretendida, procure por peixes ativos, coloridos, com as nadadeiras abertas, escamas brilhantes, pele lisa, respiração e comportamento normal;
  • Não compre os peixes se eles estiverem com pontos brancos espalhados pelo corpo, manchas brancas, tufos brancos como algodão, feridas/machucados/tufos na boca ou no corpo, nadadeiras roídas, faltando escamas, pequenos vasos sanguíneos dilatados tanto pelo corpo como pelas nadadeiras, com ânus inchado;
  • Não compre o peixe se ele estiver se comportando de forma diferente do habitual, se estiver isolado do grupo e escondido, se estiver com a barriga para dentro (em forma de arco), se estiver com a respiração ofegante (o peixe está sempre na superfície), o peixe estar de barriga para cima ou com ela muito inchada, acima do normal;
  • Não compre o peixe logo que o lojista o trazer da distribuidora, espere uns 2 a 3 dias, pois o estresse da viagem pode disfarçar assim como pode criar algum sintoma que não existe;
  • Uma dica útil é antes de comprar os peixes pedir para o lojista alimentá-los, você consegue descobrir duas coisas importantes de uma só vez: se o peixe não se alimentar pode estar certo de que tem algum problema e se o peixe realmente está comendo a ração (é comum os lojistas indicarem um alimento diferente do habitual, logo quando chega em casa os peixes simplesmente não comem) pois algumas espécies só comem alimentos vivos, por exemplo;
  • Confira a presença de sistema de filtragem, seja individual por aquário ou um grande filtro para a bateria inteira. A exposição mesmo que temporária a amônia, nitrito e nitrato pode enfraquecer os peixes, deixando-os suscetíveis a doenças. Termostato com uma temperatura regulada e fixa também é muito importante;
  • Observe se os aquários são separados por vidros ou por apenas telas furadas, que permitem que a mesma água circule diretamente por todos os aquários. Isso é muito arriscado porque se um adoecer pode transmitir sua moléstia para todos os outros peixes, por estarem em contato com a mesma água;
  • Mesmo que o lojista recomendar, não aplique fungicidas, bactericidas ou parasiticidas na água dos seus peixes, nem como medida preventiva. Isso é muitíssimo perigoso pois pode intoxicar seus animais e também até matá-los;
  • Mantenha sempre que possível um aquário extra que sirva de quarentena, ele não precisa ser muito grande e deve conter sistema de filtragem com perlon e mídias biológicas. Não coloque carvão ativado ou purigem, pois podem absorver possíveis medicamentos. Sempre que comprar um peixe novo, deixe-o neste aquário por um período de 40 até 60 dias, pois existem muitas doenças que só se manifestam após muito tempo do peixe contaminado. E faça isso mesmo que seguido os passos anteriores.

Tenha sempre um aquário de quarentena: ainda é possível transformar esse aquário em hospital, caso algum peixe ainda assim fique doente; em maternidade, caso algum peixe venha a se reproduzir e em depósito de água emergencial caso precise fazer uma TPA urgente ou caso o aquário quebre, por exemplo.

Assimile essas dicas e passe a usá-las no seu dia-a-dia. Isso garantirá um aquário equilibrado e estável, com peixes saudáveis que viverão por muitos e muitos anos, dando a seus criadores inúmeras alegrias.

Um último recado: lembrem-se sempre, é muito melhor prevenir agora do que ter que remediar depois.

Mateus Camboim

Autorização de Publicação Aquaflux
Artigo publicado originalmente no website Aquaflux, em 12/05/2011 – Reprodução autorizada pelos mantenedores do website.

 

A importância das trocas parciais de água (TPA)

Artigo publicado originalmente no website CEA – Centro de Estudos de Aquariofilia, em 05/2011

O sucesso na manutenção de aquários depende de uma série de fatores, mas todos eles acabam apontando para a qualidade da água. Um aquário com mais peixes do que deveria ou com sistema de filtragem insuficiente, em pouco tempo levará sua água a um estado de poluição que poderá comprometer a saúde geral das espécies nele contidas.

Por mais eficiente que seja a filtragem de um aquário, lembre-se que se trata de um sistema fechado. É recomendável realizar trocas parciais de água (de agora em diante chamadas simplesmente de TPA) frequentes para garantir a eliminação de dejetos não processados e repor certos elementos consumidos pelo sistema.

O percentual de água a ser trocada e a frequência com que isto ocorrerá dependerá de uma série de fatores como quantidade de peixes e plantas, quantidade de filtros e mídias filtrantes e a variação de certos parâmetros de sua água, como pH, KH, amônia, nitritos, nitratos, fosfatos, etc. A aferição periódica destes parâmetros é um forte indício da necessidade da TPA.

Quanta água deve ser trocada?

