Cultura de Vermes-de-Grindal

O Verme-de-Grindal (Enchytraeus buchholzi) é um pequeno verme branco, de aproximadamente 1 cm de comprimento quando adulto, que se utiliza na alimentação de peixes e alevinos. O nome de “Grindal” parece ser proveniente do nome da Senhora Grindal, uma sueca que foi a primeira a cultivá-lo como alimento em aquariofilia.

Vermes-de-Grindal.
Vermes-de-Grindal.

O grande interesse por estes vermes se deve a facilidade de cultivo, serem muito prolíferos e a voracidade com que são devorados pelos peixes. Outra coisa a se ter em conta é que são ótimos para alevinos de muitas espécies e despertam o apetite em peixes enfermos, debilitados ou que não estejam aceitando alimento comercial seco.

Os peixes se sentem atraídos pelo alimento vivo, por seu movimento, por seu sabor, mudando seu comportamento de forma surpreendente quando lhes oferecemos este tipo de alimento, suas cores se ressaltam, os movimentos são mais rápidos, se desperta o instinto de caça. Até os menores peixes são capazes de comê-los, desde que caibam em suas bocas.

Os benefícios do alimento vivo são sem dúvida conhecidos, o problema é como consegui-los e mantê-los. Por sorte, o verme-de-grindal é um dos mais fáceis de conseguir e de cuidar e nos permite oferecer uma dieta variada a nossos peixes.

Vejamos então passo a passo como iniciar um cultivo de vermes-de-grindal:

1) PREPARAÇÃO DO RECIPIENTE DE CULTIVO

O ideal antes de recebermos nossa primeira cêpa de vermes é preparar com antecedência o recipiente de cultivo.

Devemos levar em conta que os grindal são vermes que vivem sobre terra úmida e que também são fotófobos, evitam a luz. Por isso o recipiente ideal deve ser escuro para que não seja permitida a entrada de luz, apesar de que na realidade qualquer recipiente que possamos guardar em um local escuro, como um armário, serve.

O tamanho do recipiente também não tem importância, como mostraremos adiante; vamos mostrar aqui como adequar um recipiente plástico de 1 litro.

A primeira coisa a se fazer é cortar um pequeno quadrado de 3 X 3 cm na tampa. Ele servirá como respiradouro para evitar que o excesso de umidade se condense. Existem pessoas que não fazem furos na tampa, como aconselho, mas nesse caso temos que abrir diariamente a cultura para vigiá-la, pois existe o risco de se perder os vermes por excesso de umidade.

Corte na tampa do recipiente.
Corte na tampa do recipiente.

Depois disso, devemos proteger a janela de ventilação com algo suficiente fino para os vermes não saiam, mas que mantenha o local arejado. O melhor resultado que tive foi cortar um pedaço de meia-de-seda feminina e colá-lo dobrado sob a janela. Para colá-lo, qualquer cola de contato serve perfeitamente.

Colando pedaço de meia-de-seda na janela.
Colando pedaço de meia-de-seda na janela.

Alguns usam perlon para tapar as janelas de ventilação, mas eu não recomendo. O motivo disso é que esta vedação não serve apenas para evitar que os vermes saiam, mas também para evitar a entrada de ácaros. Os ácaros são muito menores que os próprios vermes e podem passar facilmente pelo perlon e qualquer outro tipo de malha. Sem dúvida, a trama das meias é tão fechada que evitam a entrada dos ácaros, e assim mesmo eu ponho duas camadas, por causa de algum rasgo acidental.

Uma vez que tenhamos colado os pedaços de meia, cobrimos a borda com mais cola para evitar que algum verme se meta por ali.

Deixando a cola secar.
Deixando a cola secar.

Deixamos então a cola secar em um lugar ventilado e pronto! Já temos o nosso recipiente. Como havia dito antes, serve qualquer pote, mas para nossa comodidade os de 1 litro são mais práticos.

Aconselho sempre ter pelo menos duas culturas de vermes em produção. Se algo ocorrer com uma, sempre temos a oportunidade de iniciar outra. Podemos ter duas culturas grandes e uma ou duas pequenas.

Aqui abaixo, podemos ver três exemplos: Um pote de sorvete, um de margarina e outro pote comum, com tampa.

Tipos de recipientes.
Tipos de recipientes.

Uma vez que nosso recipiente fique pronto, já pode receber seus novos ocupantes.

2) INÍCIO DA CULTURA

Como tínhamos dito antes, os vermes-de-grindal vivem em terra úmida e por esse motivo para reproduzí-los devemos proporcionar condições semelhantes.

Sei de criadores que tem conseguido mantê-los sobre perlon, espuma, esponja, etc. Eu particularmente já usei algum destes métodos e digo que nem sempre é fácil mantê-los e que nunca se chega a igualar a produção, velocidade de crescimento, coleta e manutenção que se consegue com substratos naturais como a turfa.

Vou explicar como preparar os dois tipos de substratos mais comuns que se utilizam para cultivar os vermes-de-grindal: a turfa e a fibra de coco.

Sustrato de turfa:

A turfa é um substrato a base de matéria vegetal, que se usa para o cultivo de plantas e que retém muito bem a umidade.

Geralmente o que encontramos mais facilmente é a terra adubada, que é o substrato universal para plantas. Pode-se utilizá-lo para criar vermes-de-grindal, mas a turfa tem muitas vantagens. A terra adubada contém turfa, restos de vegetais, areia e adubo, químico ou orgânico. Ao utilizarmos para os vermes-de-grindal veremos que os pequenos pedaços de madeira tornam a superfície pouco uniforme e dificultam a colheita dos vermes.

Por isso, o ideal seria encontrar turfa pura, sem aditivos. Podem-se encontrar turfas com várias denominações, como turfa vermelha, turfa de esfagno, etc. Qualquer uma delas nos servirá. A turfa tem o pH ácido que dificulta a proliferação de micro-organismos não desejados em nossa cultura.

O que podemos encontrar com mais facilidade são pequenos blocos de turfa adubada. O ideal seria que não tivéssemos adubos nem nenhuma substância química, mas essa turfa pode ser usada sem problemas.

O primeiro passo é deixar a quantidade adequada de molho em um recipiente com água, para que se perca parte do adubo. Depois, escorre-se com a ajuda de um coador e volta-se a deixá-la de molho por mais um tempo e escorre-se a água de novo. Agora está em condições de ser utilizada.

Drenando a turfa.
Drenando a turfa.

Existem pessoas que preferem ferver a turfa durante alguns minutos e outros a colocam em microondas para esterilizála. Eu já experimentei os dois métodos e também já a utilizei diretamente, apenas lavando-a e o resultado foi o mesmo. Os grindal crescerão da mesma forma e não aparecerão fungos nem ácaros em nenhuma das culturas. Assim sendo, prefiro não ter trabalho.

Sei que existem pessoas que usam bicarbonato na turfa para reduzir a acidez, mas eu nunca utilizei e produzo muitos vermes. Minha única recomendação é lavar a turfa duas vezes.

Uma vez que a turfa tenha sido deixada de molho, usaremos uma peneira metálica grande para drená-la.

Colocamos uma camada de 2 a 3 cm no recipiente e aplainamos com uma colher. Está pronta então para receber os vermes. Uma das peculiaridades dos vermes-de-grindal é que não se encontram com facilidade para comprar. Na verdade, é mais fácil conseguí-los com outros criadores. Assim o cultivo se difundiu pelo mundo a fora.

Colocando as porções de vermes nas depressões:

Uma cêpa de grindal é uma pequena porção de cultivo que contém, sobretudo, substrato e uma quantidade variável de vermes. Não nos preocuparemos com a quantidade de vermes que existe nessa cêpa, pois só necessitamos de dois para a reprodução e em poucas semanas a população inicial será multiplicada por cem.

A primeira cêpa de Vermes-de-Grindal.
A primeira cêpa de Vermes-de-Grindal.

