Procriando Betta splendens

Uma das primeiras dificuldades que criadores de Betta splendens se deparam, é com a reprodução de seus peixes em cativeiro. Não por que esta espécie seja difícil de procriar nestas condições, exista algum segredo, mas sim pela desinformação e despreparo.

O criador não precisa se preocupar em ensinar o peixe a se reproduzir, isto é instintivo e natural. Ele precisa se preocupar em criar as condições ideais para que isto aconteça. Se acercar de cuidados e infra-estrutura.

A primeira providência e talvez a mais crítica de todas é começar a cultivar micro-organismos vivos, que servirão de alimentos para as larvas de Bettas, logo após o nascimento. Sem eles, não devem se atrever a começar o acasalamento, sob pena de ver a ninhada morrer, um peixe após o outro, diante de seus olhos, completamente impotentes.

Hoje você encontra na web tutoriais passo-a-passo e inóculos para cultivar micro-organismos como: vermes-do-vinagre, microvermes, vermes-de-grindall, entre vários outros. Também encontra tutoriais para eclodir cistos de artemias franciscanas (salinas), essenciais para as larvas de Bettas. Todos micro-organismos de fácil manejo, que não ocupam muito espaço e acabam se tornando uma fonte de prazer, da mesma forma que o aquarismo gera.

Alevinos de Betta splendens (Turquesa Melânico), com aproximadamente 60 dias de vida, recebem vermes-do-vinagre.
Alevinos de Betta splendens (Turquesa Melânico), com aproximadamente 60 dias de vida, recebem vermes-do-vinagre.

A segunda providência é conseguir uma caixa plástica pequena, com tampa, com aproximadamente: 30 cm (C) x 20 cm (L) x 10 cm (A) ou um aquário de aproximadamente 20 litros (com tampa). Este será o ambiente para procriação e desenvolvimento das larvas de Bettas até 90 dias de vida, aproximadamente.

Esta caixa (ou aquário) deve ficar instalada num ambiente tranqüilo, onde não haja grande movimentação de pessoas e/ou animais domésticos que possam assustar os peixes e por a perder o acasalamento ou até mesmo a ninhada. Ao menor sinal de perigo, os pais comerão os ovos ou os filhotes e abandonarão o processo (acasalamento ou cuidados com o ninho).

Coloque nesta caixa (ou aquário), uma coluna de água variando entre 5 e 10 cm de altura, nunca mais do que isto. Se os ovos cairem ao fundo, numa profundidade de água maior, podem inviabilizar o desenvolvimento das larvas. Esta água deve ser isenta de cloro e metais pesados, pH estável (na faixa entre 6,8 e 7,4 – ideal: 7,0) e temperatura também estável (na faixa entre 24 e 30 °C – ideal: 27 °C). Providencie um apoio para o ninho-bolha (não obrigatório), que pode ser um pedaço de folha de amendoeira, um pedaço de plástico ou até mesmo um copinho de café descartável, cortado ao meio. Ele pode ser aderido à borda da caixa (ou aquário), com uma fita adesiva (fita crepe, por exemplo). Minha preferência pessoal pela folha de amendoeira é em função de sua propriedade fungicida/bactericida natural (isto vai deixar a água com cor de chá em poucas horas, não se preocupe com isto). Se você escolher um caminho diferente, adicione fungicida industrializado na água, na dosagem recomendada pelo fabricante. Isto fará com que mais ovos vinguem, que não sejam atacados por fungos. Também adicione 1 g de sal-grosso, para cada litro de água.

Providencie abrigos para a fêmea se esconder do macho, caso ele resolva ficar violento demais e sem paciência de esperar a fêmea estar totalmente pronta para o acasalamento. Pode ser: plantas naturais (musgo de java, samambaia d’água, etc – compatíveis com o pH da sua água), seixos (pedras de fundo de rio, arredondadas – sem arestas cortantes) ou tubos de PVC (espalhe 2 ou 3 “cotovelos” pelo fundo). É raro, mas estes abrigos podem servir até ao macho em alguns casos, onde a fêmea possui temperamento indócil. Isto vai reduzir os riscos de perder matrizes por conta acasalamentos tempestuosos.

Você vai precisar de um cilindro transparente e incolor para conter a fêmea durante 4 dias aproximadamente, dentro desta caixa (ou aquário), longe do alcance do macho, mas em seu campo visual a todo momento, para que possa acontecer a corte e para que ele fique estimulado a construir o ninho-bolha. Você pode usar um pet de água mineral transparente e incolor, cortando seu fundo e parte afunilada da boca, produzindo uma peça cilíndrica. Quando chegar o momento adequado, você vai poder levantar levemente este pet, liberando a fêmea para o acasalamento, sem mexer demais com a água, para não desmanchar o ninho-bolha.