Não existe resposta definitiva para esta pergunta, pois a carga de dejetos pode variar muito de aquário para aquário. Alguns aquaristas experientes recomendam trocas mensais de 40% ou quinzenais de 30%. Há os que preferem trocar 20% semanalmente e há até alguns criadores que chegam a trocar 50% diariamente, mas conforme disse antes, cada aquário tem sua história e o dia a dia, aliado ao resultado dos testes é que lhe darão a resposta para o seu caso.

Um outro indício da necessidade das TPAs é a perda de vazão dos filtros. Inspecione periodicamente seus filtros, pois a perda de vazão, provocada por entupimento da filtragem mecânica, diminui a quantidade de água tratada.

É verdade que aquários plantados necessitam menos de TPAs?

Se por um lado plantas são excelentes filtros para a remoção de diversos poluentes da água, aquários plantados também possuem uma carga de nutrientes grande e isto pode, eventualmente, favorecer a proliferação de algas. As TPAs são um aliado contra elas.

Como proceder a TPA?

Dependendo do volume de água a ser trocado, pode ser interessante desligar os filtros para evitar que funcionem sem água e também os termostatos que não devem funcionar parcialmente fora d’água.

 

Sifão em ação.
Sifão em ação.

Normalmente começamos com uma sifonagem do substrato para remover pequenas partículas sólidas que se depositaram nele. Em aquários plantados a camada inerte evita que boa parte dessas partículas penetrem nas camadas inferiores, de modo que uma aspiração superficial costuma ser suficiente. Não se esqueça de lavar bem as mãos antes de começar o processo, pois podemos levar muitas sujeiras indesejadas para nossos aquários.

Em aquários com substratos comuns (sem isolamento) a sujeira particulada penetra no substrato e deve ser sugada. Costuma-se usar um sifão contendo uma espécie de copo na extremidade que permite penetrar no cascalho para uma remoção eficiente da sujeira.

A água removida durante a sifonagem poderá ser coletada em baldes ou outros recipientes e descartada após sua remoção do aquário. Por ser uma água rica em nutrientes, ela pode ser usada para regar plantas, pois certamente é mais nutritiva para elas do que a água da torneira. Aproveite a ocasião para remover o limo que geralmente se forma nos vidros. Existem limpadores magnéticos idealizados exclusivamente para tal propósito, mas uma esponja macia, uma gilete ou até mesmo um cartão velho de banco também poderá ser utilizado.

Como devo limpar meus filtros?

A limpeza dos filtros deve ser feita sempre que se fizer necessária. Conforme descrito anteriormente, sempre que houver entupimento da midia responsável pela filtragem mecânica, esta deverá ser limpa ou substituída. O tempo para isto acontecer varia de aquário para aquário, podendo levar de 7 a 30 dias, dependendo da carga de dejetos produzida. Caso seja usuário de carvão ativo para a filtragem química, lembre-se de sempre anotar quando foi que o substituiu pela última vez. Cada fabricante recomenda sua substituição em tempos diferentes, mas como não é uma mídia muito cara, costumo recomendar sua troca a cada 20 ou no máximo 30 dias.

Com relação às mídias de fixação para a filtragem biológica estas podem ser gentilmente lavadas, quando necessário, em água do próprio aquário apenas para remover depósitos de material particulado. Normalmente, uma limpeza superficial nessas mídias a cada trimestre costuma ser suficiente. É importante que o processo de limpeza dos filtros não dure muitas horas e também que as mídias de sustentação da biologia não fiquem secas. Elas devem aguardar submersas em água do próprio aquário enquanto durar a lavagem interna do filtro.

Cascalho sifonado, vidros sem limo e filtros lavados. Como repor a água?

Embora essa pareça ser a tarefa mais fácil de todas as demais, ela requer alguns cuidados importantes. Muitos aquaristas já perderam peixes após uma reposição de água mal feita.

Primeiramente, a água de reposição deverá estar isenta de cloro. Este pode ser removido de diversas formas, desde aguardar 24 a 48 horas para que seja expulso da água, fazer uso de um anti-cloro ou mesmo um condicionador de água.

Se esta água vier de um poço não será necessário usar o anti-cloro. Todavia, água de poço costuma vir com grande quantidade de CO2 e, se adicionada diretamente ao aquário poderá apresentar variações de pH em um ou dois dias pois o CO2 acidifica a água mas tende a ser expulso com o passar do tempo.

A temperatura desta água deverá ser a mesma da água do aquário. Certifique-se de medir ambas as temperaturas antes da reposição. Caso haja discrepância nos valores, faça os devidos ajustes, aquecendo ou resfriando a água que será reposta.

O pH desta nova água também deve ser igual ou muito próximo do pH da água do aquário. O ajuste poderá ser feito de diversas maneiras. A forma mais rápida (mas nem sempre a mais correta) é simplesmente usar algumas gotas de um acidificante ou um alcalinizante comprado em lojas de aquarismo.