Na hora de colocar a cêpa inicial na cultura, recomendo fazer duas pequenas depressões (se forem poucos vermes, uma só) para distribuir nelas a terra com os vermes. Devemos construir alguns morrinhos além das depressões. Parece curioso, mas você descobrirá que os grindal preferem colocar os ovos nos lugares mais altos da turfa. Cerca de 90% dos vermes escolherá por os ovos nestes montes.

Desenvolvimento dos Vermes-de-Grindal.
Desenvolvimento dos Vermes-de-Grindal.

Para finalizar, poremos em cima um pellet de ração de cachorro ou de gato, dependendo da quantidade de vermes que houver. Não adianta por muita comida se houverem poucos vermes, pois o alimento acabará se estragando antes de ser consumido.

Substrato de fibra de coco:

Já vimos como preparar o substrato de turfa, agora veremos como fazê-lo com fibra de coco.

Bloco de substrato de coco.
Bloco de substrato de coco.

A fibra de coco provém das cascas do fruto do mesmo nome, que é rica em celulose e lignina. É capaz de absorver 10 vezes seu peso em água, e mantém uma estrutura esponjosa.

A principal diferença da turfa, é que drena a água mais facilmente, com o que corremos menos risco de se perder a cultura, já que a água vai para o fundo do recipiente e a parte superior permanece apenas úmida, não encharcada.

Os vermes-de-grindal crescem tão bem em um substrato quanto no outro, se bem que se amontoam melhor na turfa. Assim mesmo, não é uma grande diferença e qualquer dos dois substratos é uma excelente opção.

A fibra de coco se vende em blocos prensados, e se encontram em lojas de jardinagem, pois podem ser usados em terrários.

Bloco de substrato de coco sendo hidratado.
Bloco de substrato de coco sendo hidratado.

A preparação é muito fácil: Retiramos o bloco do saco e colocamos o mesmo em um recipiente com água, na quantidade recomendada pelo fabricante. Neste caso de 3 litros a 5 litros, sendo 4 litros uma boa quantidade.

Bloco de substrato de coco se desfazendo.
Bloco de substrato de coco se desfazendo.

O bloco de fibra começará a absorver água e inchar, aumentando de volume. Conforme for se desmanchando, iremos revolvendo-a para que isso aconteça de maneira uniforme.

Neste momento teremos nossa fibra esponjosa e úmida, pronta para ser usada da mesma forma que foi explicado com a turfa.

Fibra de coco umedecida.
Fibra de coco umedecida.

A fibra umedecida que sobrar podemos guardar em um saco fechado, num local arejado. Já teremos a fibra pronta para ser utilizada quando precisarmos.

3) A ALIMENTAÇÃO DOS VERMES-DE-GRINDAL

Como foi dito, uma vez que coloquemos nossa cêpa inicial sobra a fibra de coco, é hora de oferecer um pouco de comida, que aceitarão com gosto.

Os vermes-de-grindal podem comer praticamente de tudo, farinha, cereais, etc, mas existe um alimento que é cômodo e perfeito para o seu desenvolvimento, fazendo com que cresçam rapidamente. Para que então usar outro tipo de comida?

O que recomendo para a alimentação dos grindal são os pellets de ração para cão ou gato, preferivelmente os normais, que são melhores que os com complementos vegetais ou coloridos.

Quanto ao tamanho dos pellets, apesar de parecer curioso, devemos tomar alguns cuidados, porque nos permitirão coletar os vermes com mais comodidade. A ração para gato é muito pequena e tendo-se uma grande quantidade de vermes, esta desaparecerá por completo em algumas horas e, quando formos alimentar os peixes, corremos o risco de colocarmos ração junto com os vermes, no aquário.

Por isso, depois de muita experimentação, cheguei a conclusão que quanto maior for o pellet, melhor. Assim os ideais são aqueles para raças de cão grandes. Eu utilizo umas que se vende para cães da raça boxer, que são grandes e planas, oferecendo uma grande superfície onde os vermes se acumulam ao redor.

Uma coisa devemos levar em conta, a quantidade de pellets que formos colocar deve estar relacionada a quantidade de vermes que tenhamos na cultura. Não devemos colocar um pellet grande em uma cultura inicial, porque antes que os vermes comam tudo, ele mofará.

Por isso, ao iniciarmos nossa cultura, bastará colocar um pequeno pedaço de pellet ou um pellet pequeno para alimentar os primeiros vermes. Uma vez que a cultura esteja em crescimento e comecemos a ver uma grande quantidade de vermes e ovos, podemos começar a colocar os pellets maiores, um ou dois, dependendo do tamanho do recipiente. Saberemos que colocamos a
quantidade correta quando em dois dias toda a ração tiver desaparecido. Será o momento de colocarmos novos pellets.

Apenas alguns dias depois do início de nossa cultura, a mesma apresentará o aspecto da primeira foto acima.

Cultura de Vermes-de-Grindal depois de alguns dias.
Cultura de Vermes-de-Grindal depois de alguns dias.

Duas semanas depois, a cultura está em seu apogeu e uma grande quantidade de vermes se empelotará em torno dos pellets.

Cultura de Vermes-de-Grindal depois de duas semanas.
Cultura de Vermes-de-Grindal depois de duas semanas.

Podemos ver também a evolução da mini-cultura no recipiente pequeno.

Mini-cultura de Vermes-de-Grindal.
Mini-cultura de Vermes-de-Grindal.

Apenas poucos dias depois de iniciar a cultura, podemos ver sobre as regiões mais altas da turfa umas pequenas bolinhas brancas, que são os ovos dos vermes-de-grindal, a futura geração.

Detalhe Vermes-de-Grindal e seus ovos.
Detalhe Vermes-de-Grindal e seus ovos.

Os reprodutores podem ser distinguidos facilmente porque são de porte maior (1 cm) e apresentam um abaulamento retangular de cor branca na metade de seu corpo, como as minhocas de terra.

4) ALIMENTANDO NOSSOS PEIXES

Quando tivermos nossa cultura com os pellets rodeados de vermes, é o momento de colher uma porção deles e iniciar uma nova cultura. Aconselho sempre ter no mínimo duas culturas, que devem ter duas semanas de diferença entre si, assim sendo, teremos sempre uma em plena produção para oferecer aos nossos peixes. Quando uma começar a decair, a outra estará em seu apogeu.

Vermes-de-Grindal no pellet.
Vermes-de-Grindal no pellet.
Colhendo Vermes-de-Grindal.
Colhendo Vermes-de-Grindal.

Se já tivermos outra cultura pronta, podemos passar diretamente a colheita dos vermes para alimentar nossos peixes.

Como foi dito antes, o principal motivo para colocarmos os pellets de maior tamanho quando existem muitos vermes, é que os mesmos se acumulam em grande quantidade em redor deles e é muito fácil colhermos sem substrato.

Sei que existe gente que colhe uma porção de substrato com os grindal, coloca o torrão dentro água ou em um coador, para limpar e após isto joga a água com os vermes no aquário.

Este é um trabalho que não temos quando utilizamos o método dos pellets grandes.

Se olharmos a foto “Vermes-de-Grindal no pellet”, veremos que os grindal formam uma capa de cerca de 1 cm de altura ao redor e por baixo do pellet, sem substrato. Serão estes os vermes que colheremos para nossos peixes.

A forma de colhermos pode ser tão variada quanto nossa criatividade permitir: podemos utilizar um palito, para colher pequenas porções (ideal para poucos peixes), uma colher plástica, um pincel, ou qualquer outra maneira que nos ocorra.

Quando os grindal se amontoam desta forma ao redor dos pellets, é muito fácil colher grandes quantidades sem tocar no substrato, tanto ao redor quanto sob os pellets.

É possível que quando pusermos os vermes-de-grindal à primeira vez em nosso aquário os peixes fiquem desconfiados, mas isso apenas até provarem os mesmos. É surpreendente como os néons de dois cm são capazes de comer até 10 vermes de uma vez só, ficando redondos de tão cheios. Não existe peixe que não goste dos mesmos e o seu movimento pela corrente de água desperta ainda mais o apetite dos peixes.