Caixa de reprodução preparada para uso, contendo: cilindro para contenção da fêmea, abrigos de PVC, suporte para ninho e fungicida/bactericida natural (folhas de amendoeira).
Caixa de reprodução preparada para uso, contendo: cilindro para contenção da fêmea, abrigos de PVC, suporte para ninho e fungicida/bactericida natural (folhas de amendoeira).

Pronto! Agora você criou a infra-estrutura e o ambiente adequado para que o acasalamento ocorra e a ninhada vinge.

Vamos para a fase do acasalamento dos Bettas… Selecione exemplar macho e fêmea saudáveis, de preferência com linhagens definidas e estabilizadas, para obter filhotes compatíveis com a sua linha de trabalho genético. Mas se você é um principiante e quer apenas aprender este manejo, concentre-se apenas em escolher os peixes que mais lhe agradam esteticamente, que estejam em pleno vigor físico e bem alimentados. Aqui vai uma dica importante: escolha uma fêmea ligeiramente menor que o macho, para facilitar a cópula do casal.

Se você é uma pessoa ocupada, dispõe de pouco tempo, programe a soltura do casal na caixa de cria e desenvolvimento das larvas de Bettas (ou aquário), para dias onde você possa acompanhar, fotografar, se deleitar com este espetáculo da natureza. A procriação deste peixe é magnífica, um show.

Coloque o macho na caixa de cria e desenvolvimento de larvas de Bettas (ou aquário), para que se sinta o dono do território. Ele deve ficar sozinho neste espaço por 2 dias aproximandamente. Decorrido este tempo, introduza a fêmea, contida num cilindro transparente e incolor, afastado das bordas da caixa (ou aquário), de forma a permitir que o macho circule o cilindro, se exibindo para a fêmea, fazer a corte.

Este período de exposição deve durar aproximadamente 4 dias. Ao mesmo tempo que o macho corteja a fêmea, ele deve contruir o ninho-bolha, para receber os ovos da postura da fêmea. Por outro lado, a fêmea recebendo estímulos, começa a produzir ovos. Ao final do quarto dia de “namoro”, levante o cilindro suavemente para não desmanchar o ninho-bolha.

No outro dia, pela manhã, existe uma enorme possibilidade do casal já haver se entendido e dão início ao acasalamento propriamente dito.

Casal de Betta splendens nas preliminares, no processo de acasalamento em cativeiro (Yellow Gold Dragon).
Casal de Betta splendens nas preliminares, no processo de acasalamento em cativeiro (Yellow Gold Dragon).

O macho leva a fêmea para baixo do ninho-bolha e o acasalamento se inicia. Geralmente a fêmea neste momento está totalmente submissa ao macho e procura nadar com a cabeça mais baixa. Ambos procuram se colocar lado a lado, em sentidos opostos e vão se “empurrando”, como se medissem forças. Num determinado momento a fêmea se afasta um pouco e nada em direção ao macho, dando um giro no corpo, nadando de barriga para cima. Ao passar ao lado do macho ele dobra seu corpo, envolvendo a fêmea e lhe dá um apertão (suave), ao mesmo tempo que fecunda os ovos. Ambos dão uma pequena relaxada e caem desmaiados ao fundo aquário. Enquanto a fêmea vai ao fundo, liberando os ovos. O macho, tão logo recupera o controle de seu corpo, passa a recolher os ovos com a boca e vai depositando no ninho-bolha. Este processo pode durar horas, inúmeros abraços ocorrerão, até que os ovos da fêmea se esgotem. Naturalmente ela se afasta, foge do macho e neste momento você deve retirá-la da caixa plástica (ou aquário), sem agitar a água, sem correrias. Geralmente ela fica tão esgotada que fica prostrada e permite ser capturada, sem muito esforço para fugir.

Casal de Betta splendens copulando (White Platinum).
Casal de Betta splendens copulando (White Platinum).

O macho assume o controle da ninhada sozinho. Ele vai melhorando e reparando o ninho-bolha, de acordo com a necessidade.

Macho Betta splendens zelando ninho-bolha/ninhada (White Platinum).
Macho Betta splendens zelando ninho-bolha/ninhada (White Platinum).