Lembre-se, entretanto que dependendo da reserva alcalina ou do teor de CO2 desta água o efeito desta correção poderá ser provisório. Em alguns casos é interessante usar uma solução tampão para garantir a estabilidade do pH. Existem tampões para “segurar” o pH em diversos valores dependendo das substâncias envolvidas. Essencialmente, uma solução tampão é obtida quando se misturam um ácido fraco e um sal desse ácido (reserva ácida) ou uma base fraca e um sal dessa base (reserva alcalina).

Veja um exemplo de tampão ácido (reserva ácida), mistura de ácido acético (um ácido fraco) e acetato de sódio (um sal do ácido acético):

CH3-COOH <—> CH3-COO + H+ Ionização do ácido acético.

CH3-COONa <—> CH3-COO + Na+ Dissolução do acetato de sódio.

Repare que em ambas as reações existem um íon em comum: o ânion acetato (CH3-COO). Devido a um efeito conhecido como [efeito de íon comum], os acetatos gerados na dissolução do acetato de sódio fazem tal concentração aumentar e, por conta disto, o equilíbrio da primeira equação se desloca para a esquerda (Princípio de Le Chatelier), impedindo que o ácido acético se ionize.

Entretanto, se adicionarmos uma base qualquer nessa água, existirá ácido acético suficiente para neutralizar tal base impedindo o pH de subir. É o ânion acetato, proveniente do acetato de sódio que garante a existência do ácido acético como garantia para manter o pH estável. No exemplo acima, temos um tampão ácido.

Analogamente, podemos ter um tampão envolvendo uma base fraca e seu sal que garantiria a manutenção de um pH alcalino. As lojas de aquarismo também vendem soluções tampão prontas para uso, para diversas faixas de pH.

Uma alternativa mais barata pode ser fazer sua própria solução tampão.

  • Receita de tampão alcalino:

    • Dissolva a maior quantidade possível de bicarbonato de sódio (comprado em farmácias) em água e guarde esta solução saturada para ser usada em cada TPA. Uma ou duas colheres de sopa desta solução poderá ser usada na água de TPA para garantir um pH estável, de 7,0 para cima. Quanto mais bicarbonato for colocado, mais alcalina a água ficará. O dia a dia lhe dirá a quantidade ideal a ser usada.

    • Dentro de seu filtro, coloque um pouco de Aragonita, Calcita ou Dolomita dentro de um pequeno sachê. Essas pedras, à base de CaCO3, formarão o tampão com o bicarbonato de sódio, garantindo a estabilidade do pH.

  • Receita de tampão ácido: 

    • Compre na farmácia ou em loja de produtos químicos o fosfato monoácido e o fosfato diácido de sódio e misture-os nas quantidades desejadas para atingir o pH da tabela abaixo:

      Na2HP4NaH2O4pH
      10%90%5,9
      20%80%6,2
      30%70%6,5
      40%60%6,6
      50%50%6,8
      60%40%7,0
      70%30%7,2
      80%20%7,4
      90%10%7,6

    • Feita a mistura das substâncias, coloque 1g da mistura para cada 50 litros de água em seu aquário para manter o pH estável naquele valor da tabela.

      Exemplo: digamos que deseje manter o pH de seu aquário estável em 6,6. Nesse caso então misture 40% em peso de fosfato monoácido com 60% de fosfato diácido de sódio – algo como 40g do primeiro com 60g do segundo. Guarde os 100g obtidos para usar nas TPAs.

Temperatura e pH ajustados. Posso despejar a água agora?

Pode

Bomba submersa dentro do balde, conectada a uma mangueira, leva água para o aquário.
Bomba submersa dentro do balde, conectada a uma
mangueira, leva água para o aquário.

, mas faça isso lentamente. Não despeje os baldes de água de uma vez em seu aquário! Isso pode não só estressar seus peixes como também provocar um choque osmótico, já que a quantidade de sais dissolvidos na água de aquário e na água do balde não são as mesmas, nem em qualidade, nem em quantidade.

Aqui em casa, costumo colocar uma bomba submersa dentro de um balde conectada a uma mangueira e esta leva a água para o aquário. O processo leva alguns minutos para esvaziar o balde:

Uma vez cheio, o processo de manutenção do aquário poderá ser dado como encerrado, mas não se esqueça de aferir os parâmetros físico-químicos da água periodicamente, para ter certeza de uma água sempre apropriada para seus peixes.

 

Marcos Mataratzis
Químico, Professor de Química e Aquarista (especialista na manutenção de Botias). Administrador do fórum Vitória Reef e Consultor do CEA – Centro de Estudos de Aquariofilia, para assuntos relacionados à química da água do aquário.

