Manejo sanitário de peixes ornamentais

Provavelmente provocarei alguma polêmica ao afirmar que o método até hoje utilizado pela grande maioria dos aquaristas/criadores brasileiros, ou seja, a de adaptar o peixe para a água do aquário, não é um método correto. Talvez você esteja no grupo que faça desta forma, no meu entender errada. Vou tentar abaixo provar isso para você. Se escrevi alguma besteira, por favor me corrija.

O saco onde o peixe foi transportado pode ser considerado um ambiente quase que fechado. Mesmo se o peixe não foi alimentado um dia antes do embarque, o processo metabólico do peixe produz amônia como um subproduto, secretado através das guelras e da urina.

Na prática, se nós medirmos o pH da água do saco onde os peixes foram transportados não funciona bem porque os ácidos secretados pelo peixe vão causar a diminuição do pH, e a amônia é menos tóxica com pH menor. Como o peixe respira no saco, o dióxido de carbono é liberado na água e um pouco dele é difundido no ar preso na parte superior do saco.

O dióxido de carbono na água ajuda a formar ácido carbônico. Quanto mais tempo o peixe ficar no saco, mais dióxido de carbono é produzido, deslocando o oxigênio e causando um leve esvaziamento do saco. O peixe então se torna levemente asfixiado.

O peixe se torna sonolento, diminuindo sua consciência. O peixe fica sob estresse e o seu manuseio o debilita causando danos ao seu muco. Qualquer agente patogênico que estivesse presente no aquário original teria facilidade em infectar o peixe, pois o seu sistema imunológico estaria nesse momento comprometido. Também a quantidade de matéria orgânica presente no saco seria propicia ao crescimento de bactérias e parasitas.

Nesse ponto em que o peixe chega na sua casa ele está muito vulnerável à doenças. A água do saco é uma água doente, tóxica.

A doença está na água, nos lados do saco, e na superfície externa do saco também. Se você colocar para flutuar o saco no seu aquário, alguns dos agentes patogênicos que existissem no aquário original poderiam estar sendo introduzidos no seu novo aquário. Agora você abre o saco e deixa ele flutuar. Realmente uma má ideia, pois logo que você abre o saco o dióxido de carbono escapa, e um ar relativamente rico em oxigênio logo entra. O dióxido de carbono rapidamente evapora da água. O pH sobe. A amônia no saco repentinamente se torna altamente tóxica com o nível alto de pH. O peixe fica estressado e o seu sistema imunológico declina. Você então começa a adicionar a água do seu aquário para o saco. Agora você faz com que os níveis de pH e dureza da água do saco comecem a oscilar. Isso causa mais estresse para o peixe. Com isso você força o peixe por uma ou mais horas a ir se adaptando aos parâmetros da água do seu aquário, causando mais estresse ao peixe.

Normalmente leva semanas para um peixe se ajustar aos novos parâmetros de uma água nova, e você o força para que isso ocorra em 1 ou 2 horas e isso não é bom no estado de fraqueza atual do peixe.

Ajustar um peixe para um pH mais alto, maior dureza da água (GH) ou maior valor de temperatura é melhor do que para valores mais baixos. Entretanto como o pH é uma escala logarítmica, um grau de diferença é dez vezes maior. O limite para mudanças de pH é de um grau, mudanças de temperatura é de 1 grau Celsius. Dureza é um pouco mais flexível para mudanças, mas você deve chegar o mais próximo possível. Se a variação da troca for muito grande você corre o risco de colocar o peixe em choque. O parâmetro mais importante a se conseguir é o pH correto.

Por isso é importante saber (perguntar ao vendedor) em que água seu peixe foi criado, se o seu criador utilizava sal nos seus aquários, quais os valores de pH e GH. É importante retornar o peixe a esses valores o mais rápido possível.