Não se preocupe se os vermes chegarem ao fundo, se tiver coridoras as mesmas darão conta deles, elas adoram. Revolverão o solo durante horas para se assegurar que não resta nenhum.

Tem-se falado muito que os vermes-de-grindal são muito gordos e não se deve utliizá-los mais que uma vez por semana. É certo que possuem quatro vezes mais gordura que blood worms, mas também tem o dobro de proteínas. É um dos alimentos mais energéticos para crescimento dos alevinos da maioria das espécies de peixes ornamentais.

O valor nutricional dos vermes-de-grindal vivos é de 10-12% de proteínas, contra cerca de 2,7 % de gorduras.

Os grindal adultos são uma deliciosa comida para os peixes de tamanho pequeno e médio, como os ovovivíparos como guppies, molinésias; labirintídeos como Bettas splendens e colisas; todos os tipos de tetras de tamanho pequeno e médio; peixes de fundo como coridoras e para praticamente todos os tipos de peixes.

Para os peixes de maior tamanho os vermes não deixam de ser uma deliciosa guloseima ou mini aperitivo, porque será praticamente impossível chegar a saciá-los com eles. É curioso ver como uma carpa de 20 cm pode distingui-los e se mover como louca tentando capturar a maior quantidade possível destes pequenos vermes.

Ao alimentar os alevinos de peixes, veremos que os grindal adultos são muito grandes para alevinos que medem menos de meio centímetro. Neste caso, o que interessa não são os grindal adultos, mas os recém nascidos. Quando uma cultura está abarrotada de vermes e a ponto de se perder, os adultos não prosperam e os grindal de tamanho pequeno proliferam. São estas culturas que nos proporcionam vermes que pequenos o suficiente para darmos a nossos alevinos. Uma vez que estejam crescendo, os alevinos serão capazes de comer grindal de maior tamanho, e nos surpreendemos com a voracidade que demonstram alguns filhotes tentando comer os vermes com quase o seu tamanho.

Uma curiosidade do vermes-de-grindal é que diferentemente da artêmia, permanece vivo por cerca de 24 horas no aquário, e os alevinos podem continuar comendo vermes vivos no fundo do aquário.

5) REINICIANDO UMA CULTURA

Conforme se passem algumas semanas, nos damos conta que nossa cultura tem tal quantidade de ovos que quase não há lugar para se ocupar e os vermes começam a colocá-los nas paredes do recipiente.

Os vermes adultos morrem e a cultura fica com um aspecto ruim, inclusive pode começar a cheirar mal. Colocar novos pellets não faz com que voltem a aparecer tantos vermes-de-grindal como estávamos acostumados.

É o momento de darmos por finalizada nossa cultura e reiniciar uma nova. Se tivermos sido precavidos teremos outra cultura em plena produção, de onde poderemos seguir colhendo os vermes enquanto a nova se reinicia.

Na hora de reiniciar a cultura tem gente que colhe uma porção de substrato, e outros inclusive lavam a turfa e voltam a utilizá-la. Pelo preço, eu prefiro não ter este trabalho e inicio com turfa fresca.

Colhemos todos os vermes que pudermos com um pouco de terra ao redor dos pellets (sem pegar os mesmos) e os colocamos em um prato. Tiramos toda a turfa velha e lavamos o recipiente e a tampa com água da torneira. Colocamos de novo turfa ou fibra de coco úmida e pomos os vermes que reservamos antes, da mesma forma de quando iniciamos a cultura.

Recolhendo Vermes-de-Grindal.
Recolhendo Vermes-de-Grindal.

Podemos adicionar mais vermes colhidos de outra cultura, assim asseguramos uma boa população. Pomos dois pellets e já teremos outra cultura pronta.

PERGUNTAS FREQUENTES SOBRE OS VERMES-DE-GRINDAL

P: Muito interessante o artigo, creio que vou me animar e iniciar uma cultura para meus peixes, mas onde consigo a cêpa inicial?

R: Vermes-de-grindal não se encontram em lojas de aquariofilia, se conseguem da forma que quase todos conseguimos: através da troca com outros criadores. É certo que quase todos se recordam de quem lhes deu sua primeira cêpa de grindal.

Não é nenhum prejuízo pegar um pouco de sua cultura e ofertar a um companheiro. Temos que ser solidários com os que não tem, para que nós mesmos consigamos se perdermos os nossos.

Pergunte em fóruns de aquariofilia se alguém pode lhe passar uma cultura inicial, crie uma lista inicial daqueles que possuem os vermes e você nunca mais ficará sem os mesmos. Se por acaso perder sua cultura, você pode escrever para aquele a quem você deu parte de sua cultura para que ele iniciasse a sua própria.

P: Iniciei minha cultura em turfa, mas no dia seguinte ao abri-la todos os vermes haviam desaparecido, outros não se movem e a cultura parece mal, o que aconteceu?

R: Provavelmente se deve ao excesso de água, os grindal são muito sensíveis a ele e é preferível faltar umidade que sobrar. Se não há ventilação ou ela é pouca e tivermos deixado a turfa muito encharcada, a umidade será excessiva e os grindal morrerão. Sua decomposição fará com que a cultura cheire mal.

P: Coloquei a turfa no recipiente, mas creio que não escorri o suficiente, pois a turfa verte água quando inclino a cultura. Tenho que tirar a turfa novamente ou existe algo que possa fazer para retirar o excesso de água?

R: Tanto se colocar uma turfa demasiado empapada como se nos excedermos ao molhar demais uma turfa demasiado seca, existe uma opção para absorver o excesso de água sem tirar a cultura.

Secando a turfa.
Secando a turfa.

Coloque uma toalha de papel absorvente dobrado sobre a turfa, em um dos cantos. Pode também inclinar a cultura para que a água se acumule ali. Quando o papel estiver encharcado, troque-o por outro e repita o processo até que a turfa deixe de ficar encharcada e o solo se mantenha úmido.

P: Como saber que a cultura está com excesso de água?

R: Os grindal necessitam de umidade, porém se a turfa estiver encharcada pode causar a morte deles. Incline o recipiente e veja se escorre água. Se ocorrer, existe água demais. Quando se passarem alguns dias, observe a superfície da cultura para ver se a mesma necessita de mais água.

A melhor maneira de umedecer é abrir a tampa da cultura e tomar com os dedos algumas gotas de água e ir deixando cair pelas paredes ao redor do recipiente. A umidade se distribuirá por igual em toda a cultura e a turfa absorverá bem a água.

Com a fibra de coco é menor a probabilidade que a parte superior da cultura tenha problemas de excesso de água já que ela drena melhor a água para baixo.

Por ouro lado, não é bom jogar água nas zonas onde os vermes se alimentam, já que dissolveremos os restos de comida e os mesmos se infiltrarão para o fundo do recipiente, assim como não é bom jogar água em cima dos pellets. Eles absorveriam a água e seriam mais propícios à proliferação de fungos.

P: Os pelllets estão com mofo, o que fazer?

R: O mofo necessita de solo úmido para crescer e encontra isso facilmente em nossas culturas de grindal. É praticamente impossível evitar que caia um esporo em nossa cultura, por isso o que podemos fazer é prevenir que eles se reproduzam. Coloque apenas a quantidade de comida necessária a quantidade de vermes que tiver: se tiver iniciando a cultura, só é necessário um pedaço de pellet. Quando existirem muitos ovos e muitos adultos, ponhas pellets grandes sem medo do mofo, porque os vermes os comerão antes que o mofo apareça.

Se assim mesmo o mofo aparecer no pellet, eu recomendo que o retire o quanto antes, antes que o solo seja contaminado. Recomenda-se uma revisão diária das culturas para detectar possíveis problemas (excesso de umidade, pragas, falta de comida) para intervenção o quanto antes.