No máximo 48 horas após, as larvas nascem e ficam “espetadas” no ninho. Quando caem ao fundo (na vertical), por que são pesadas, estão com o sacos vitelinos ainda cheios, o macho as recolhe na boca e as repõe no ninho-bolha. Tarefa inglória, nascem aproximadamente 300 filhotes. Ele fica a todo momento recolhendo as larvas e as recolocando no ninho-bolha.

Larvas de Betta splendens dentro de ovos fecundados, em processo de eclosão e recém nascidos. Feliz flagrante deste espetáculo da natureza.
Larvas de Betta splendens dentro de ovos fecundados, em processo de eclosão e recém nascidos. Feliz flagrante deste espetáculo da natureza.

Os filhotes, nesta fase da vida, se alimentam do saco vitelino, que aos poucos vão se exaurindo e quando isto acontece eles conseguem nadar na horizontal. Passadas outras 48 horas, desde a eclosão dos ovos, a maioria das larvas já nada na horizontal e o macho está nitidamente exausto. Ao final do dia é chegada a hora de retirar o macho da caixa plástica (ou aquário). Pegue-o com uma rede de tramas largas, para não capturar larvas acidentalmente ou com sua própria mão, com muito cuidado.

No outro dia, pela manhã, as larvas passarão a ser sua responsabilidade e precisam começar a comer. Comer aqueles micro-organismos que você previamente começou a cultivar, se preparando para o nascimento deles.

Coloque uma pedra porosa bem fraquinha nesta caixa de desenvolvimento das larvas (ou aquário), tome o cuidado para mantê-la sempre tampada para manter o ar bem úmido acima da lâmina d’água. Pode retirar o suporte para o ninho, as proteções oferecidas para a fêmea. Se você usou plantas naturais como abrigo, pode deixá-las na caixa (ou aquário).

Comece a alimentar suas larvas de Betta splendens, sempre em pequenas doses, o maior número de vezes possível, durante o período de insolação. Se possível de hora em hora. Se houver sobras, remova-as com o auxílio de uma pipeta ou sifão, com muito cuidado para não sugar larvas.

Varie a dieta das larvas, ofereça basicamente alimentos vivos e pós bem finos. Depois dos 30 dias, já é possível começar a introduzir na dieta as rações industrializadas.

Os próximos 40 a 50 dias de vida das de Bettas são bem críticos. A maioria da ninhada vai demorar este tempo para ter o labirinto formado. Labirinto é por onde os Betta splendens respiram, fora da água. Então evite ficar abrindo a caixa para não dissipar o calor do ar que está acima da lâmina d’água, cuidado com os parâmetros da água (pH e temperatura) e mantenha esta água saudável evitando sobras de comida, por exemplo.

Reprodução de Betta splendens em cativeiro

Em geral os Betta splendens já estão prontos para o acasalamento por volta dos 3 meses de vida, porém é recomendável que isto não aconteça antes dos 5 meses, esperando que todas as características fenotípicas do peixe aflorem. Para decidir com mais assertividade, quais exemplares você deve utilizar nos acasalamentos, exemplares que exibam as melhores características que você deseja trabalhar.

Se reproduzem facilmente e geram proles numerosas (mais de 300 larvas em cada ninhada – nem todas sobrevivem, mas um número expressivo vinga).

O cortejo e o acasalamento oferecem um espetáculo belíssimo e arrebatador de se assistir.

Comumente o macho é colocado num aquário pequeno (+/- 20 litros) com coluna d’água de aproximadamente 10 cm (vide condições ideais da água em “Manejo Básico”), para começar a se sentir dono do território.

Depois de 2 dias, aproximadamente, a fêmea é introduzida no aquário, mas dentro de um vidro transparente, sem fundo, onde é vista, mas não tocada pelo macho.

Fêmea protegida, mas ao alcance visual do macho.
Fêmea protegida, mas ao alcance visual do macho.

O macho imediatamente começa o seu ritual de exibição para a fêmea e passa a construir um ninho com bolhas de ar, na superfície d’água.

Este processo pode durar até 8 dias, em casos extremos. A fêmea se mostra preparada para o acasalamento, quando seu oviduto estiver dilatado, com uma ponta branca, apresentando no corpo listas verticais (nas fêmeas de cor escura isto é visível). Ela dá sinais de submissão ao macho.

Neste momento o macho já está com o ninho totalmente pronto (enorme colchão de bolhas) e é hora de libertar a fêmea (com cuidado para não agitar a água e desmanchar o ninho de bolhas), que deverá ter, a esta altura, um comportamento submisso, se deixando levar para baixo do ninho.