Essa teoria acima foi-me passada por um criador alemão que foi meu sócio numa criação de guppies nos anos 70, que dificilmente perdia peixes por manuseio errado. Se eu contasse todas suas técnicas muitos ririam, como, por exemplo, jogar água fervendo num aquário com peixes em choque e imediatamente tirá-los daquela situação, voltando os peixes a nadarem normalmente. Eu presenciei tudo isso, e diversas das técnicas eu posteriormente repeti sozinho com sucesso.

Sei que é difícil pessoas que fazem determinados procedimentos há vários anos aceitarem um novo manejo, por isso falei em criar polêmica, opiniões contraditórias. Do modo como a maioria das pessoas fazem também dá certo, mas os peixes com certeza sofrem mais para se adaptar. O método que eu acho mais correto é: Pedir informações ao fornecedor do peixe sobre os parâmetros da água em que os peixes foram criados/enviados, tais como pH, temperatura, GH (dureza) e salinidade.

Preparar um aquário uma semana antes da chegada do peixe e preparar a água nos mesmos parâmetros das informações que você recebeu do fornecedor dos peixes.

Após a chegada dos peixes, deixe o saco no mesmo ambiente do aquário até a estabilização da temperatura (saco fora do aquário), e não coloque o saco em contato com a água do seu aquário pois o saco pode estar transportando agentes patogênicos.

Adicione um condicionador à água do aquário que proteja o muco do peixe. Isso vai ajudar a defesa contra possíveis doenças.

Coloque formalina, ou outro produto com a mesma função, no seu aquário. A formalina vai evaporar e causar ínfimo dano ao ciclo do nitrogênio do seu aquário.

Nunca coloque peixe novo misturado com seus antigos peixes, pois eles podem passar doenças uns para os outros.

Não coloque água do seu aquário dentro do saco. Assim que o saco é aberto o dióxido de carbono vai escapar, o pH vai subir, e os seus peixes entrarão em choque. Imediatamente após abrir o saco coloque um pouco de neutralizador de amônia no saco e meça os parâmetros da água do saco.

Verifique os parâmetros da água que veio junto com o peixe e compare com os valores informados pelo fornecedor. É esperado que o valor de pH tenha diminuído. Se tiver qualquer dúvida, como por exemplo, se passaram informações incorretas para você quanto a água original dos peixes, ajuste o aquário para os parâmetros da água do saco. Se os parâmetros estão realmente baixos, como pH abaixo de 7, coloque os parâmetros do seu aquário ligeiramente acima.

Se o aquário tem os mesmos parâmetros, jogue fora a água do saco e colocando o peixe numa rede e imediatamente o coloque no aquário. Não contamine a água do seu aquário com a água que veio dentro do saco.

Não alimente o peixe no primeiro dia, e dê pouca comida para ele na primeira semana.

Troque por dia 10% da água do aquário até que o ciclo de nitrogênio seja estabelecido e continue esse procedimento até que a água atinja os mesmos parâmetros dos seus outros aquários.

Procedendo dessa maneira as chances de nada de desagradável acontecer com seu novo peixe estarão aumentadas.

Carlos Beserra (in memoriam)

Bateria de Betteiras

A Betteira:

Minhas betteiras têm 15 cm X 15,3 cm X 9 cm. A água fica com 12 cm de altura e a capacidade fica perto de 1,6 litros por betteira. Os vidros são de 3 mm e aconselha-se a lixar as bordas cortantes dos vidros antes de armar os aquários. São todos colados com borracha de silicone sem antifungo.

As medidas dos vidros por betteira são:

  • 1 vidro para o fundo com 15 cm X 9 cm;
  • 2 vidros para as laterais de 15 cm X 15 cm;
  • 1 vidro para a frente de 15 cm X 8,4 cm;
  • 1 vidro para a parte inferior da traseira de 12 cm X 8,4 cm;
  • 1 vidro para a parte superior traseira de 2,7 cm X 9 cm.

O posicionamento dos vidros é o seguinte:

  • Os vidros laterais, frontal e traseiro inferior são colados por sobre o vidro do fundo;
  • O vidro frontal e o traseiro inferior são montados por dentro dos vidros laterais;
  • O vidro traseiro superior é montado por fora dos vidros laterais e atrás do vidro inferior, deixando uma fresta de 3 mm entre os vidros.