Íctio: A doença do inverno

Artigo publicado originalmente na revista Negócios Pet, Ano VII, edição 79 – Julho/2011, pp. 14-18.

Ichthyophthririus multifillis é o agente causador da Ictiofitríase, popularmente conhecida como Íctio, nos aquários de água doce. O peixe afetado fica coberto de pontos brancos pequenos. É comum nas baterias de todas as lojas, sendo um pouco chato de tratar, mas fácil de prevenir.

Ele entra em nossas baterias através de qualquer animal novo introduzido no aquário com sinais da doença ou não, por alimentos vivos como artêmia salina e outros, vindo na água do fornecedor ou do importador. Também migra de um aquário para outro e de uma bateria para outra quando se utiliza a mesma rede para pegar peixes, o mesmo sifão, etc. Pode vir em folhagens de plantas e até mesmo em caramujos grudados a elas.

A doença manifesta-se, geralmente, quando há variação de temperatura no aquário ou durante o transporte do fornecedor para sua loja, pois na viagem há mudança brusca de temperatura ou a climatização não é feita como se deveria, podendo ocorrer choque térmico, mesmo que leve.

A dica é começar o tratamento assim que for constatado que um animal ou mais do aquário está com Íctio. Quanto mais rápido o início, maiores são as chances de não haver nenhuma perda.

O ideal é tratar os peixes afetados em aquário hospital ou nos dias de menor movimento da loja, pois esse tratamento é realizado no escuro.

Se optar por fazê-lo na bateria, retire o carvão ativado, as cerâmicas e/ou o bio ball para que o medicamento mate somente a biologia presente no cascalho, se houver. A cerâmica e/ou o bio ball devem ser colocados em aquário com compressor de ar para preservar as bactérias aeróbias.


O tratamento

  • Se utilizar um aquário hospital, colocar água da bateria, até mesmo quando fizer trocas parciais;
  • Manter a temperatura alta, de 29 ºC para peixes não topicais e 31 ºC para peixes tropicais. Se não houver divisão, opte por 29 ºC;
  • Apagar as luzes, tampar o aquário hospital ou a bateria com lona escura, cobertor, etc. O Íctio não se prolifera no escuro;
  • Reforçar a alimentação, abrindo o aquário para alimentar duas a três vezes ao dia. De manhã, com ração, como de costume e nas outras vezes com alimentos vivos, ração à base de Spirulina e alga Nori da culinária japonesa. Uma ótima dica é usar um suplemento para aquários à base de alho Garlic;
  • Aumentar a aeração com um compressor de ar potente com várias pedras porosas. No mínimo um pedra porosa por andar;
  • Usar um medicamento simples contra Íctio;
  • Se usar aquário hospital, faça trocas parciais de água todos os dias com sifonagem do fundo de 10% a 30% da capacidade dele.

Em três dias o Íctio sumirá e em seis dias poderá colocar os peixes à venda novamente.


Prevenindo o Íctio de água doce

Deve-se investir na alimentação com rações de qualidade, utilizando também as rações à base de Spirulina, duas a três vezes na semana, pricipalmente para herbívaros, e incrementando a alimentação semanalmente com alimentos vivos ou congelados.

O uso semanal de suplementos de Garlic ajuda na prevenção de Íctio. O uso diário previne, também, vermes intestinais. Um peixe bem alimentado terá uma boa imunidade, será mais colorido, aspecto saudável e mais fácil de vender.

Estabilize a temperatura com termostato para não haver variações na bateria. Se puder, coloque um filtro esterillizador UV, que não vai ajudar com Íctio impregnado em um peixe, mas os parasitas que lançarem na água e forem puxados pelo UV não terão chances de pegar outra vítima.

Cuidado com redes de içar peixes e sifões que utilizar na loja, ou mesmo com a mão molhada dos funcionários de um aquário para outro, a fim de evitar contaminação. O ideal é que tenha um balde de descanso para redes e sifões com solução de formol ou azul dimetileno, trocando esta água todas as semanas.


O Íctio em aquários marinhos

Cryptocaryon irritans é o agente causador de Íctio marinho e é semelhante, em muitos aspectos, com o íctio de água doce, tendo a mesma forma de infestação. Pode entrar em seu aquário por meio de rochas vivas também.

A variação de temperatura é um dos fatores desencadeantes da proliferação do Íctio marinho em um animal, quer seja pela sua variação dentro do aquário, no transporte até sua loja ou na aclimatação inadequada. Pode ocorrer choque térmico, mesmo que leve.

Como em aquários marinhos geralmente há vários corais e invertebrados e, no caso de aquários grandes, seria quase impossível não ter que desmontá-los para pegar o peixe doente, o tratamento se baseará na forma mais natural possível.