É conveniente providenciar abrigo para a fêmea se proteger, caso o macho se mostre muito violento ou ela ainda não esteja totalmente pronta para o acasalamento. Podem ser: pedras sem arestas, seixos de rio, plantas aquáticas naturais (musgo de java, samanbaia d’água, etc) ou até cotovelos de PVC, como na foto acima.

Os dois ficam algum tempo nas preliminares mas logo acontecerá o primeiro de vários abraços delicados e suaves que o macho dará na fêmea, espremendo-a para liberação dos ovos, fertilizando-os neste instante.

Acasalamento de WP (White Platinum) Macho e WO (White Opaque) Fêmea.
Acasalamento de WP (White Platinum) Macho e WO (White Opaque) Fêmea.

Os ovos, dezenas de cada vez, são expelidos e vão caindo lentamente no fundo do aquário. Geralmente a fêmea fica meio atordoada por alguns instantes e enquanto se recupera, o macho vai coletando em sua boca, ovo por ovo e depois os deposita no colchão de bolhas. Estas rotinas de abraços, posturas, fecundações, coletas, acomodação dos ovos se repetem por várias vêzes.

Concluída a postura, a fêmea é retirada do aquário por que o macho assume a guarda do ninho, se preciso com bastante violência, não permitindo a aproximação da fêmea. No habitat natural ela naturalmente guardaria distância segura do macho, mas confinada no aquário, poderá ser morta.

Pelos próximos 2 (dois) dias, o macho protege e arruma o ninho o tempo todo. Após o nascimento las larvas, por mais 2 (dois) dias ele pega os filhotes que caem do ninho e os recoloca no colchão, até que já possam se virar sozinhos. Neste momento quem é retirado do aquário de procriação é o macho, senão as larvas é que correm perigo de serem devoradas pelo pai. A partir daí você é totalmente responsável pela ninhada, monitorando a qualidade da água, oferecendo alimentos vivos, à princípio, e depois, no momento adequado, por introduzir rações balanceadas na dieta dos filhotes.

Estações secas e chuvosas no aquário

ATENÇÃO! Este artigo nos ajuda a perceber, entender e até simular sinais da natureza para estimular reprodução de peixes em cativeiro, várias técnicas e considerações se aplicam também à reprodução da espécie Betta splendens em ambiente de confinamento.

Muitos peixes tropicais se reproduzem sazonalmente devido a mudanças de seus ambientes naturais. Na maioria das vezes eles o fazem no começo da estação chuvosa, porque ela trás um aumento do suprimento de comida e maior possibilidade dos alevinos encontrarem alimento e abrigo.

Recriar a maioria das mudanças possíveis que ocorrem durante as estações chuvosas pode ser um caminho para se obter a desova das espécies que, de outra forma, seriam muito difíceis de procriar. Algumas espécies são tão fáceis de procriar que não se faz necessário usar os métodos descritos abaixo, mas certas espécies precisam deles. Primeiro tente as regras básicas de reprodução mas se não conseguir, tente algumas das sugestões abaixo

A seguir uma compilação de maneiras de conseguir reprodução de peixes vindos de áreas onde as estações secas e chuvosas são marcantes como o Amazonas e o Rio Negro, na América do Sul. Os dados e idéias foram colhidas de diversas fontes incluindo livros, amigos, a internet e baseados também na minha própria experiência acasalando peixes-gato e Tetras sul-americanos.

A simulação das estações secas e chuvosas dura cerca de quatro semanas. Usando métodos simples alguns conseguiram reproduzir Panaque nigrolineatusSturisoma sp., e comedores de algas Siameses, que são considerados peixes muito difíceis de reproduzir.

Gatilhos reprodutores da natureza

Relacionadas abaixo estão as diferentes mudanças que podem ocorrer durante o início das estações chuvosas e que podem induzir as espécies a se reproduzirem. Elas não estão dispostas em qualquer ordem nem se sabe ao certo quais delas devem ocorrer simultaneamente para que ajudem a reprodução.