Montando a betteira:

Passo 1

Cola-se 1 vidro lateral e o vidro da frente entre si e sobre o vidro de fundo.
Cola-se 1 vidro lateral e o vidro da frente entre si e sobre o vidro de fundo.

Passo 2

Cola-se o vidro traseiro inferior.
Cola-se o vidro traseiro inferior.

Passo 3

Cola-se a outra lateral.
Cola-se a outra lateral.

Passo 4

Por último o vidro traseiro superior. Note que ele é colocado por trás e como ele mede 2,7 cm fica uma folga de 3 mm por onde a água sai, mas o betta não.

Passo 5

Veja como fica por trás.
Veja como fica por trás.

Existem pessoas que preferem montar os vidros em volta do vidro do fundo, ao invés de por sobre ele. Não há problema, bastando alterar as medidas de modo que o aquário fique com 9 cm de largura.

A estante:

Eu utilizo cantoneiras próprias para estante que são vendidas sob vários tamanhos. Uso barras de 1 metro e 4 cantoneiras de 20 cm por barra.

As cantoneiras têm o seguinte aspecto:

Aspecto das cantoneiras de alumínio.

As barras são assim:

Aspecto das barras de sustentação de alumínio.
Aspecto das barras de sustentação de alumínio.

Dê preferência às de alumínio ou niqueladas, para resistir à umidade.

Fixam-se as barras na parede, na vertical, fazendo um pequeno desnível de uma para outra, para que a água tenha caimento para dentro dos filtros e encaixam-se as cantoneiras para servirem de suporte às prateleiras.

As prateleiras são na verdade pequenos aquários de vidro grosso, de 6 mm, onde as betteiras são colocadas e que servem de calha para a saída da água.

O tamanho de cada prateleira vai depender da quantidade de betteiras que você desejar colocar por andar. Como utilizo barras de 1 m, só posso colocar 4 andares de prateleiras. Já vi barras de até 2 m. Isso fica a vontade do freguês. Cada prateleira deverá ser calculada para 10 cm por betteira, por exemplo, se desejo uma prateleira para 10 betteiras, ela deverá ter 1 metro. Isto acontece porque as betteiras devem ter um espaço entre si para que se coloquem os separadores para que os machos não se vejam a todo o momento. O número de barras presas na parede dependerá do tamanho da prateleira. Até um metro podem-se colocar duas ou três. Acima disso três, no mínimo.

As medidas dos vidros para uma prateleira (todos são vidros de 6 mm):

  • 1 vidro de fundo de 19 cm X 1 metro (de acordo com o tamanho);
  • 2 vidros frontal e traseiro de 3 cm X 1 metro;
  • 1 vidro lateral de 17,8 cm X 3 cm;
  • 1 vidro lateral de 15 cm X 3cm;
  • 1 vidro para base da saída da água de 3 cm X 7cm;
  • 1 vidro para as laterais da saída da água de 3 cm X 3 cm, cortado ao meio em diagonal;
  • 1 vidro de 1 cm X 3 cm, para fazer a pingadeira.

A quantidade total de vidros dependerá da quantidade de prateleiras.

Como montar a prateleira:

Cole a lateral maior e a traseira sobre o fundo. Logo após o vidro da frente e a lateral menor. Ficando a prateleira assim.

Visão da prateleira.
Visão da prateleira.

A fenda que se encontra na lateral com o vidro menor servirá para saída da água. Deixa-se a cola endurecer.

Fazendo a saída da água:

Passo 1

Cola-se o vidro de 3 cm X 7 cm por baixo da prateleira/aquário (virando de cabeça para baixo), de modo a sobrar 3 cm, como na figura.
Cola-se o vidro de 3 cm X 7 cm por baixo da prateleira/aquário (virando de cabeça para baixo), de modo a sobrar 3 cm, como na figura.