Tire o pellet com o mofo e se puder, tente recuperar alguns do vermes que ficarem grudados nele, sem tocar demasiado no mofo, já que libertará os esporos. Se o mofo cresceu muito, com mais de 1 ou 2 cm, não devemos nem tentar salvar os vermes que tiver ao redor. Neste último caso o melhor será lavar bem o recipiente e iniciar nova cultura.

Quando o mofo tiver soltado os esporos em nossa cultura é mais fácil que ele volte.

P: Hoje ao abrir a cultura, vários mosquinhas negras pequenas saíram voando. O que são? São prejudiciais?

R: Se tratam seguramente de drosófilas ou moscas de fruta, seguramente entrou alguma na cultura e ali pôs os ovos. Não parecem afetar os vermes-de-grindal, salvo se competirem com eles pela comida. Vigie a cultura diariamente e faça com que saiam todas as moscas que aparecerem, se elas deixarem de aparecer, reinicie a cultura.

P: Os vermes deixaram de crescer, e olhando com mais detalhe, vi que existem minúsculos bichinhos amarelos como pontos se moverem. O que são?

R: São ácaros, a pior praga que pode afetar uma cultura de vermes-de-grindal. Medem apenas meio milímetro e são capazes de entrar por qualquer parte. Se não tiver a janela de ventilação coberta com uma capa de meia, dobrada, aconselho que o faça. É a única maneira de evitar que os ácaros entrem.

Os ácaros se alimentam dos pellets, e preferem que a turfa esteja seca. Reproduzem-se com grande velocidade e provavelmente infestarão todo o armário onde você guarda suas culturas.

Faça uma revista no local onde o recipiente estava. Provavelmente haverá centenas deles entrando e saindo para buscar comida. Limpe bem tudo ao redor.

Tome cuidado aonde colocar a tampa do recipiente quando estiver alimentando seus peixes e procure não deixar o recipiente aberto por muito tempo aberto em algum móvel ou outra superfície. Poderia subir um ácaro pelas paredes e entrar na cultura.

Tome cuidado também onde você guarda a ração, já que às vezes temos o recipiente dos vermes lacrado, mas o saco da ração semiaberto, e é por aí que entram os ácaros em nossa cultura, junto com a ração. Devemos guardar a ração em um recipiente com tampa hermética que feche bem, tal qual a cultura.

É muito difícil eliminar os ácaros por completo. Se você conseguir salvar uma parte de sua cultura sem ácaros, tire uma porção, coloque em um recipiente pequeno com turfa nova e observe. Na cultura anterior, tire toda a turfa, lave o recipiente bem e deixe pelo menos por duas horas no congelador, para que algum ácaro que tenha ficado dentro não venha a reiniciar a praga. Coloca de novo turfa limpa e tente conseguir uma nova cultura que não seja infestada por nenhum ácaro, assim terá certeza de não introduzi-los novamente em sua cultura.

Se resolver tentar recuperar sua cultura eliminando os ácaros, a solução é colher aproximadamente uma dúzia de vermes adultos e deixa-los de molho em um pouco de água. Os ácaros que possam estar presos nos vermes se afogarão enquanto os vermes sobreviverão sem problemas.

Tire toda a turfa e lave bem o recipiente congelando-o do modo anterior, coloca de novo a turfa limpa e os grindal resgatados. Um pequeno pedaço de pellet será suficiente. Com sorte poderá reiniciar de novo a cultura sem ácaros.

Os ácaros não prejudicarão os grindal e a cultura deverá prosperar como estava anteriormente. Para se manter uma cultura saudável e produtiva devemos evitar a presença destes bichos.

P: Depois de quanto tempo devo reiniciar a cultura?

R: É difícil dizer exatamente com quantos dias devemos reiniciar as culturas, porque depende de muitos fatores. A temperatura e a velocidade de crescimento e reprodução, a quantidade de comida e de vermes, etc. Somente a experiência nos dirá quando é o momento de reiniciar a cultura.

Os dejetos dos vermes, os que vão morrendo e os restos de comida pouco a pouco vão poluindo o substrato, tornando-o inadequado para os novos vermes que vão nascendo, inclusive gerando um mal odor. Notaremos que haverá menor quantidade de vermes e que eles se desenvolverão mais lentamente, além do que todo o substrato estará coberto de ovos.

Terá chegado o momento de lavar tudo muito bem e começar de novo.

P: Qual a temperatura ideal para manter minha cultura de grindal?

R: Bom, os vermes são capazes de se desenvolver em uma boa faixa de temperatura, porém, em temperaturas abaixo de 18 ºC, se desenvolverão menos, o mesmo para temperaturas superiores a 32 ºC. O ideal é mantê-los na temperatura do interior de uma casa, entre 22-26 °C.

O melhor lugar para guardar o recipiente da cultura é um armário escuro, como por exemplo, a mesa do aquário, e devemos procurar não cobrir as janelas de ventilação. Recomendo vigiar diariamente a cultura para que não tenhamos problemas.

P: Descuidei-me da cultura e ela está toda seca, não vejo nenhum verme. Todos morreram? Que posso fazer?

R: É mais provável que todos os adultos tenham morrido, mesmo assim restarão alguns ovos, e é possível que a cultura se reinicie. Umedeça a turfa e coloque um pequeno pedaço de pellet. Se tiver sorte, dos ovos nascerão alguns vermes e você poderá recuperar sua cultura.

P: Tenho um aquário comunitário de 120 litros com ovovivíparos, coridoras e um caracol grande, Qual a quantidade de vermes e de quanto em quanto tempo devo dar-lhes?

R: É difícil de dizer, como explicamos antes, o grindal não tem tanta gordura como pensávamos, por isso, pode ser perfeitamente incluído no cardápio em uma dieta variada. Além disso, é um alimento vivo, que possui enzimas que facilitam a digestão dos peixes que os comem, fazendo com que as proteínas sejam melhor aproveitadas.

Podemos oferecer aos nossos peixes pequenas porções várias vezes por semana, na quantidade mais ou menos suficiente para saciar a um peixe do tamanho de um guppy, já que assim os coridoras também receberão sua parte. Se preferir que os peixes os comam na superfície, devem ser dados aos poucos, com um palito. Assim eles prestarão mais atenção e os alcançarão antes que cheguem ao fundo.

P: Meu Betta splendens está doente com o apodrecimento das nadadeiras e está muito debilitado. O tenho medicado em uma betteira, ele está com as nadadeiras fechadas e não quer comer. Que posso dar-lhe?

R: A solução se chama grindal. Estes vermes são capazes de despertar o apetite dos peixes mais debilitados, e também daqueles que não estão aceitando ração. O alimento vivo (daphnias, larvas de mosquito) chama mais a atenção dos peixes que os alimentos secos, e são uma boa opção para que eles recuperem as forças e o apetite antes de voltar a introduzir de novo uma dieta mais equilibrada.

P: Tenho muitos grindal, já enchi os peixes com eles e os mesmos não os querem mais. Já iniciei uma nova cultura e me sobraram muitos vermes. Que posso fazer com eles?

R: Bom, podes dar umas cêpas àqueles criadores que não o possuem. E depois, existe uma opção que tenho feito ultimamente, congelá-los. Devemos ter em conta que nem sempre se a cultura tem muitos vermes está melhor, ao contrário, há de se ter um termo médio. Quando vemos muitos vermes adultos ao redor dos pellets, devemos retirá-los, já que morreriam sem termos podido aproveitá-los, e contaminar a cultura.

Colocando os Vermes-de-Grindal no blister (embalagem).
Colocando os Vermes-de-Grindal no blister (embalagem).

Deve-se manter um equilíbrio entre adultos e cuidar que não fiquem muitos ao redor dos pellets.

Normalmente uma cultura em seu melhor momento é capaz de produzir praticamente uma colher cheia de vermes a cada dois dias, no que podemos aproveitar para congelá-los.

