Íctio: A doença do inverno

Artigo publicado originalmente na revista Negócios Pet, Ano VII, edição 79 – Julho/2011, pp. 14-18.

Ichthyophthririus multifillis é o agente causador da Ictiofitríase, popularmente conhecida como Íctio, nos aquários de água doce. O peixe afetado fica coberto de pontos brancos pequenos. É comum nas baterias de todas as lojas, sendo um pouco chato de tratar, mas fácil de prevenir.

Ele entra em nossas baterias através de qualquer animal novo introduzido no aquário com sinais da doença ou não, por alimentos vivos como artêmia salina e outros, vindo na água do fornecedor ou do importador. Também migra de um aquário para outro e de uma bateria para outra quando se utiliza a mesma rede para pegar peixes, o mesmo sifão, etc. Pode vir em folhagens de plantas e até mesmo em caramujos grudados a elas.

A doença manifesta-se, geralmente, quando há variação de temperatura no aquário ou durante o transporte do fornecedor para sua loja, pois na viagem há mudança brusca de temperatura ou a climatização não é feita como se deveria, podendo ocorrer choque térmico, mesmo que leve.

A dica é começar o tratamento assim que for constatado que um animal ou mais do aquário está com Íctio. Quanto mais rápido o início, maiores são as chances de não haver nenhuma perda.

O ideal é tratar os peixes afetados em aquário hospital ou nos dias de menor movimento da loja, pois esse tratamento é realizado no escuro.

Se optar por fazê-lo na bateria, retire o carvão ativado, as cerâmicas e/ou o bio ball para que o medicamento mate somente a biologia presente no cascalho, se houver. A cerâmica e/ou o bio ball devem ser colocados em aquário com compressor de ar para preservar as bactérias aeróbias.


O tratamento

  • Se utilizar um aquário hospital, colocar água da bateria, até mesmo quando fizer trocas parciais;
  • Manter a temperatura alta, de 29 ºC para peixes não topicais e 31 ºC para peixes tropicais. Se não houver divisão, opte por 29 ºC;
  • Apagar as luzes, tampar o aquário hospital ou a bateria com lona escura, cobertor, etc. O Íctio não se prolifera no escuro;
  • Reforçar a alimentação, abrindo o aquário para alimentar duas a três vezes ao dia. De manhã, com ração, como de costume e nas outras vezes com alimentos vivos, ração à base de Spirulina e alga Nori da culinária japonesa. Uma ótima dica é usar um suplemento para aquários à base de alho Garlic;
  • Aumentar a aeração com um compressor de ar potente com várias pedras porosas. No mínimo um pedra porosa por andar;
  • Usar um medicamento simples contra Íctio;
  • Se usar aquário hospital, faça trocas parciais de água todos os dias com sifonagem do fundo de 10% a 30% da capacidade dele.

Em três dias o Íctio sumirá e em seis dias poderá colocar os peixes à venda novamente.


Prevenindo o Íctio de água doce

Deve-se investir na alimentação com rações de qualidade, utilizando também as rações à base de Spirulina, duas a três vezes na semana, pricipalmente para herbívaros, e incrementando a alimentação semanalmente com alimentos vivos ou congelados.

O uso semanal de suplementos de Garlic ajuda na prevenção de Íctio. O uso diário previne, também, vermes intestinais. Um peixe bem alimentado terá uma boa imunidade, será mais colorido, aspecto saudável e mais fácil de vender.

Estabilize a temperatura com termostato para não haver variações na bateria. Se puder, coloque um filtro esterillizador UV, que não vai ajudar com Íctio impregnado em um peixe, mas os parasitas que lançarem na água e forem puxados pelo UV não terão chances de pegar outra vítima.

Cuidado com redes de içar peixes e sifões que utilizar na loja, ou mesmo com a mão molhada dos funcionários de um aquário para outro, a fim de evitar contaminação. O ideal é que tenha um balde de descanso para redes e sifões com solução de formol ou azul dimetileno, trocando esta água todas as semanas.


O Íctio em aquários marinhos

Cryptocaryon irritans é o agente causador de Íctio marinho e é semelhante, em muitos aspectos, com o íctio de água doce, tendo a mesma forma de infestação. Pode entrar em seu aquário por meio de rochas vivas também.

A variação de temperatura é um dos fatores desencadeantes da proliferação do Íctio marinho em um animal, quer seja pela sua variação dentro do aquário, no transporte até sua loja ou na aclimatação inadequada. Pode ocorrer choque térmico, mesmo que leve.

Como em aquários marinhos geralmente há vários corais e invertebrados e, no caso de aquários grandes, seria quase impossível não ter que desmontá-los para pegar o peixe doente, o tratamento se baseará na forma mais natural possível.