1Baixa pressão: Após um longo período de pressão alta ao final da estação seca, a pressão barométrica cai, com a chegada das primeiras chuvas
2Aumento da oferta de comida: Depois de um período de inanição após a estação seca, a oferta de comida aumenta drasticamente. Algumas espécies ficam esqueléticas pois em alguns casos podem ficar cerca de um mês sem comida. Certas espécies comem até detritos de outros peixes para se nutrir.
3Diversificação de alimentos: Durante a estação seca a comida escassa se resume a larvas e mosquitos que afundam, além de restos de plantas. Quando caem as chuvas, caem também mosquitos e outros insetos sobre a superfície da água, pólem de flores, sementes de frutas, larvas frescas e ovos, além de alevinos de outras espécies que começaram a reproduzir precocimente.
4Aumento no fluxo de água: O resultado das chuvas é o auemnto da vazão de água. O peixe se torna mais ativo. Algumas espécies migram contra a correnteza para atingir águas mais calmas e mais apropriadas para a desova.
5Aumento nos níveis de oxigênio: Chuva caindo na superfície da água aumenta o teor de oxigênio dissolvido. Aumenta na vazão também faz o teor de oxigênio subir. Em muitos casos o nível elevado de oxigênio é a condição que os ovos e os alevinos precisam, em seus primeiros dias.
6Diluição das substâncias dissolvidas na água: Quanto mais duradoura for a estação seca, mais sais, substâncias húmicas e material orgânico estarão concentrados na pouca água que sobra. Quando a chuva começa, a concentração dessas substâncias decresce, por causa da diluição. O rio, a correnteza, etc., vai se diluindo com a água da chuva que tem dureza igual a zero. Isto abaixa a dureza e muitas vezes o pH.
7Mudança na temperatura da água: A temperatura da água costuma cair quando o tempo fica nublado ou com a água fria das chuvas. Nos terrenos elevados as variações térmicas costumam ser maiores que em áreas de terras baixas (10°C comparado a alguns graus).
8Variação na profundidade da água: O aumento no volume de água causa um aumento na profundidade do rio. A pressão no fundo aumenta e o peixe ganha um espaço vertical maior para nadar. A distância para a superfície será maior para aquelas espécies que vão à superfície pegar ar.
9Maior disponibilidade de locais para a desova: Ao final da estação seca só existe água fluindo no meio do rio ou córrego e existe muito poucas plantas ou abrigos. Com o aumento na profundidade da água, os peixes podem encontrar novas áreas alagadas com plantas, raízes, troncos e sombras, onde podem esconder seus ovos e dar aos alevinos uma maior chance de se esconder.
10Mudanças na iluminação: A intensidade de luz e sua duração diminui por conta das nuvens em conexão com as chuvas. Algumas partes do dia podem se tornar muito escuras durante chuvas intensas. Com mais nuvens no céu a claridade da manhã demora mais a acontecer e o entardecer acontece precocemente.

Até o ângulo de incidência da luz varia durante o ano. Quanto mais afastado do equador, maior será a variação.

Note que certas espécies preferem total escuridão para desovar (elas habitam vegetação densa entre raízes e águas escuras).
11Aumento nos níveis de fitoplancton: Quando chega a estação chuvosa isto acontece em certas águas. Isto também é um sinal para peixes adultos desovarem pois há alimento para os pequenos filhotes por vir.
12Época certa do ano: Certas espécies possuem um relógio biológico muito forte, que está conectado à mudança das estações secas e chuvosas naquela região.
13Desovas de outras espécies: Hormônios de outros peixes na água podem ser um gatilho para a desova de certas espécies.
14Sons: Até mesmo o cair da chuva contra a superfície da água pode ser um sinal para a desova. Talvez também o som dos trovões.

Como nós simulamos isso no aquário?

Abaixo estão sugestões de como simular os mais variados estímulos citados acima. Quais escolher dependerá das espécies que se pretende obter a desova. Certas espéices podem precisar de apenas algumas, como boa alimentação e trocas de água por outra de temperatura mais baixa, enquanto outras precisam da maioria dos itens listados acima. A lista a seguir segue a mesma ordem que a de cima:

1Baixa pressão: Existem muitos relatos de pessoas que tiveram desovas em seus aquários durante períodos de baixa pressão. Entretanto, essas mesmas espécies poderiam ter desovado em períodos de alta pressão se as circunstâncias corretas estivessem presentes. Baixa pressão é impossível de simular em um aquário, então mantenha os olhos na previsão do tempo e comece a simular um tempo chuvoso durante esse período de baixa pressão.
2Aumento da oferta de comida: Se os peixes estão em boas condições quando em período de desova, eles podem ficar sem comida por várias semanas. Quando o alimento começa novamente a ficar fácil isso pode despertar seu instinto para desovar.
3Diversificação de alimentos: Trocar de alimentação pode disparar o gatilho para a desova. Em algumas águas Sul Americanas a quantidade de larvas de mosquito aumenta (especialmente larvas brancas) no começo da estação chuvosa. Se você não costuma oferecer tais larvas regularmente e resolve fazê-lo durante esta simulação de estação chuvosa isso poderá estimular a mudança de comportamento.
4Aumento no fluxo de água: Facilmente equacionável com diferentes tipos de bombas e filtros. Certas espécies desovam perto de locais com grande movimentação de água, como por exemplo em frente à saída do filtro.
5Aumento nos níveis de oxigênio: Use uma pedra porosa e compressor ou então deixe um filtro fazendo “splash” na superfície para aumentar o teor de oxigênio.
6Diluição das substâncias dissolvidas na água: Use turfa e sais como CaCO3, MgSO4 ou fertilizantes para manter a água com altas concentrações tanto de sais quanto de substâncias orgânicas durante esta simulação de estação seca. Depois, dilua com água o mais mole quanto possível quando a estação chuvosa começar (pode-se aqui usar água de Osmose Reversa).
7Mudança na temperatura da água: Use aquecedores submersos para manter a temperatura alta durante o período seco. Note que certas espécies não suportam temperaturas nem tão altas nem tão baixas e que também certas espécies preferem temperaturas mais elevadas para desovar. Tais espécies talvez procurem por grama alagada para desovar, onde o sol aquece o espelho d’água.