Eu utilizo embalagens vazias de comprimidos (blisters), uma vez que os tenha utilizado totalmente. São realmente práticos, já que dão a quantidade ideal para um aquário de tamanho médio-grande. Sendo uma quantidade maior, provavelmente os peixes se satisfariam antes de consumi-los todos.

Colhendo com um palito vamos pegando os vermes sem substrato, e vamos enchendo os reservatórios da embalagem.

Não nos preocupemos que os vermes possam escapar, eles não o farão! Como foi dito no início, eles são fotófobos. Quando colocados na luz, tentarão se empelotar no recipiente da embalagem, em lugar de escapar. Coloco-os no congelador imediatamente. Não se preocupe com isto também, já que da mesma forma os vermes tentarão empelotar-se para buscar calor. Quando for usá-los estarão na mesma posição em que foram colocados.

Teremos vermes para vários meses, prontos para ser utilizados quando quisermos, alimentando nossos peixes numerosas vezes. Quando for preciso basta sacar uma pastilha de vermes da embalagem e deixa-la descongelar em uma tampinha.

Uma vez descongelada podemos colocá-la diretamente no aquário ou em porções.

Vermes-de-Grindal congelados em blister (embalagem).
Vermes-de-Grindal congelados em blister (embalagem).

Em relação ao grindal vivo, o congelado tem uma porcentagem de água menor, mas um valor nutritivo similar. A diferença é que os congelados não se movem, são arrastados pela corrente ou caem no fundo. Comparando o comportamento dos peixes ao oferecer o alimento vivo ou congelado, parecem se comportar com mais vivacidade quando os grindal se movem, mas aceitam perfeitamente o grindal descongelado.

P: Tenho muitos vermes e um amigo me pediu uma cêpa. Como posso enviá-los pelo correio?

R: Não há problema em enviar os vermes pelo correio [Nota do editor: No Brasil, não é permitido o transporte de micro-organismos vivos via serviço postal], só deves preparar um recipiente adequado. Por exemplo, uma embalagem de molhos que restaurantes nos dão para levar para casa, um pote de filme fotográfico, um tubo para exame de fezes ou urina, etc. Praticamente qualquer recipiente pequeno que se possa fechar hermeticamente.

Exemplo de cêpa de Vermes-de-Grindal prontos para envio (transporte).
Exemplo de cêpa de Vermes-de-Grindal prontos para envio (transporte).

Existe uma diferença na hora de embalá-los para envio, não devem ter janelas de ventilação, já que por ali poderiam escapar. Por isso, é importante que a turfa que pusermos seja menos molhada que em nossa cultura. O excesso de umidade poderia ser uma das causas da morte dos vermes no trajeto. Coloquemos turfa limpa e uma boa quantidade de vermes.

Podemos enviá-los por encomenda normal, pois podem passar vários dias sem problemas. Se resolvermos colocar um pouco de comida, deve ser mínimo, apenas um pedacinho de pellet e apenas se o substrato não tiver muito úmido, pois a comida o absorveria e estragaria.

Bom, esperamos que tenhamos servido de utilidade para um conhecimento melhor deste alimento vivo, que na verdade é muito fácil de manter e é muito bom para os peixes!


Elena C. “Gaua”

Tradução livre: Paulinho Freitas

Manejo sanitário de peixes ornamentais

Provavelmente provocarei alguma polêmica ao afirmar que o método até hoje utilizado pela grande maioria dos aquaristas/criadores brasileiros, ou seja, a de adaptar o peixe para a água do aquário, não é um método correto. Talvez você esteja no grupo que faça desta forma, no meu entender errada. Vou tentar abaixo provar isso para você. Se escrevi alguma besteira, por favor me corrija.

O saco onde o peixe foi transportado pode ser considerado um ambiente quase que fechado. Mesmo se o peixe não foi alimentado um dia antes do embarque, o processo metabólico do peixe produz amônia como um subproduto, secretado através das guelras e da urina.

Na prática, se nós medirmos o pH da água do saco onde os peixes foram transportados não funciona bem porque os ácidos secretados pelo peixe vão causar a diminuição do pH, e a amônia é menos tóxica com pH menor. Como o peixe respira no saco, o dióxido de carbono é liberado na água e um pouco dele é difundido no ar preso na parte superior do saco.

O dióxido de carbono na água ajuda a formar ácido carbônico. Quanto mais tempo o peixe ficar no saco, mais dióxido de carbono é produzido, deslocando o oxigênio e causando um leve esvaziamento do saco. O peixe então se torna levemente asfixiado.

O peixe se torna sonolento, diminuindo sua consciência. O peixe fica sob estresse e o seu manuseio o debilita causando danos ao seu muco. Qualquer agente patogênico que estivesse presente no aquário original teria facilidade em infectar o peixe, pois o seu sistema imunológico estaria nesse momento comprometido. Também a quantidade de matéria orgânica presente no saco seria propicia ao crescimento de bactérias e parasitas.

Nesse ponto em que o peixe chega na sua casa ele está muito vulnerável à doenças. A água do saco é uma água doente, tóxica.

A doença está na água, nos lados do saco, e na superfície externa do saco também. Se você colocar para flutuar o saco no seu aquário, alguns dos agentes patogênicos que existissem no aquário original poderiam estar sendo introduzidos no seu novo aquário. Agora você abre o saco e deixa ele flutuar. Realmente uma má ideia, pois logo que você abre o saco o dióxido de carbono escapa, e um ar relativamente rico em oxigênio logo entra. O dióxido de carbono rapidamente evapora da água. O pH sobe. A amônia no saco repentinamente se torna altamente tóxica com o nível alto de pH. O peixe fica estressado e o seu sistema imunológico declina. Você então começa a adicionar a água do seu aquário para o saco. Agora você faz com que os níveis de pH e dureza da água do saco comecem a oscilar. Isso causa mais estresse para o peixe. Com isso você força o peixe por uma ou mais horas a ir se adaptando aos parâmetros da água do seu aquário, causando mais estresse ao peixe.

Normalmente leva semanas para um peixe se ajustar aos novos parâmetros de uma água nova, e você o força para que isso ocorra em 1 ou 2 horas e isso não é bom no estado de fraqueza atual do peixe.

Ajustar um peixe para um pH mais alto, maior dureza da água (GH) ou maior valor de temperatura é melhor do que para valores mais baixos. Entretanto como o pH é uma escala logarítmica, um grau de diferença é dez vezes maior. O limite para mudanças de pH é de um grau, mudanças de temperatura é de 1 grau Celsius. Dureza é um pouco mais flexível para mudanças, mas você deve chegar o mais próximo possível. Se a variação da troca for muito grande você corre o risco de colocar o peixe em choque. O parâmetro mais importante a se conseguir é o pH correto.

Por isso é importante saber (perguntar ao vendedor) em que água seu peixe foi criado, se o seu criador utilizava sal nos seus aquários, quais os valores de pH e GH. É importante retornar o peixe a esses valores o mais rápido possível.

Essa teoria acima foi-me passada por um criador alemão que foi meu sócio numa criação de guppies nos anos 70, que dificilmente perdia peixes por manuseio errado. Se eu contasse todas suas técnicas muitos ririam, como, por exemplo, jogar água fervendo num aquário com peixes em choque e imediatamente tirá-los daquela situação, voltando os peixes a nadarem normalmente. Eu presenciei tudo isso, e diversas das técnicas eu posteriormente repeti sozinho com sucesso.

Sei que é difícil pessoas que fazem determinados procedimentos há vários anos aceitarem um novo manejo, por isso falei em criar polêmica, opiniões contraditórias. Do modo como a maioria das pessoas fazem também dá certo, mas os peixes com certeza sofrem mais para se adaptar. O método que eu acho mais correto é: Pedir informações ao fornecedor do peixe sobre os parâmetros da água em que os peixes foram criados/enviados, tais como pH, temperatura, GH (dureza) e salinidade.