Tratamento no aquário de exposição

  • Aumentar ligeiramente a temperatura de forma que não afete corais e invertebrados. Temperatura constante sem nenhum tipo de variação é muito importante. Nas baterias que tenham somente peixes, manter entre 28 ºC e 29 ºC.
  • Reforçar a alimentação. Neste quesito, a alga Nori da culinária japonesa, facilmente encontrada em supermercados na seção de produtos orientais, é uma “ressuscitadora” de peixes marinhos. Esta alga milagrosa, se for introduzida na alimentação de forma mais persistente aos primeiros sinais de Íctio, recupera a saúde do peixe rapidamente. Junto com a Nori, ração de boa qualidade, à base de Spirulina, alimentos vivos, suplementos vitamínicos e suplementos à base de alho Garlic são necessários.
  • O peixe neon goby, faixa amarela, nativo da costa brasileira, tem costume de retirar parasitas como o Íctio marinho de peixes infestados. Pena que esteja ameaçado de extinção e proibida sua comercialização no Brasil.
  • O método que surte melhor efeito em nossas pesquisas é tratar de forma natural peixes que se alimentam normalmente. O fato de se alimentarem fará com que sua imunidade aumente e o próprio organismo se livre do Íctio. Se o peixe infestado não se alimenta é necessário tomar medidas drásticas para não o perder em alguns dias.


Tratamento em aquário hospital

Tivemos sucesso de 90% de recuperação de peixes marinhos com Íctio que pararam de se alimentar, tratando-os em aquário hospital como se fosse Íctio em água doce, assim que notamos, pela primeira vez, que os animais não se interessavam pelo alimento.

Alguns lojistas dão banhos de água doce com água de Reverse Osmose e outros tratam a bateria com medicamentos à base de cobre. Não recomendamos porque o índice de cura de Íctio com ou banhos de água doce é muito baixo, pois estressa o animal debilitado ao máximo e a tendência é que, depois disso, ele pare totalmente de se alimentar.

As dicas para o tratamento em aquário hospital são:

  • Colocar água do aquário principal no aquário hospital, até mesmo quando for fazer trocas parciais;
  • Manter a temperatura alta em aquário hospital, cerca de 29 ºC;
  • Tampar o aquário hospital com lona escura, cobertor, etc. O Íctio de água doce não se prolifera no escuro, então, tentarmos da mesma forma com o ciliado marinho. O interessante é que o animal marinho fica mais calmo e parece dar resultados positivos;
  • Reforçar a alimentação, abrindo o aquário para alimentar duas a três vezes ao dia. De manhã, com ração, como de costume e nas outras vezes com alimentos vivos, ração à base de Spirulina e alga Nori da culinária japonesa. Uma ótima dica é usar um suplemento para aquários à base de alho Garlic, que deve ser usado molhando a ração antes de servir ou deixando artêmias salinas na solução de alho concentrado antes de servi-las;
  • Aeração forte e constante;
  • Faça trocas parciais de água todos os dias com sifonagem do fundo de 10% a 30% da capacidade do aquário hospital.

Em três dias o Íctio sumirá e em seis dias o peixe poderá entrar no aquário de exposição ou bateria sem nenhum problema.


Para prevenir o Íctio marinho

Deve-se investir na alimentação com rações de qualidade, utilizando também as rações à base de Spirulina de duas a três vezes na semana, alga Nori, acelga crua e incrementar, semanalmente, com alimentos vivos ou congelados. Use os suplementos de Garlic e suplementos vitamínicos semanalmente para ajudar na prevenção de doenças. Um peixe bem alimentado terá um boa imunidade.

Estabilize a temperatura para não haver variações. O melhor é investir em um bom termostato e, pelo menos um vez na semana, verificar o termômetro para confirmar se ele está trabalhando a contento.

Se puder, coloque um filtro esterilizador UV ou o ozonizador, que não ajudarão com o Íctio impregnado em um peixe, mas os parasitas que se lançarem na água e forem puxados pelo UV ou atingidos pelas partículas de 03 não terão chances de pegar outra vítima.

Optar por uma bateria de peixes nacionais e outra de peixes importados é uma alternativa eficaz no controle de perda de animais importados. Um espaço no fundo da loja para hospital e quarentenário seria perfeito também.

Em todos os casos de doenças, um dos fatores que mais contam para o sucesso da recuperação do animal é o tempo entre perceber o problema e agir.

Esperamos tê-lo ajudado com um pouco de nossa experiência sobre o que funcionou efetivamente em nossos aquários, baterias e quarentenários.

Roberto Eduardo Sentanin
Diretor e fundador da empresa RSDiscus Aquários (loja física e virtual, varejista) e ex-criador profissional dos peixes Acará-bandeira e Acará-disco, de 1990 a 2010.