Para baixar a temperatura, alguns apenas diminuem a regulagem dos termostatos. Para resfriar mais ainda, alguns ventilam o local do aquário ou colocam blocos de gelo no aquário.
8Variação da profundidade da água: Baixe o nível da água para 25% do normal durante a estação seca. Eleve para o nível normal em alguns dias quando a estação chuvosa começa.
9Maior disponibilidade de locais para desova: Troque as plantas e decoração. Caso não use cascalho, plante algumas plantas em potes e faça cavernas com raízes para tornar o local aconchegante para a desova.
10Mudanças na iluminação:
♦ Intensidade luminosa: possuindo diversas lâmpadas no aquário se torna fácil manter apenas uma ligada ou até mesmo usar apenas a luz natural de sua casa. Outra técnica seria cobrir a tampa de vidro de seu aquário com folhas de papel.
♦ Duração do fotoperíodo: próximo ao equador, a duração de luz costuma ser de 12 a 14 horas ao longo do ano. À medida que nos afastamos do equador aumenta a diferença de tempo entre as estações. Diminua o tempo em 1 a 2 horas tanto de manhã como ao anoitecer. Use um timer.
♦ Ângulo de incidência da luz: difícil de simular no aquário.
11Aumento nos níveis de fitoplancton: Não é fácil de simular no aquário, mas pode-se tentar infusórios. Mesmo que isso não estimule a desova, pode ser uma boa primeira alimentação para certas espécies com alevinos bem pequenos.
12Época certa do ano: Peixes coletados na natureza podem necessitar que esteja na estação chuvosa na área de onde eles são capturados, para que desovem em nossos aquários. Descubra de onde a espécie é nativa e quando ocorre a estação chuvosa lá.

Peixes reproduzidos em cativeiro geralmente possuem seu senso de quando é a estação chuvosa e quando as chuvas estão menos intensas e as vezes podem ser reproduzidos ao longo do ano todo. O mesmo pode ser verdade para peixes que foram coletados ainda jovens. Se eles não vivenciaram uma estação chuvosa então pode ser mais fácil deles desovarem numa época distinta daquela em que eles normalmente desovariam na natureza.
13Desovas de outras espécies: Deixe uma outra espécie de desova mais fácil desovar no aquário em que você quer que determinada espécie desove. Isto funciona como um tratamento hormonal natural. Uma alternativa seria fazer a primeira espécie desovar num outro aquário e usar parte de sua água no aquário no qual estamos tentando a desova.
14Sons: Adicione água a seu aquário através de uma placa plástica contendo diversos pequenos orifícios. As gotas que cairão através dos furos irão simular os pingos de chuva caindo sobre a superfície da água.

Outras idéias que são usadas pelos criadores são:

Filtrar a água sobre calcário durante a estação chuvosa. Isto faz a água ficar mais dura, mas pode ser a mudança na química da água que faz com que certas espécies desovem.
Mova os peixes bem alimentados de um tanque com condições não ideais (sem substrato, parâmetros incorretos, muitos peixes atrapalhando, etc) para outro com as condições corretas para a desova. A mudança em si associada a todas as modificações que ocorreram podem levar o peixe a desovar (técnica usada na reprodução de vários Tetras).

Sugestões para um esquema de desova:

Preparações e dicas: Escolha um aquário do tamanho apropriado para a espécie em questão. O aquário precisa ter o volume que seja suficiente quando apenas 25% dele estiver com água. O principal problema é manter o nível de oxigênio alto o suficiente sem um filtro ou pedra porosa. Construa tocas e coloque algumas plantas. O aquário deverá simular o final da estação seca.