Passo 2

Cola-se as duas metades do vidro de 3 cm X 3 cm cortado ao meio em diagonal.
Cola-se as duas metades do vidro de 3 cm X 3 cm cortado ao meio em diagonal.

Passo 3

Por último cola-se a pingadeira.
Por último cola-se a pingadeira.

A estante montada com as prateleiras e as betteiras ficaria assim:

Estante montada com as prateleiras e as betteiras.
Estante montada com as prateleiras e as betteiras.

Como as betteiras tem 15 cm de comprimento e a prateleira 19 cm, fica um vão atrás das betteiras por onde a água escorre.

A saída de água:

Saída de água com tubos e ipsilons de pvc de 40mm.
Saída de água com tubos e ipsilons de pvc de 40mm.

A entrada de água:

A entrada de água é feita com tubos de 20 mm de pvc, sendo que eu coloco 1 registro de gaveta (aquele com uma alavanca) em cada prateleira para poder regular a vazão d’água. Pode-se fazer o sistema de água de duas maneiras. Com filtragem, com é o meu, onde faço trocas diárias diretamente do filtro, ou com troca direta, ou seja, a água entra por um lado e é descartada pela saída da água, indo para o esgoto. Depende apenas da sua disponibilidade de água.

Os tubos de pvc de 20 mm são furados, depois de marcados, com uma arame fino quente. O furo não pode ser pequeno demais, senão entope com facilidade. Depois de montado fica assim:

Sistema de entrada e de saída.
Sistema de entrada e de saída.

Este é o sistema de entrada e de saída. Agora farei um esquema para filtragem e outro para troca direta.

Troca direta de água:

Basta ligar o sistema a uma caixa d’água que tenha água tratada, ou seja sem cloro e com as especificações necessárias a saúde dos peixes. Veja o esquema:

Troca direta de água: Sistema ligado a uma caixa d'água que tenha água isenta de cloro e metais pesados.
Troca direta de água: Sistema ligado a uma caixa d’água que tenha água isenta de cloro e metais pesados.

A entrada de água se faz por meio de uma mangueira de água de ½ polegada, unida ao sistema por um adaptador.

A saída vai direto para um recipiente que é ligado ao esgoto. Não se deve ligá-la diretamente ao esgoto, pois caso algum betta pule, será levado pela corrente de água para o recipiente.

A água não precisa ficar ligada todo o tempo, pode ser ligada e desligada de tempos em tempos, apenas para renovar a água das betteiras.

A sujeira no fundo das betteiras pode ser retirada em grande parte aumentando-se a vazão de entrada da água, que revolve o fundo e retira os detritos.

Mesmo ficando um pouco de sujeira no fundo, devido a troca constante de água, o nível de amônia na água não aumentará muito e não interferirá no desenvolvimento dos peixes. Eu aspiro as betteiras com uma mangueira de ar 1 vez por semana apenas.

Vejamos agora o esquema com filtragem:

Sistema de filtragem baseado naquele usado por Francisco Maraschin, da FM Bettas, de Rezende.
Sistema de filtragem baseado naquele usado por Francisco Maraschin, da FM Bettas, de Rezende.

A filtragem é feita primeiramente por lã sintética, seguida por pedriscos e por areia grossa. Troco parcialmente a água diariamente, tirando água da parte de entrada do filtro, por sobre a lã de vidro e recoloco a água diretamente da parte onde fica a bomba, que deve ser Sarlo 2000 ou equivalente, como a Aqua 2300, também muito boa.

O preço final pode ser barateado usando-se garrafas pets de 2 litros em vez de betteiras de vidro, cortadas e com um talho de aproximadamente 3 mm atrás para a água sair, cerca de 3 cm abaixo da borda da garrafa. O filtro pode ser substituído por filtros mecânicos ou por caixas plásticas divididas. Bem, tudo depende da criatividade de cada um. Este sistema pode ser acrescido de Filtros UV na saída da bomba.

Paulo de Freitas
pr.freitas@ig.com.br
Aquarista amador, desde 1973. Criador de Bettas, Guppies, Killis e Bandeiras.