Preparar um aquário uma semana antes da chegada do peixe e preparar a água nos mesmos parâmetros das informações que você recebeu do fornecedor dos peixes.

Após a chegada dos peixes, deixe o saco no mesmo ambiente do aquário até a estabilização da temperatura (saco fora do aquário), e não coloque o saco em contato com a água do seu aquário pois o saco pode estar transportando agentes patogênicos.

Adicione um condicionador à água do aquário que proteja o muco do peixe. Isso vai ajudar a defesa contra possíveis doenças.

Coloque formalina, ou outro produto com a mesma função, no seu aquário. A formalina vai evaporar e causar ínfimo dano ao ciclo do nitrogênio do seu aquário.

Nunca coloque peixe novo misturado com seus antigos peixes, pois eles podem passar doenças uns para os outros.

Não coloque água do seu aquário dentro do saco. Assim que o saco é aberto o dióxido de carbono vai escapar, o pH vai subir, e os seus peixes entrarão em choque. Imediatamente após abrir o saco coloque um pouco de neutralizador de amônia no saco e meça os parâmetros da água do saco.

Verifique os parâmetros da água que veio junto com o peixe e compare com os valores informados pelo fornecedor. É esperado que o valor de pH tenha diminuído. Se tiver qualquer dúvida, como por exemplo, se passaram informações incorretas para você quanto a água original dos peixes, ajuste o aquário para os parâmetros da água do saco. Se os parâmetros estão realmente baixos, como pH abaixo de 7, coloque os parâmetros do seu aquário ligeiramente acima.

Se o aquário tem os mesmos parâmetros, jogue fora a água do saco e colocando o peixe numa rede e imediatamente o coloque no aquário. Não contamine a água do seu aquário com a água que veio dentro do saco.

Não alimente o peixe no primeiro dia, e dê pouca comida para ele na primeira semana.

Troque por dia 10% da água do aquário até que o ciclo de nitrogênio seja estabelecido e continue esse procedimento até que a água atinja os mesmos parâmetros dos seus outros aquários.

Procedendo dessa maneira as chances de nada de desagradável acontecer com seu novo peixe estarão aumentadas.

Carlos Beserra (in memoriam)

Procriando Betta splendens

Uma das primeiras dificuldades que criadores de Betta splendens se deparam, é com a reprodução de seus peixes em cativeiro. Não por que esta espécie seja difícil de procriar nestas condições, exista algum segredo, mas sim pela desinformação e despreparo.

O criador não precisa se preocupar em ensinar o peixe a se reproduzir, isto é instintivo e natural. Ele precisa se preocupar em criar as condições ideais para que isto aconteça. Se acercar de cuidados e infra-estrutura.

A primeira providência e talvez a mais crítica de todas é começar a cultivar micro-organismos vivos, que servirão de alimentos para as larvas de Bettas, logo após o nascimento. Sem eles, não devem se atrever a começar o acasalamento, sob pena de ver a ninhada morrer, um peixe após o outro, diante de seus olhos, completamente impotentes.

Hoje você encontra na web tutoriais passo-a-passo e inóculos para cultivar micro-organismos como: vermes-do-vinagre, microvermes, vermes-de-grindall, entre vários outros. Também encontra tutoriais para eclodir cistos de artemias franciscanas (salinas), essenciais para as larvas de Bettas. Todos micro-organismos de fácil manejo, que não ocupam muito espaço e acabam se tornando uma fonte de prazer, da mesma forma que o aquarismo gera.

Alevinos de Betta splendens (Turquesa Melânico), com aproximadamente 60 dias de vida, recebem vermes-do-vinagre.
Alevinos de Betta splendens (Turquesa Melânico), com aproximadamente 60 dias de vida, recebem vermes-do-vinagre.

A segunda providência é conseguir uma caixa plástica pequena, com tampa, com aproximadamente: 30 cm (C) x 20 cm (L) x 10 cm (A) ou um aquário de aproximadamente 20 litros (com tampa). Este será o ambiente para procriação e desenvolvimento das larvas de Bettas até 90 dias de vida, aproximadamente.

Esta caixa (ou aquário) deve ficar instalada num ambiente tranqüilo, onde não haja grande movimentação de pessoas e/ou animais domésticos que possam assustar os peixes e por a perder o acasalamento ou até mesmo a ninhada. Ao menor sinal de perigo, os pais comerão os ovos ou os filhotes e abandonarão o processo (acasalamento ou cuidados com o ninho).

Coloque nesta caixa (ou aquário), uma coluna de água variando entre 5 e 10 cm de altura, nunca mais do que isto. Se os ovos cairem ao fundo, numa profundidade de água maior, podem inviabilizar o desenvolvimento das larvas. Esta água deve ser isenta de cloro e metais pesados, pH estável (na faixa entre 6,8 e 7,4 – ideal: 7,0) e temperatura também estável (na faixa entre 24 e 30 °C – ideal: 27 °C). Providencie um apoio para o ninho-bolha (não obrigatório), que pode ser um pedaço de folha de amendoeira, um pedaço de plástico ou até mesmo um copinho de café descartável, cortado ao meio. Ele pode ser aderido à borda da caixa (ou aquário), com uma fita adesiva (fita crepe, por exemplo). Minha preferência pessoal pela folha de amendoeira é em função de sua propriedade fungicida/bactericida natural (isto vai deixar a água com cor de chá em poucas horas, não se preocupe com isto). Se você escolher um caminho diferente, adicione fungicida industrializado na água, na dosagem recomendada pelo fabricante. Isto fará com que mais ovos vinguem, que não sejam atacados por fungos. Também adicione 1 g de sal-grosso, para cada litro de água.

Providencie abrigos para a fêmea se esconder do macho, caso ele resolva ficar violento demais e sem paciência de esperar a fêmea estar totalmente pronta para o acasalamento. Pode ser: plantas naturais (musgo de java, samambaia d’água, etc – compatíveis com o pH da sua água), seixos (pedras de fundo de rio, arredondadas – sem arestas cortantes) ou tubos de PVC (espalhe 2 ou 3 “cotovelos” pelo fundo). É raro, mas estes abrigos podem servir até ao macho em alguns casos, onde a fêmea possui temperamento indócil. Isto vai reduzir os riscos de perder matrizes por conta acasalamentos tempestuosos.

Você vai precisar de um cilindro transparente e incolor para conter a fêmea durante 4 dias aproximadamente, dentro desta caixa (ou aquário), longe do alcance do macho, mas em seu campo visual a todo momento, para que possa acontecer a corte e para que ele fique estimulado a construir o ninho-bolha. Você pode usar um pet de água mineral transparente e incolor, cortando seu fundo e parte afunilada da boca, produzindo uma peça cilíndrica. Quando chegar o momento adequado, você vai poder levantar levemente este pet, liberando a fêmea para o acasalamento, sem mexer demais com a água, para não desmanchar o ninho-bolha.

Caixa de reprodução preparada para uso, contendo: cilindro para contenção da fêmea, abrigos de PVC, suporte para ninho e fungicida/bactericida natural (folhas de amendoeira).
Caixa de reprodução preparada para uso, contendo: cilindro para contenção da fêmea, abrigos de PVC, suporte para ninho e fungicida/bactericida natural (folhas de amendoeira).

Pronto! Agora você criou a infra-estrutura e o ambiente adequado para que o acasalamento ocorra e a ninhada vinge.

Vamos para a fase do acasalamento dos Bettas… Selecione exemplar macho e fêmea saudáveis, de preferência com linhagens definidas e estabilizadas, para obter filhotes compatíveis com a sua linha de trabalho genético. Mas se você é um principiante e quer apenas aprender este manejo, concentre-se apenas em escolher os peixes que mais lhe agradam esteticamente, que estejam em pleno vigor físico e bem alimentados. Aqui vai uma dica importante: escolha uma fêmea ligeiramente menor que o macho, para facilitar a cópula do casal.