(DBN) Desordem da Bexiga Natatória

Pesquisando sobre a Desordem de Bexiga Natatória (DBN) ou, em inglês, Swim Bladder Disorder (SBD) – que é uma anormalidade indesejável nos Betta splendens, geralmente descartada pelos criadores, encontrei algumas informações interessantes sobre o tema, pulverizadas em vários textos publicados em grupos de discussões e fóruns, espalhados na web. Resolvi condensar estas informações num único texto, traduzindo e adaptando traduções de outrem, enxertando comentários e observações de alguns criadores de Betta splendens, para produzir um material que sirva de base, de apoio para estudos e experimentações de colegas criadores.

Diagnóstico:

Um dia seu Betta splendens está muito bem – nadando feliz e construindo seu ninho de bolhas. No dia seguinte, está nadando torto, não está ativo e talvez com um pequeno embotamento na cor ou inchado.

Betta splendens com distúrbio da bexiga natatória apresentando nado irregular. Foto de origem desconhecida, meramente ilustrativa.
Betta splendens com distúrbio da bexiga natatória apresentando nado irregular. Foto de origem desconhecida, meramente ilustrativa..

Isto sugere que exista problema na bexiga natatória do animal, que está situada na espinha do peixe, entre sua barriga e sua cauda. Se a bexiga ficar grande, inchada ou apertada, pode fazer com que seu peixe nade com dificuldade.

Geralmente com a bexiga natatória apresentando problema, o peixe nadará de lado ou ficará no fundo. Parece que o Betta splendens perde sua capacidade de flutuar. Os jovens filhotes ficam “deslizando” pelo fundo do aquário, em suas barrigas, como se não pudessem nadar de outra maneira. Os mais velhos flutuam lateralmente, como se “quisessem furar” a superfície. Outros adultos flutuam com a cauda para baixo, verticalmente.

Possíveis Causas:

  1. Uma teoria é que, pelo menos, um tipo de DBN seja genética, passada de geração para geração. Isto faz sentido, se peixes com DBN estão sendo vendidos ou dados como presentes a outros criadores, que, por sua vez, os reproduzem sendo dito que não é genético. Isto espalha o gene DBN. Isto, naturalmente, se existir tal gene.
  2. Outra teoria é que um tipo de DBN pode ser causado pela alimentação em excesso com náuplios/adultos de artemias franciscanas (salinas). Pois as bolhas de ar escondidas nos náuplios/adultos de artemias franciscanas (salinas), bolhas estas que ficam presas nestes organismos em decorrência da aeração forçada em sua criação, bolhas que fazem com que a bexiga natatória se desenvolva incorretamente. Uma bexiga natatória pequena ou mal desenvolvida não retornará ao normal.
  3. Câncer ou tuberculose em um órgão perto da bexiga natatória. Isto talvez seja curável, porque a origem do problema está em outro órgão.
  4. Rápida variação nas temperaturas pode provocar a DBN.
  5. Rápido aumento da coluna d´água nos aquários com as larvas da espécie.
  6. Infestações bacterianas ou de parasitas podem ser, também uma causa.
  7. Comum em Betta splendens de cauda dupla (DT), o corpo curto, produzirá uma bexiga natatória mal formada ou curta, fazendo com que estes flutuem verticalmente.
  8. Gripe é um problema mais comum do que parece.
  9. Mudança súbita na dieta é também uma causa comum, nos adultos.
  10. Por fim, existe outra teoria, que sugere que a DBN seja um efeito, o reflexo de outros problemas existentes no organismo do animal.

Prevenção:

Alguns criadores de Betta splendens não alimentam seus peixes por um dia, ou por uma semana, para limpar o trato digestivo dos animais. Este é um método muito usado para impedir a DBN e/ou a constipação intestinal.

Outra opção de alimentação para impedir a DBN é aumentar o número de vezes que se oferece alimentos aos Betta splendens, para duas ou mais vezes ao dia, sempre em pequenas quantidades, ao invés de oferecer apenas uma refeição diária, com grande quantidade de comida. Isto reduz a quantidade de entrada de alimento de uma só vez, e permite que o sistema digestivo do animal, processe a comida mais facilmente. Observe que o estômago do Betta splendens tem, aproximadamente, o tamanho do aro do olho dele, portanto pouco alimento já será suficiente.

A variedade na dieta dos Betta splendens é importante para prevenir doenças e assegurar que os peixes estejam recebendo os nutrientes necessários para permanecerem saudáveis.

Tratamento:

Tente manter a dieta dos seus peixes balanceada e não os alimente em demasia. A bexiga natatória corrigir-se-á logo e seu mascote começará a nadar normalmente outra vez.

Similar à prisão de ventre, você pode também tentar não alimentar seus peixes por 24/48 horas. Em seguida, pegue uma ervilha cozida e a descasque. Alimente o(s) animal(ais) com uma parcela pequena dela na extremidade de um palito de dente. Tenha a certeza de que seus Betta splendens estejam evacuando bem, porque isto significar que a DBN e/ou a prisão de ventre estão sob controle.

