Sugestões para estrutura de exposição de Betta splendens em estabelecimentos comerciais de aquarismo e afins

É muito comum encontrarmos em estabelecimentos comerciais de aquarismo e afins, Betta splendens expostos de forma, no mínimo inadequada, em pequeno volume d’água, que geralmente está imunda, com restos de alimentos e excretas no fundo.

Este espetáculo deprimente sempre foi alvo de severas críticas, posicionamentos duros e apaixonados por parte de frequentadores das lojas, frequentadores de fóruns, grupos de discussões, redes sociais, protetores dos animais e da natureza. Estas condições estão longe de ser as ideais para a vida e saúde dos animais e depõem negativamente contra a imagem de uma empresa.

Parece não existir regulamentação sobre o tema até o presente momento, estabelecendo regras claras sobre o tema. Se existem, desconheço. Na falta de tal instrumento, apresento sugestões razoáveis, factíveis, economicamente viáveis e tecnicamente aceitáveis:

1) Aquário de vidro, termo-plástico ou acrílico; capaz de acomodar de 2,5/3,0 litros de água. Este aquário expositor deve ter tampa, para evitar acidentes com os peixes, que podem saltar para fora do aquário. Esta tampa também ajuda a manter o ar que está imediatamente acima da superfície da água, relativamente quente. Lembre-se que Bettas respiram essencialmente o ar atmosférico, através de seus labirintos e que são peixes de região geográfica de clima quente.

Padronize o tamanho dos aquários. Esteticamente fica mais agradável para quem explora o expositor e facilita sobremaneira o manejo diário.

2) Evite colocar substrato nestes aquários. Eles dificultam a limpeza de fundo, permitindo que colônias de fungos e bactérias cresçam de forma descontrolada. Além disto, os peixes podem se ferir durante o processo de captura com puçá (redinha).

3) Introduza plantas aquáticas naturais nos aquários. Além do fantástico efeito visual, elas valorizam a cor do peixe e ajudam a manter a saúde da água do aquário. Plantas que se alimentem de nutrientes existentes na água e que sejam pouco exigentes com relação a iluminação, tais como: Vesicularia dubyana, Pseudotaxiphylium distichaceum, Najas indica, Hydrila verticillata, Nymphoides aquatica, Ceratophyllum demersum, Elodea densa, etc.

4) Estes aquários devem ficar lado a lado. Mantenha uma folha de papel obstruindo 2/3 da área de visão dos peixes. Assim sempre que avistarem os peixes dos aquários vizinhos (e isto não acontecerá o tempo todo, ao ponto de gerar estresse para os animais), ficarão se exibindo uns aos outros, exibindo suas cores e formas exuberantes, defendendo seus respectivos territórios, viris, interessados em procriação e muito provavelmente nidificando.

5) Promova limpeza de fundo nos aquários todos os dias, com a ajuda de uma pipeta ou sifão. Remova excretas e restos de alimentos.

6) Promova TPAs (Trocas Parciais de Água) de aproximadamente 30% da água a cada 2 ou 3 dias. Use água isenta de cloro e metais pesados. Uso de condicionadores de água são recomendáveis. A adição de sal-grosso (de churrasco), na proporção de 1g/litro de água é recomendável. O sal é um bactericida natural, que em pequena dosagem, de forma preventiva, fará muito bem ao animal.

7) Monitore constantemente os parâmetros da água. Principalmente sua temperatura e pH. Promova correções, se necessário for, ajustando estes parâmetros, para os níveis tolerados pela espécie. Sempre de forma bem lenta.

Em regiões geográficas onde acontecem mudanças bruscas de temperatura ao longo do mesmo dia, em pequenos intervalos de tempo é recomendável a instalação de aquecedores nas betteiras, compatíveis com o volume de água, controlados por termostato.

É sempre bom reforçar que é menos estressante para o animal, adaptá-lo ao pH da água que você pode oferecer a ele, de forma bem lenta, do que ficar tentando colocar a água em algum parâmetro específico que você entenda ser o ideal. Lembre-se que você, provavelmente, irá comercializar estes peixes na sua região geográfica, para aquaristas que fazem uso da mesma fonte hídrica (água doce), que sua loja tem acesso e é para esta água (parâmetros) que você deve adaptar os peixes, para que eles se adaptem com menos estresse ao manejo que seus clientes possivelmente darão aos peixes comercializados por sua loja.