Substrato: Existe debate entre usar ou não. O mais comum é ter algum tipo de cascalho, mas turfa ou perlon pode ser usado. A introdução desse substrato de fundo ajuda a aumentar a superfície para que bactérias benéficas se multipliquem.

Vantagens de usar substrato:

♦ Algumas espécies preferem chão escuro, outras pálido, como certas Corydoras;
♦ Muitas espécies gostam de fuçar o fundo à procura de comida;
♦ Corre-se menos riscos de fungos atacarem pequenos alevinos de peixes de fundo;
♦ Ovos que caiam no substrato são mais difíceis dos pais acharem e comerem;
♦ Não existem reflexos vindos do chão.

Desvantagens de seu uso:

♦ Difícil verificar se toda comida foi consumida;
♦ Difícil de limpar sem sifonar (e correr o risco de sugar os ovos);
♦ Se você não sabe como o peixe desova então terá que montar o aquário com um pouco de cada coisa. As plantas podem ser variadas com plantas de folhas grandes (Samambaia de Java, Echinodorus, Anubias e Hydrocotyle), folhas delicadas (Myriophyllum, Cabomba e Egeria), estreitas (Valisneria) e outras (Musgo de Java, Najas). Plantas grandes podem ser plantadas em potes para fácil remoção. Use raízes, canos de PVC de diversos diâmetros, plantas plásticas. Todos esses acessórios devem ser devidamente desinfetados e livres de caramujos.
O tanque deve ser preechido com água vinda do tanque onde o peixe estava antes e ter a mesma temperatura. Certifique-se de que a água foi trocada recentemente (baixos teores de nitritos e nitratos).
Um filtro de vazão controlável deve ser usado.
A cobertura de lâmpadas deve ser capaz de oferecer um brilho intenso de luz.
O aquecedor deverá ser disposto próximo ao chão do aquário, porém fácil de ajustar. Certifique-se de que este aquecedor possa ser totalmente submerso.
Cubra as laterais com papel para evitar assustar os peixes enquanto se move pelo cômodo.
Não alimente com larvas de mosquito antes da tentativa de desova.
Certifique-se de ter turfa (a preta é preferível), cones de desova, folhas, extrator de turfa (carvão ativo/Purigen). Certifique-se de que a Dureza em Carbonatos esteja entre 2 e 3 KH para evitar surpresas de quedas de pH quando a turfa for colocada.
Escolha animais maduros e saudáveis na quantidade apropriada de machos e fêmeas dependendo da espécie e os coloque no tanque de desova. Eles devem ser bem alimentados para que suportem as duas semanas de estação seca.

Esquema de simulação

Fim da estação chuvosa: Ainda alguma comida e o nível das águas ainda não começou a cair.

Dia 01Alimente cerca de 1/10 do normal. As luzes devem agora ter um nível entre ensolarado e nublado por cerca de 14 horas. Filtro com vazão máxima.
Dia 02Baixe o nível da água em 10%, alimente 1/10 do normal. Coloque algum carbonato de cálcio e sulfato de magnésio para aumentar tanto a Dureza Total quanto a Dureza em Carbonatos 1° cada (uma alternativa seria tirar 20% da água e adicionar metade dessa quantidade de água Dura, se estiver disponível). Coloque uma dose de fertilizante para plantas conforme instrução do produto (isso oferece mais sais para a água).
Dia 03Baixe o nível da água em 10% e não alimente. Eleve a temperatura um grau.
Dia 04Baixe o nível da água em 10%. Aumente o GH e o KH em 1° cada. Alimente 1/10 do normal. Coloque turfa e cones de desova. Taninos serão liberados nos próximos dias.

Início da estação seca: Oferta de alimento diminue e cessa. Nível da água e corrente diminuem. Temperatura da água restante aumenta.

Dia 05Baixe o nível da água em 10%. Não alimente. Aumente a temperatura cerca de um grau. Diminua a vazão do filtro. Verifique o pH.
Dia 06Baixe o nível da água em 10%, alimente 1/10 do normal.
Dia 07Baixe o nível da água em 10%. Aumente o GH e o KH em 1° cada. Pare de alimentar até o dia 21. Aumente a temperatura cerca de um grau.
Dia 08Baixe o nível da água em 10%.
Dia 09Baixe o nível da água em 10%. Aumente o GH e o KH em 1° cada. Desligue pedras porosas ou bombas de circulação. Retire o filtro para limpeza. Deixe o filtro rodando em outro aquário para manter vivas as bactérias benéficas por uma semana, quando este filtro será novamente usado.
Dia 10Baixe o nível da água em 10%. A essa altura o nível da água deve estar em 25% da capacidade total do aquário. A temperatura deve estar próxima dos 28°C. Coloque turfa, cones de desova, folhas, etc. Adicione fertilizante. Aumente a iluminação para o máximo. Remova qulaquer planta flutuante. De início ao uso da cultura de infusórios. Verifique o pH.
Dias 11 a 19Deixe os peixes em paz.