Se você é uma pessoa ocupada, dispõe de pouco tempo, programe a soltura do casal na caixa de cria e desenvolvimento das larvas de Bettas (ou aquário), para dias onde você possa acompanhar, fotografar, se deleitar com este espetáculo da natureza. A procriação deste peixe é magnífica, um show.

Coloque o macho na caixa de cria e desenvolvimento de larvas de Bettas (ou aquário), para que se sinta o dono do território. Ele deve ficar sozinho neste espaço por 2 dias aproximandamente. Decorrido este tempo, introduza a fêmea, contida num cilindro transparente e incolor, afastado das bordas da caixa (ou aquário), de forma a permitir que o macho circule o cilindro, se exibindo para a fêmea, fazer a corte.

Este período de exposição deve durar aproximadamente 4 dias. Ao mesmo tempo que o macho corteja a fêmea, ele deve contruir o ninho-bolha, para receber os ovos da postura da fêmea. Por outro lado, a fêmea recebendo estímulos, começa a produzir ovos. Ao final do quarto dia de “namoro”, levante o cilindro suavemente para não desmanchar o ninho-bolha.

No outro dia, pela manhã, existe uma enorme possibilidade do casal já haver se entendido e dão início ao acasalamento propriamente dito.

Casal de Betta splendens nas preliminares, no processo de acasalamento em cativeiro (Yellow Gold Dragon).
Casal de Betta splendens nas preliminares, no processo de acasalamento em cativeiro (Yellow Gold Dragon).

O macho leva a fêmea para baixo do ninho-bolha e o acasalamento se inicia. Geralmente a fêmea neste momento está totalmente submissa ao macho e procura nadar com a cabeça mais baixa. Ambos procuram se colocar lado a lado, em sentidos opostos e vão se “empurrando”, como se medissem forças. Num determinado momento a fêmea se afasta um pouco e nada em direção ao macho, dando um giro no corpo, nadando de barriga para cima. Ao passar ao lado do macho ele dobra seu corpo, envolvendo a fêmea e lhe dá um apertão (suave), ao mesmo tempo que fecunda os ovos. Ambos dão uma pequena relaxada e caem desmaiados ao fundo aquário. Enquanto a fêmea vai ao fundo, liberando os ovos. O macho, tão logo recupera o controle de seu corpo, passa a recolher os ovos com a boca e vai depositando no ninho-bolha. Este processo pode durar horas, inúmeros abraços ocorrerão, até que os ovos da fêmea se esgotem. Naturalmente ela se afasta, foge do macho e neste momento você deve retirá-la da caixa plástica (ou aquário), sem agitar a água, sem correrias. Geralmente ela fica tão esgotada que fica prostrada e permite ser capturada, sem muito esforço para fugir.

Casal de Betta splendens copulando (White Platinum).
Casal de Betta splendens copulando (White Platinum).

O macho assume o controle da ninhada sozinho. Ele vai melhorando e reparando o ninho-bolha, de acordo com a necessidade.

Macho Betta splendens zelando ninho-bolha/ninhada (White Platinum).
Macho Betta splendens zelando ninho-bolha/ninhada (White Platinum).

No máximo 48 horas após, as larvas nascem e ficam “espetadas” no ninho. Quando caem ao fundo (na vertical), por que são pesadas, estão com o sacos vitelinos ainda cheios, o macho as recolhe na boca e as repõe no ninho-bolha. Tarefa inglória, nascem aproximadamente 300 filhotes. Ele fica a todo momento recolhendo as larvas e as recolocando no ninho-bolha.

Larvas de Betta splendens dentro de ovos fecundados, em processo de eclosão e recém nascidos. Feliz flagrante deste espetáculo da natureza.
Larvas de Betta splendens dentro de ovos fecundados, em processo de eclosão e recém nascidos. Feliz flagrante deste espetáculo da natureza.

Os filhotes, nesta fase da vida, se alimentam do saco vitelino, que aos poucos vão se exaurindo e quando isto acontece eles conseguem nadar na horizontal. Passadas outras 48 horas, desde a eclosão dos ovos, a maioria das larvas já nada na horizontal e o macho está nitidamente exausto. Ao final do dia é chegada a hora de retirar o macho da caixa plástica (ou aquário). Pegue-o com uma rede de tramas largas, para não capturar larvas acidentalmente ou com sua própria mão, com muito cuidado.

No outro dia, pela manhã, as larvas passarão a ser sua responsabilidade e precisam começar a comer. Comer aqueles micro-organismos que você previamente começou a cultivar, se preparando para o nascimento deles.

Coloque uma pedra porosa bem fraquinha nesta caixa de desenvolvimento das larvas (ou aquário), tome o cuidado para mantê-la sempre tampada para manter o ar bem úmido acima da lâmina d’água. Pode retirar o suporte para o ninho, as proteções oferecidas para a fêmea. Se você usou plantas naturais como abrigo, pode deixá-las na caixa (ou aquário).

Comece a alimentar suas larvas de Betta splendens, sempre em pequenas doses, o maior número de vezes possível, durante o período de insolação. Se possível de hora em hora. Se houver sobras, remova-as com o auxílio de uma pipeta ou sifão, com muito cuidado para não sugar larvas.

Varie a dieta das larvas, ofereça basicamente alimentos vivos e pós bem finos. Depois dos 30 dias, já é possível começar a introduzir na dieta as rações industrializadas.

Os próximos 40 a 50 dias de vida das de Bettas são bem críticos. A maioria da ninhada vai demorar este tempo para ter o labirinto formado. Labirinto é por onde os Betta splendens respiram, fora da água. Então evite ficar abrindo a caixa para não dissipar o calor do ar que está acima da lâmina d’água, cuidado com os parâmetros da água (pH e temperatura) e mantenha esta água saudável evitando sobras de comida, por exemplo.

Reprodução de Betta splendens em cativeiro

Em geral os Betta splendens já estão prontos para o acasalamento por volta dos 3 meses de vida, porém é recomendável que isto não aconteça antes dos 5 meses, esperando que todas as características fenotípicas do peixe aflorem. Para decidir com mais assertividade, quais exemplares você deve utilizar nos acasalamentos, exemplares que exibam as melhores características que você deseja trabalhar.

Se reproduzem facilmente e geram proles numerosas (mais de 300 larvas em cada ninhada – nem todas sobrevivem, mas um número expressivo vinga).

O cortejo e o acasalamento oferecem um espetáculo belíssimo e arrebatador de se assistir.

Comumente o macho é colocado num aquário pequeno (+/- 20 litros) com coluna d’água de aproximadamente 10 cm (vide condições ideais da água em “Manejo Básico”), para começar a se sentir dono do território.

Depois de 2 dias, aproximadamente, a fêmea é introduzida no aquário, mas dentro de um vidro transparente, sem fundo, onde é vista, mas não tocada pelo macho.

Fêmea protegida, mas ao alcance visual do macho.
Fêmea protegida, mas ao alcance visual do macho.

O macho imediatamente começa o seu ritual de exibição para a fêmea e passa a construir um ninho com bolhas de ar, na superfície d’água.

Este processo pode durar até 8 dias, em casos extremos. A fêmea se mostra preparada para o acasalamento, quando seu oviduto estiver dilatado, com uma ponta branca, apresentando no corpo listas verticais (nas fêmeas de cor escura isto é visível). Ela dá sinais de submissão ao macho.

Neste momento o macho já está com o ninho totalmente pronto (enorme colchão de bolhas) e é hora de libertar a fêmea (com cuidado para não agitar a água e desmanchar o ninho de bolhas), que deverá ter, a esta altura, um comportamento submisso, se deixando levar para baixo do ninho.

É conveniente providenciar abrigo para a fêmea se proteger, caso o macho se mostre muito violento ou ela ainda não esteja totalmente pronta para o acasalamento. Podem ser: pedras sem arestas, seixos de rio, plantas aquáticas naturais (musgo de java, samanbaia d’água, etc) ou até cotovelos de PVC, como na foto acima.