8) Ao embalar o peixe para seu cliente, procure usar a água da betteira de exposição, meça o pH e temperatura da água no momento da embalagem, escreva esta informação no saquinho plástico (use caneta de tinta permanente). De preferência faça isto com o acompanhamento do cliente, oriente-o a adaptar o peixe para parâmetros similares, de forma bem lenta, em seu destino. Ofereça ao cliente a mesma ração que você costuma alimentar os animais, para facilitar a adaptação do animal ao novo manejo. Mesmo que seja um bocadinho da ração, suficiente para uma adaptação para outra ração que o cliente prefira oferecer aos seus peixes.

9) Cuidado com seu manejo sanitário. Mantenha os puçás em solução de água sanitária ou água com grande concentração de sal e enxágüe-os muito bem antes de introduzí-los nas betteiras. Lave suas mãos muito bem antes de introduzí-la na água de um aquário.

10) Sempre que você receber um novo lote de Bettas em sua loja, procure mantê-los em quarentena, numa área reservada. Observe a vitalidade dos animais, coloração, apetite, etc. Suspeitando de problemas, peça ao veterinário responsável por sua loja, para examinar os animais, antes de oferecê-los ao público.

Perceba que todas as sugestões apresentadas são perfeitamente factíveis. Melhoram substancialmente as condições ambientais para os animais e sua saúde, podem reduzir as perdas de exemplares dentro do seu estabelecimento e consequentemente reduzem prejuízos. Por outro lado, aumentam suas chances de venda, aumento no nível de satisfação dos clientes, cria-se uma imagem positiva do seu estabelecimento para os frequentadores da loja, fidelizando-os. Mesmo na eventual falta de regulamentação, use o bom senso, pense na sua responsabilidade para com os animais que decidiu expor e vender em sua loja e trabalhe na construção de um “case” de sucesso (da SUA empresa).

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Especiais agradecimentos aos colegas (criadores da espécie, representantes de associações de criadores, lojistas, biólogos, veterinários, pesquisadores e operadores do direito), que muito contribuíram para a construção desta proposta (em ordem alfabética): John Klaus Kanenberg, Lorena Felisberto Goulart Pereira, Luiz Guilherme (Wyatt), Marcelo Assano, Max Wagner Saches Lucas, Ricardo Assunção, Ricardo Liang, Robert dos Santos, Roberto de Souza Godinho, Rodrigo Dutra, Thiago A. V. Cruz, Wesley Mendes, Wilson de Oliveira Vianna.

Oodinium na criação de Betta splendens

Resolvi escrever sobre este tema por conta do grande volume de mensagens que recebo sobre o tema. É preciso deixar claro que não tenho habilitação técnica para fazer tratado científico sobre o tema, tão pouco prescrever medicamentos ou tratamentos. Sou apenas um aquarista veterano, que aprendeu o pouco que sabe na base da tentativa, erros e acertos. Portanto, leia este material, faça suas ponderações pessoais, pesquise mais sobre o tema, e siga o caminho SUGERIDO, por sua conta e risco, se achar conveniente.

Se você identificou falhas na argumentação, informações equivocadas, por favor, escreva-me. Corrigirei a informação e ficarei agradecido pela ajuda. Toda ajuda é sempre bem vinda!

O Oodinium é uma doença muito comum na criação de Betta splendens, infelizmente. Se propaga de forma rápida, e pode por a perder sua criação inteira (larvas, juvenis e adultos), em questão de horas.

Sinais

Os animais apresentam sinais semelhantes ao Ichthyophthirius (Ictio). Aparecem pontos brancos pequenos espalhados pelo corpo, nadadeiras e branquias do animal, em seguida aparecem as lesões na pele, dando aspecto de poeira dourada ou de veludo, por vezes branco ou amarelo aveludada. Geralmente o animal fica prostrado, a cauda fica fechada, deixa de se alimentar, a respiração fica ofegante e observa-se constantes tentativas do animal se coçar nas paredes e/ou no fundo do aquário. Projetando-se a luz de uma lanterna sobre o corpo do peixe, esta “poeira” é facilmente identificada.

Conhecendo o inimigo a ser combatido

Trata-se de um parasita dinoflagelado. Seu ciclo de vida começa na água. Ele fica a espera de um hospedeiro adequado, de passagem. Quando o encontra, se fixa nele, geralmente e inicialmente nas brânquias. Ao conseguir se fixar, forma uma casca dura para se proteger do meio ambiente a passa a se alimentar das células da pele do peixe. Nesta fase cística, toma a aparência de “poeira”, cobrindo o corpo do animal. Depois de alguns dias o cisto se deposita no fundo do aquário, liberando nova geração de parasitas, realimentando o ciclo.