Início da estação chuvosa: As primeiras nuvens já podem ser vistas no céu mas as chuvas não começaram a cair.

Dia 20Limpe o filtro que estava rodando no outro aquário. Diminua a iluminação tanto na intensidade quanto na duração (diminua para 10 horas). Retire a turfa e folhas. Verifique o pH.

Primeira chuva:

Dia 21Recoloque as plantas flutuantes. Adicione mais plantas do tipo que o peixe gosta para desovar. Adicione água limpa e mole (cerca de 20% do volume do tanque). A temperatura dessa água deve ser uns 3°C mais fria que a água do tanque. Recoloque o filtro e faça-o funcionar com metade de sua capacidade, se possível. Experimente desligar as luzes por umas duas horas no meio do dia para simular nuvens pesadas. Diminua a temperatura do termostato em 2°C. Alimente um pouco com larvas de mosquitos e artêmias salinas recém eclodidas. Adicione infusórios para que a água fique ligeiramente turva.
Dia 22Reponha mais 20% de água ao tanque com água 5°C mais fria. Aumente a vazão do filtro para o máximo, fazendo com que exista splash na superfície da água. Baixe a temperatura no termostato outros 2°C. Alimente bastante e com freqüência. Adicione infusório para turvar um pouco a água. Adicione alguma vitamina na água e fertilizante para plantas.
Dia 23Adicione mais 20% de água ao tanque com água 5°C mais fria. Ligue algum tipo de aeração, porém fraca. Baixe mais 2°C na temperatura do termostato. Alimente bastante e adicione mais infusório.
Dia 24Desligue o termostato se o peixe puder suportar a temperatura ambiente. Aeração a meia força. Complete o volume do tanque com água 5°C mais fria. Se for possível, abra uma janela durante a noite para baixar a temperatura ainda mais. Alimente bastante e coloque mais infusórios.

Alta estação das chuvas:

Dia 25Aeração em força total. Troca parcial de 50% e alimente bastante.
Dia 26 em dianteMantenha a aeração no máximo e faça trocas parciais de 50% e alimente bastante até que ocorra a desova.

Nota do tradutor: No dia 10 está sendo sugerido que as elevações de temperatura atinjam 28°C mas para muitos peixes tropicais que aguentem temperaturas mais elevadas, este valor pode passar de 28°C. 

Kristian Adolfsson
www.corydoras.net

Tradutor:

Marcos Mataratzis
Químico, Professor de Química e Aquarista. Administrador do fórum Vitória Reef.

Uso do sal, Cloreto de Sódio (NaCl), na criação de Betta splendens

Existem benefícios no uso de sal (NaCl), sal grosso (aquele de churrasco mesmo), no manejo da espécie Betta splendens, tais como:

  • Redução de problemas relacionados ao estresse causado, por exemplo, com a: captura, transporte e alterações na qualidade da água, diminuindo o risco de morte de espécimes;
  • Bactericida natural que desestabiliza o meio de cultura de várias classes de bactérias e impede que elas se alimentem e completem seu ciclo biológico. Diminui de forma significativa a chance de ovos fungarem;
  • Quando necessário, aumenta o nível de condutividade da água, estimulado o processo reprodutivo. Segundo literatura técnica disponível na web, a espécie Betta splendens prefere água com condutividade elétrica de 70 a 100 µS/cm (valores expressos em microSiemens por centímetro, que são medidos através de equipamento chamado condutivímetro).

De forma constante eu aplico 1 (uma) grama de sal grosso por litro de água na minha criação de Betta splendens e os resultados são excelentes.

Quando e se observo que o animal está estressado, com comportamento anormal, sem comer, apático, etc; aumento a quantidade de sal grosso para a proporção de 3 (três) gramas por litro de água.

Para o tipo de água de que disponho para trabalhar (serviço de abastecimento de água tratada de Campinas/SP), esta dosagem se mostrou satisfatória para esta espécie. Outros locais carecem de experimentação para achar a proporção ideal de adição de sal na água, sempre com muita cautela para não comprometer a saúde dos animais.

Sugiro a leitura dos excelentes artigos publicados (em língua portuguesa):