Os dois ficam algum tempo nas preliminares mas logo acontecerá o primeiro de vários abraços delicados e suaves que o macho dará na fêmea, espremendo-a para liberação dos ovos, fertilizando-os neste instante.

Acasalamento de WP (White Platinum) Macho e WO (White Opaque) Fêmea.
Acasalamento de WP (White Platinum) Macho e WO (White Opaque) Fêmea.

Os ovos, dezenas de cada vez, são expelidos e vão caindo lentamente no fundo do aquário. Geralmente a fêmea fica meio atordoada por alguns instantes e enquanto se recupera, o macho vai coletando em sua boca, ovo por ovo e depois os deposita no colchão de bolhas. Estas rotinas de abraços, posturas, fecundações, coletas, acomodação dos ovos se repetem por várias vêzes.

Concluída a postura, a fêmea é retirada do aquário por que o macho assume a guarda do ninho, se preciso com bastante violência, não permitindo a aproximação da fêmea. No habitat natural ela naturalmente guardaria distância segura do macho, mas confinada no aquário, poderá ser morta.

Pelos próximos 2 (dois) dias, o macho protege e arruma o ninho o tempo todo. Após o nascimento las larvas, por mais 2 (dois) dias ele pega os filhotes que caem do ninho e os recoloca no colchão, até que já possam se virar sozinhos. Neste momento quem é retirado do aquário de procriação é o macho, senão as larvas é que correm perigo de serem devoradas pelo pai. A partir daí você é totalmente responsável pela ninhada, monitorando a qualidade da água, oferecendo alimentos vivos, à princípio, e depois, no momento adequado, por introduzir rações balanceadas na dieta dos filhotes.

A temperatura na criação de peixes ornamentais

Alguns detalhes, na criação de peixes ornamentais podem fazer muita diferença. Quantidade e qualidade do alimento fornecido, qualidade da água, parâmetros da água entre outras coisas. A temperatura, por exemplo, também acaba fazendo total diferença (Fahrenheit/Celsius).

Para tornar mais fácil o entendimento do propósito deste texto, vamos por exemplo tomar como referência o Guppy (Poecilia reticulata) [Nota do editor: O mesmo raciocínio, com as devidas adaptações de manejo específicas para a espécie, se aplica ao Betta splendens]. Sabemos que a faixa de temperatura para o guppy, preferencialmente, deva estar entre os 22 até os 30 ºC. Embora eles possam ultrapassar estes extremos, mas daí já não seria mais o ideal.

Se o guppy suporta perfeitamente uma faixa de temperatura bastante extensa, qual seria a temperatura mais adequada a ser utilizada?

Vamos então analisar as questões que envolvem a manutenção de peixes em temperaturas mais altas bem como em temperaturas mais baixas.

Neste primeiro caso, estariamos mantendo nossos peixes em temperaturas mais próximas ao limite máximo. Isso pode trazer alguns benefícios mas na minha opinião não traz muita vantagem.

Os peixes sendo mantidos em temperaturas mais altas tendem a comer mais, acabam crescendo mais rápido e por conseqüência morrem mais rápido também. Dependendo do tipo de criação, ainda mais quando se trata de guppies, as temperaturas mais altas podem ser excelentes para obter de forma rápida aqueles resultados tão esperados. Ver aquele alevino crescendo rápido e mostrando sua beleza tão cedo que possível pode ser uma brilhante idéia, mas por outro lado, para a saúde do peixe não é nada interessante.

Imagine que, você sempre mantenha a temperatura quase no limite e por um acaso ocorre algum problema de doença onde uma solução ideal seria o aumento da temperatura. E agora? Aumentar o que se já esta no limite?

Já a manutenção de peixes em temperaturas mais baixas tendem a resultar em um crescimento mais lento porém com a diferença de serem mais saudáveis, as células serão resistentes aos radicais livres e as portas de entrada das doenças estarão fechadas, as crias serão menores porém com melhor qualidade.

Esse é o preço que você pagará nesta circunstância. Pois a doença será mais resistente ao tratamento e você não terá como elevar muito a temperatura junto com o remédio que irá curá-lo.

Um outro detalhe que pode acabar passando por despercebido é a questão das trocas de água (TTA e/ou TPA). Imagine que a temperatura da água do aquário esteja por volta dos 39 ºC. Neste caso, para as trocas de água será necessário a utilização de uma água nova com a mesma temperatura ou levemente mais quente. Assim se a temperatura da água do aquário for bem mais amena, será muito mais fácil realizar esta tarefa e os peixes não sentirão nenhum choque térmico. Aliás, muito ao contrário, ao fornecer uma água levemente mais quente eles ficarão até mais ativos e não haverá o risco de problemas.

Uma sugestão bastante interessante consiste em manter a temperatura mais alta nos primeiros 30 dias de vida dos alevinos. Isso acelera o metabolismo fazendo com que tenham um crescimento mais rápido. Passada esta fase, você poderá diminuir de forma gradativa a temperatura com o propósito de retardar o processo de crescimento e envelhecimento. A manutenção dos peixes em temperaturas mais baixas não tem efeito nocivo sobre estes. Apenas iremos reduzir o metabolismo destes e proporcionar uma vida mais longa.

Outra sugestão é a de aumentar a temperatura do aquário que esteja servindo de maternidade. Assim você poderá diminuir o tempo de gestação da fêmea.

Uma das mais importantes questões em relação a manutenção de peixes em temperaturas mais altas que muitas vezes acaba sendo esquecida é em relação a quantidade de oxigênio dissolvido. Quanto mais quente a água menos oxigênio ela contém. Dependendo do caso, faz-se até necessário oxigenação auxiliar, de preferência com o uso de pedra porosa bem fina. Lembre-se que a disponibilidade de oxigênio dissolvido regula o apetite dos peixes.

A temperatura interfere em outros parâmetros como a salinidade, o pH, oxigênio dissolvido, na toxidade de elementos ou substâncias, etc.

Também, em geral, à medida que a temperatura aumenta, de 0 a 30 °C, a viscosidade, tensão superficial, compressibilidade, calor específico, constante de ionização e calor latente de vaporização diminuem, enquanto que a condutividade térmica e a pressão de vapor aumentam a solubilidade com a elevação da temperatura.

Para finalizar, veja abaixo a tabela de leitura para amônia tóxica (parcial) e observe que o resultado sofre influência de acordo com a temperatura.

Tabela de leitura do teor de NH (Amônia Tóxica)
pH
Temp. °C
Concentração de Amônia
Total em ppm
0,25
0,50
1,00
2,00
3,50
6,50
6,6
22
0,001
0,001
0,002
0,004
0,006
0,012
25
0,001
0,001
0,002
0,005
0,008
0,014
28
0,001
0,001
0,003
0,006
0,011
0,020
6,8
22
0,001
0,001
0,003
0,006
0,011
0,020
25
0,001
0,002
0,004
0,007
0,013
0,023
28
0,001
0,002
0,005
0,009
0,016
0,029
7,0
22
0,001
0,003
0,005
0,009
0,016
0,029
25
0,001
0,003
0,006
0,011
0,020
0,037
28
0,002
0,003
0,007
0,014
0,025
0,044
7,2
22
0,002
0,004
0,007
0,014
0,025
0,047
25
0,002
0,004
0,009
0,018
0,032
0,059
28
0,003
0,006
0,011
0,022
0,039
0,073
7,4
22
0,003
0,006
0,011
0,023
0,040
0,074
25
0,004
0,007
0,014
0,028
0,049
0,092
28
0,004
0,009
0,017
0,034
0,060
0,112

 

John Klaus Kanenberg
Analista de sistemas, aquarista hobbysta desde 2010. Interessado em aquariofilia dulcícola. Mantenedor do Blog Aquarismo Ornamental e owner do Grupo Aquarismo Ornamental.