Procedimentos adicionais:

A água limpa é sempre importante para um Betta splendens, mas é especialmente benéfica para todo peixe que enfrenta uma doença. Sempre mantenha seu Betta splendens entre 24/30 °C, para ajudá-lo a se sentir mais confortável e levantar seu sistema imunológico. Recomendo veementemente que você leia outro artigo de nossa lavra, publicado neste site, onde indicamos os primeiros socorros para Betta splendens.

Recomendações:

Se a DBN não estiver ameaçando, nem degradando a qualidade de vida do animal, deve-se deixá-lo viver. Se você optar por descartá-lo, faça o descarte de forma rápida e sem sofrimento para o animal (Leia: Descarte técnico de peixes ornamentais).

Fontes:

  • Betta Splendens Brasil (Grupo de Discussões)
  • Fish Junkies
  • Pet Fish
  • Pet QnA

Descarte técnico de Betta splendens

Na criação de Betta splendens, em função do tamanho das ninhadas, estrutura da estufa (espaço), disponibilidade de tempo para cuidar dos animais, possibilidade de investimento financeiro no manejo dos peixes (equipamento, ração, alimentos vivos, saúde animal, etc), o descarte técnico é uma fonte de preocupação constante para criadores hobbystas.

Em média, cada ninhada da espécie gera de 300 a 400 larvas e dependendo do manejo do criador, a grande maioria delas, é capaz de chegar até a idade adulta. Para quem desenvolve trabalho genético, dificilmente aproveita-se mais que 10 indivíduos desta ninhada, entre machos e fêmeas, que possuam determinadas características específicas, buscadas e desejadas pelo criador, para dar continuidade ao trabalho genético, salvo raras exceções. Servir de matriz, para novos acasalamentos.

O restante é considerado descarte técnico, pelo desenvolvedor da linhagem. A grande maioria dos peixes considerados descartáveis, é composta de peixes lindos, fisicamente perfeitos, saudáveis e de grande potencial genético. Apenas não estão entre o seleto grupo de peixes que se destacaram na ninhada, para determinadas características.

Então, que fim dar a estes peixes? Como viabilizar a pesquisa e trabalho genético e ao mesmo tempo dar fim adequado, nobre e responsável para o que resta da ninhada?

Eis algumas sugestões factíveis:

  • O caminho natural e imediato, que a maioria de nós já empregou, foi a distribuição destes peixes para parentes e amigos, para pessoas que se simpatizam com a criação de peixes, em especial por Betta splendens, e desejam ter um mascote em casa, ou no local de trabalho. É óbvio que este universo de pessoas é limitado e também que estas pessoas estão dispostas a absorver apenas um pequeno grupo destes peixes. Você precisa respeitar e entender suas limitações.
  • Saiba que clínicas médicas/hospitais podem ser um bom caminho para dar fim nobre aos peixes. Procure terapeutas ocupacionais de sua cidade, peça orientações de como e onde fazer estas doações. Pessoas emocionalmente carentes, fisicamente debilitadas, se renovam, se estimulam muito com a companhia de mascotes. Você resolve seu problema e faz muita gente feliz.
  • Escolas também podem ser um bom canal de distribuição dos peixes, principalmente se houver interação com a direção e professores, de forma a transformar o recebimento dos peixes, em tema educacional (ciências, matemática, geografia, história, português, etc). As possibilidades de se trabalhar em torno deste tema, são praticamente infinitas.
  • Existe o caminho da venda, para lojistas e diretamente aos consumidores finais (feiras, shows, internet, etc). Para tal é preciso se adaptar à legislação vigente, ser capaz de emitir nota fiscal de venda (constituir uma pessoa jurídica – vide possibilidade de se tornar um empreendedor individual), obter laudo de sanidade animal com um médico veterinário local e guia de transporte animal (GTA).

De forma drástica, e em último caso, no meu entender, sacrifique os animais:

  • Colocando-os na cadeia alimentar de carnívoros maiores confinados em aquários [O Oscar, também chamado de Apaiari (Astronotus ocellattus), por exemplo];
  • Colocando-os em recipientes com água e levando-os ao congelador. O frio fará com que a temperatura corporal dos animais caia, fazendo com que eles fiquem anestesiados, e acabem morrendo da forma menos traumática para eles;
  • Se preferir, pode pedir que um médico veterinário faça isto por você, usando métodos que estejam de acordo com a resolução número 714, de 20 de junho de 2002, do Conselho Federal de Medicina Veterinária.

Você NÃO deve soltar seus peixes diretamente em ambientes naturais ou artificiais (rios, córregos, lagoas, represas, açudes, canais, etc).