Tratamento sugerido

  1. Transfira este peixe para um novo aquário, limpo, livre da doença. Lavado previamente com água sanitária e muito bem enxaguado;
  2. Coloque água limpa neste aquário, isenta de cloro e/ou metais pesados. Mantenha a coluna d’água baixa, o suficiente para cobrir o corpo do peixe. Lembre-se, Bettas respiram essencialmente fora da água, então diminua o esforço do peixe para subir à tona para respirar. Bastará a ele virar a boca para cima e puxar o ar;
  3. Adicione um pouco de sal-grosso nesta água (sal de churrasco). A ponta de uma colher de chá de sal-grosso, por litro de água. Isto ajudará no tratamento;
  4. Eleve a temperatura da água em 1 °C ou 2 °C. Aquecedores com termostatos integrados, submersíveis, são os mais indicados para este propósito (são mais precisos);
  5. Adicione um Oodinicida na água, respeitando as indicações de quantidade do fabricante. Uso com muito sucesso, há anos, o Oodinicida da Atlantys®. É barato e eficiente;
  6. Cubra o aquário com um pano grosso. O aquário deve ficar totalmente no escuro. Este dinoflagelado precisa da luz para se manter vivo, enquanto não encontra o hospedeiro adequado para se fixar. Com a ausência de luz, você conseguirá interromper o ciclo de vida do parasita.

Por 5 (cinco) dias ininterruptos, troque a água total, adicione sal-grosso e Oodinicida na água, conforme indicado acima, mantendo o aquário no escuro o tempo todo.

Geralmente, após o segundo dia de tratamento, o peixe já parece estar curado, já começa a se alimentar e fica mais ativo. Apesar disto, continue o tratamento pelo número de dias sugerido.

Prevenção é a melhor solução

Lembre-se que muitas doenças, inclusive o Oodinium, acabam se manifestando ou se intensificando em momentos de estresse do peixe (mudanças repentinas no parâmetros da água, manejo inadequado, transporte, etc).

Adote como procedimento padrão, sempre que adquirir um novo animal, colocá-lo em quarentena. O mantenha por 40 dias, sob atenta observação. Jamais o introduza em aquários coletivos (fêmeas, no caso de Bettas) ou bateria de “betteiras”, onde haja circulação de água entre os aquários, sem observá-lo em quarentena.

Se possível, não introduza equipamentos usados em um aquário, noutro aquário. Tenha equipamentos exclusivos para cada aquário (puçás, sifões, pipetas, etc). Não sendo possível, sempre lave-os muito bem com água sanitária, enxaguando em seguida, em água corrente, antes de introduzí-los noutro aquário. Observe também que suas mãos devem ser lavadas cuidadosamente e atentamente após manuseio de cada aquário.

Uso do sal, Cloreto de Sódio (NaCl), na criação de Betta splendens

Existem benefícios no uso de sal (NaCl), sal grosso (aquele de churrasco mesmo), no manejo da espécie Betta splendens, tais como:

  • Redução de problemas relacionados ao estresse causado, por exemplo, com a: captura, transporte e alterações na qualidade da água, diminuindo o risco de morte de espécimes;
  • Bactericida natural que desestabiliza o meio de cultura de várias classes de bactérias e impede que elas se alimentem e completem seu ciclo biológico. Diminui de forma significativa a chance de ovos fungarem;
  • Quando necessário, aumenta o nível de condutividade da água, estimulado o processo reprodutivo. Segundo literatura técnica disponível na web, a espécie Betta splendens prefere água com condutividade elétrica de 70 a 100 µS/cm (valores expressos em microSiemens por centímetro, que são medidos através de equipamento chamado condutivímetro).

De forma constante eu aplico 1 (uma) grama de sal grosso por litro de água na minha criação de Betta splendens e os resultados são excelentes.

Quando e se observo que o animal está estressado, com comportamento anormal, sem comer, apático, etc; aumento a quantidade de sal grosso para a proporção de 3 (três) gramas por litro de água.

Para o tipo de água de que disponho para trabalhar (serviço de abastecimento de água tratada de Campinas/SP), esta dosagem se mostrou satisfatória para esta espécie. Outros locais carecem de experimentação para achar a proporção ideal de adição de sal na água, sempre com muita cautela para não comprometer a saúde dos animais.

Sugiro a leitura dos excelentes artigos publicados (em língua portuguesa):