Tratamento no aquário de exposição

  • Aumentar ligeiramente a temperatura de forma que não afete corais e invertebrados. Temperatura constante sem nenhum tipo de variação é muito importante. Nas baterias que tenham somente peixes, manter entre 28 ºC e 29 ºC.
  • Reforçar a alimentação. Neste quesito, a alga Nori da culinária japonesa, facilmente encontrada em supermercados na seção de produtos orientais, é uma “ressuscitadora” de peixes marinhos. Esta alga milagrosa, se for introduzida na alimentação de forma mais persistente aos primeiros sinais de Íctio, recupera a saúde do peixe rapidamente. Junto com a Nori, ração de boa qualidade, à base de Spirulina, alimentos vivos, suplementos vitamínicos e suplementos à base de alho Garlic são necessários.
  • O peixe neon goby, faixa amarela, nativo da costa brasileira, tem costume de retirar parasitas como o Íctio marinho de peixes infestados. Pena que esteja ameaçado de extinção e proibida sua comercialização no Brasil.
  • O método que surte melhor efeito em nossas pesquisas é tratar de forma natural peixes que se alimentam normalmente. O fato de se alimentarem fará com que sua imunidade aumente e o próprio organismo se livre do Íctio. Se o peixe infestado não se alimenta é necessário tomar medidas drásticas para não o perder em alguns dias.


Tratamento em aquário hospital

Tivemos sucesso de 90% de recuperação de peixes marinhos com Íctio que pararam de se alimentar, tratando-os em aquário hospital como se fosse Íctio em água doce, assim que notamos, pela primeira vez, que os animais não se interessavam pelo alimento.

Alguns lojistas dão banhos de água doce com água de Reverse Osmose e outros tratam a bateria com medicamentos à base de cobre. Não recomendamos porque o índice de cura de Íctio com ou banhos de água doce é muito baixo, pois estressa o animal debilitado ao máximo e a tendência é que, depois disso, ele pare totalmente de se alimentar.

As dicas para o tratamento em aquário hospital são:

  • Colocar água do aquário principal no aquário hospital, até mesmo quando for fazer trocas parciais;
  • Manter a temperatura alta em aquário hospital, cerca de 29 ºC;
  • Tampar o aquário hospital com lona escura, cobertor, etc. O Íctio de água doce não se prolifera no escuro, então, tentarmos da mesma forma com o ciliado marinho. O interessante é que o animal marinho fica mais calmo e parece dar resultados positivos;
  • Reforçar a alimentação, abrindo o aquário para alimentar duas a três vezes ao dia. De manhã, com ração, como de costume e nas outras vezes com alimentos vivos, ração à base de Spirulina e alga Nori da culinária japonesa. Uma ótima dica é usar um suplemento para aquários à base de alho Garlic, que deve ser usado molhando a ração antes de servir ou deixando artêmias salinas na solução de alho concentrado antes de servi-las;
  • Aeração forte e constante;
  • Faça trocas parciais de água todos os dias com sifonagem do fundo de 10% a 30% da capacidade do aquário hospital.

Em três dias o Íctio sumirá e em seis dias o peixe poderá entrar no aquário de exposição ou bateria sem nenhum problema.


Para prevenir o Íctio marinho

Deve-se investir na alimentação com rações de qualidade, utilizando também as rações à base de Spirulina de duas a três vezes na semana, alga Nori, acelga crua e incrementar, semanalmente, com alimentos vivos ou congelados. Use os suplementos de Garlic e suplementos vitamínicos semanalmente para ajudar na prevenção de doenças. Um peixe bem alimentado terá um boa imunidade.

Estabilize a temperatura para não haver variações. O melhor é investir em um bom termostato e, pelo menos um vez na semana, verificar o termômetro para confirmar se ele está trabalhando a contento.

Se puder, coloque um filtro esterilizador UV ou o ozonizador, que não ajudarão com o Íctio impregnado em um peixe, mas os parasitas que se lançarem na água e forem puxados pelo UV ou atingidos pelas partículas de 03 não terão chances de pegar outra vítima.

Optar por uma bateria de peixes nacionais e outra de peixes importados é uma alternativa eficaz no controle de perda de animais importados. Um espaço no fundo da loja para hospital e quarentenário seria perfeito também.

Em todos os casos de doenças, um dos fatores que mais contam para o sucesso da recuperação do animal é o tempo entre perceber o problema e agir.

Esperamos tê-lo ajudado com um pouco de nossa experiência sobre o que funcionou efetivamente em nossos aquários, baterias e quarentenários.

Roberto Eduardo Sentanin
Diretor e fundador da empresa RSDiscus Aquários (loja física e virtual, varejista) e ex-criador profissional dos peixes Acará-bandeira e Acará-disco, de 1990 a 2010.

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