Soltura de espécies exóticas na natureza é crime e pode provocar desequilíbrio populacional ou até mesmo extinção completa das espécies nativas naquele habitat. Imagem meramente ilustrativa.
Soltura de espécies exóticas na natureza é crime e pode provocar desequilíbrio populacional ou até mesmo extinção completa das espécies nativas naquele habitat. Imagem meramente ilustrativa.

NUNCA libere seus peixes vivos pela descarga sanitária de casa. Agindo assim, você estará cometendo um crime ambiental, previsto na lei brasileira (Lei 9605 de 1998). Lembre-se, você cria uma espécie exótica (Betta splendens) e não deve introduzí-la na natureza, desestabilizando as espécies nativas, de forma irresponsável.

Fontes:

  • CORTIZO, Bernardo. Descarte de peixes ornamentais interfere no meio ambiente. Universidade Federal de Pernambuco.
  • MAGALHÃES, André Lincoln Barroso de. Introdução de espécies exóticas por aquariofilia. Centro Universitário UNA, Programa de Pós-Graduação em Ecologia, Conservação e Manejo de Vida Silvestre/UFMG.
  • MAGALHÃES, André Lincoln Barroso e BARBOS, Newton Pimentel de Ulhôa. Peixes de aquário: animais de estimação ou pestes? Ecosíndico

Como lidar com mudanças de pH no aquário

Artigo publicado originalmente no blog Aquarismo Ornamental, em 21/11/2011 – Reprodução autorizada.

Este é um assunto recorrente entre criadores e hobbystas de peixes ornamentais. Mas até onde este parâmetro é necessário ser levado tão a sério? É realmente necessário um controle preciso quanto ao pH da água de um determinado aquário?

Escala de pH.
Escala de pH.

Peixes em geral, no seu habitat natural, vivem em um amplo espectro de níveis de pH sem problema algum. Em lojas de aquarismo, também não é muito diferente, pois existem muitas espécies de peixes bem como um número elevado de aquários e nem todos procuram se preocupar muito com mais este “detalhe”.

Mas e em nossas casas? Procuramos seguir a risca o que a vasta literatura nos ensina. Aclimatamos nossos peixes a um mundo perfeito, com temperaturas quase constantes, água cristalina e não somente o pH como também outros parâmetros são verificados quase que como um técnico de laboratório o faria.  Isso só os torna menos resistentes a oscilações.

Utilizar recursos de adição de agentes químicos para deixar a água mais ácida ou mais alcalina não é uma boa prática. Vamos supor que ocorra uma mudança muito drástica no valor deste parâmetro. Estas mudanças drásticas são altamente prejudiciais para a saúde dos peixes.

No entanto, existem algumas coisas que você pode fazer para ajustar os níveis de pH de forma lenta e gradual. Para diminuir os níveis de pH, adicione um pedaço de madeira (troncos, galhos, etc) ou outros materiais (folhas de amendoeira, xaxim, turfa, etc) como decoração do aquário. Para aumentar os níveis, em vez disso, adicione algum alcalinizante natural (dolomita, aragonita, conchas, halimeda, etc). Fazer isso não vai alterar drasticamente o nível de pH da água e vai dar o seu tempo de vida aquática ajustar-se.

Mudanças repentinas nos níveis de pH podem, por vezes, ocorrer em aquários. Estas mudanças repentinas são prejudiciais para os peixes e precisam de solução urgente. Você deve se focalizar em identificar e eliminar a causa. Jamais deverá lutar contra os efeitos destas mudanças bruscas e repentinas. A primeira coisa a ser feita é verificar a fonte da água, embora nem sempre seja ela a causa, mas é bom ter certeza.

A segunda coisa que você deve se preocupar é se houve acréscimo de algo novo dentro do aquário. A nova decoração, cascalho, novas mídias no filtro, qualquer outra coisa. Geralmente é a introdução de algo novo que acaba causando a mudança rápida do pH. Retire os itens que você acha que está causando a mudança, efetue uma troca de 50% da água, em seguida, monitore por alguns dias. Isto na maioria dos casos deve resolver o problema.

É sempre prudente evitar estas alterações bruscas de pH. Afinal, a prevenção sempre é melhor do que remediar!

Minimize o número de produtos químicos que você despeja na água do aquário.

Não fique mudando a decoração do aquário. Após a adição de algo novo na água do aquário, haverá a necessidade de um tempo para as novas adaptações e mudanças freqüentes só servirão para perturbar o equilíbrio já estabelecido.

Não se esqueça da manutenção periódica que devem ser realizadas. Trocas parciais de água é uma solução perfeita para manter os níveis de pH e o equilíbrio do ambiente em seu aquário.

John Klaus Kanenberg
Analista de sistemas, aquarista hobbysta desde 2010. Interessado em aquariofilia dulcícola. Mantenedor do Blog Aquarismo Ornamental e owner do Grupo Aquarismo Ornamental.